02/07/2005

A verdade do ensino

"É inquestionável que os professores sofrem as consequências da crise global que afecta todo o sistema de ensino e que tem como causa próxima as políticas educativas seguidas nos últimos anos, em Portugal e em todo o mundo ocidental. Como escreveu António Teodoro - em local e momento que não sei precisar -, «os professores acrescentaram à sua função tradicional de transmissores de conhecimentos a de animadores culturais, de assistentes sociais, de responsáveis administrativos e políticos.
Esta concepção multifuncional dos professores traduziu-se num factor de perturbação, transformando os professores em verdadeiras criadas para todo o serviço». Esta concepção aliada a valores que invadiram a escola e que transformam o trabalho docente. em nome do sucesso educativo, numa «taylorização camuflada» criaram uma evidente crise de identidade, de gosto e de prazer pelo exercício da profissão. O que existe é insegurança, desconforto e mal-estar.O professor viu desvalorizados os
conteúdos culturais e formativos das respectivas disciplinas, a primeira razão de ser da sua profissão, em nome de um pedagogismo falacioso, e caiu no logro de passar «a viver» a escola. Que se traduziu em passar lá mais tempo a fazer um pouco de tudo e a ensinar cada vez pior. Como se isto não fosse já suficiente, viu as suas condições de trabalho piorarem, o seu sistema remuneratório ser progressivamente desvalorizado, as escolas serem transformadas em locais de violência, e alunos, pais e administração a exigirem-lhe cada vez mais, quando não a responsabilizá-lo por as coisas não correrem bem. «O professor mal pago, isolado, denegrido e humilhado, quer pelos alunos, quer pela hierarquia interiorizou esta sua condição e despreza o seu próprio trabalho»12. E contrariado, é obrigado a participar em infindáveis reuniões para tudo e para nada. A fazer actas.A fazer planificações (a longo, médio e curto
prazo) que quase sempre se transformam em meras idealizações que a prática concreta não confirma. A definir objectivos, os quais têm que ser gerais e específicos e obedecera uma nomenclatura especializadíssima. A fazer avaliações as quais deverão ser formativas, sumativas e globais. A fazer matrículas. A organizar as turmas. A
contabilizar as faltas dos alunos. A preencher pautas, fichas, parâmetros e outras papeladas. A elaborar horários. A decorar a escola. A pintar campos de jogos. A fixar cabides em balneários. A recuperar material. A organizar o inventário. A receber os pais. A dar mais atenção aos filhos dos outros que os próprios pais lhes dão. E finalmente, também, a dar aulas. E aqui, a dispor de estratégias de remediação para
tudo, em nome, de uma eventual «ciência» educativa. Ou seja, a dar valor e importância a aspectos secundários e em alguns casos dispensáveis da acção docente e a se não dedicar ao essencial: a matéria de ensinar. não dedicar ao essencial: a matéria de ensino e o acto pedagógico. A extensão e a consequência desta situação está à vista de todos: transformados em «pau para toda a obra» têm do exercício da profissão uma imagem que não está apenas desvalorizada aos «olhos dos outros»: ela
está também instalada no seio dos professores. Basta para tanto que os oiçamos. E se possível, contabilizemos, quantos não mudariam rapidamente de profissão se acaso a oportunidade surgissel3. E quantos outros, não encontram em outras actividades profissionais exteriores à Escola, a compensação profissional que aquela lhe não oferece. Esta crise é geral, e afecta naturalmente e também os professores de Educação Física. E estes, tais como os restantes, são chamados a lutar pela alteração deste estado de coisas. Desde logo, recusando a funcionalização dás suas tarefas profissionais. Mas igualmente revalorizando o essencial das suas profissões: as matérias que têm para ensinar
.

A Ministra disse...

Disse muitas coisas, ainda que não a tenha ouvido no Parlamento nem visto na RTP. Disse que os estágios são "um gritante desperdício" e que é "esquizofrénico" estar a pagar a jovens sabendo que nunca o Estado irá precisar deles. «Muitos vieram enganados na expectativa de terem uma profissão num campo de actividade que não tem mais saída, mas isso lamento. Não podemos é continuar a alimentar as expectativas dos jovens, que pensam num futuro imediato como professores, quando sabemos todos que não vão ter», acrescentou.

De resto, anunciou aquilo que parece ser a fusão dos Quadros de Escola e Quadro de Zona num único critério de ordenação. Sobre contratados e desempregados, nada mais há a registar, motivo pelo qual apenas posso recomendar este link, com uma reflexão muito bem conseguida disponibilizada por f..., participante do fórum Educare.

01/07/2005

A Fenprof e as vinculações dinâmicas

Encontrei isto na internet, fazendo simplesmente uma pesquisa por "vinculação dinâmica" no google. Trata-se de um registo das acções da fenprof, entre 1990 e 2000 relativamente às vinculações dinâmicas dos cobtratados. Se encontrar coisas mais recentes, di-lo-ei. Se encontrarem, digam, que faz falta sabermos como é que "eles" se estão a mexer. Entretanto, segunda-feira (dia 4 de Julho de 2005) há um plenário de professores contratados na sede do spn. Quem puder comparecer... Insisto: se não comparecemos a estas coisas, se não nos mexemos, de que é que nos queixamos?

Sindicato de Professores do Norte

O spn tem uma secção dedicada exclusivamente aos contratados e desempregados. Vale a pena saber o que se passa!

Os professores trabalham pouco...

Excelente exemplo no Público de hoje sobre o quotidiano de um professor. Vale a pena ler o comentário de uma leitora...

O fim das remunerações nos estágios pedagógicos.

Diz a Ministra que a intenção não é só poupar - é também evitar o excesso de jovens atraídos pelo ensino. Pois, mas agora é necessário fornecer-lhes alternativas credíveis, como cursos de reconversão profissional. E também se pode perguntar se as escolas têm excesso ou falta de professores: é que se a ratio professor/aluno até é razoável, em comparação com países europeus, já a situação experienciada por aqueles que tiveram a sorte ed trabalhar não é bem essa: quem nunca teve turmas de 30 alunos que levante um dedo.

Uma pergunta (enviado por e-mail aos sindicatos)

"Leio no site da FNE que existe a preocupação de discutir o problema dos "trabalhadores não docentes".

Leio ainda no site da FENPROF que "Os professores com redução da componente lectiva por antiguidade não terão qualquer nova redução pelo desempenho de cargos. Esta alteração, para além de criar desigualdades entre os professores, agrava, de facto, a componente lectiva dos docentes que já usufruem de reduções."

Estranho que não haja a este propósito nenhuma palavra sobre as consequências desta medida sobre os contratados - ou seja, a sua eliminação pura e simples. Em contrapartida, a referência à situação dos trabalhadores não-docentes a par do insustentável silêncio relativamente aos contratados e desempregados parece constituir uma absoluta falta de respeito para com os professores que não pertencem aos Quadros.

Gostaria portanto de saber quais são as medidas que a FENPROF e a FNE pretendem apresentar e/ou exigir do governo relativamente aos professores contratados, bem como saber quais as diligências que têm sido tomadas nesse sentido."

Obviamente, fico à espera sentado.

Futuros desempregados

Centenas de alunos protestam hoje contra o fim da remuneração dos estágios pedagógicos. Já não chega ficarem desempregados: têm de trabalhar para isso.

As medidas do Ministério

O Governo anunciou as medidas de contenção para a Educação. Assim, " o docente que desempenhe cargos de natureza pedagógica [deixará de beneficiar da] redução da componente lectiva"; o "tempo máximo de recuperação do docente, incapacitado ou diminuído para o cumprimento integral do exercício de funções" passa a ser de 18 meses; no ano em que "o docente atinja o limite de idade ou pretenda aposentar-se de forma voluntária" deixa de lhe ser atribuído um horário zero; e os "estágios pedagógicos do ramo educacional e das licenciaturas em ensino" passam a "modalidades de prática pedagógica supervisionada, não dando lugar a atribuição de turma aos alunos estagiários, nem ao direito a retribuição" remuneratória.

Como se não bastasse, també se acaba com o ensino do Português no estrangeiro.

Mais (!) preocupante a longo prazo é isto:
"a) Combater o insucesso escolar no ensino superior;
b) Concentrar a actual multiplicidade de cursos de baixa frequência;
c) Não criar qualquer nova escola superior;
d) Avaliar criteriosa e selectivamente a necessidade excepcional de novas infra-estruturas;
e) Rever os estatutos das carreiras docentes"
f) Reforçar as condições de governo de universidades e politécnicos, com acompanhamento externo.

Se continuam com esta vontade toda, até tenho medo do que possa vir aí...

Professores, os Privilegiados

Levanto-me, de manhã, por volta das 06:30 para fazer uma viagem de 45 km até à minha escola. Gasto 6€ em gasolina e 2,40€ todos os 5 dias da semana só para ir trabalhar. Tenho aulas em 8 dos dez turnos (manhãs e tardes) da semana, o que significa que almoço na escola 3 vezes por semana, à média de 6€ por refeição. Por semana são 54 euros, mais ou menos 230 em cada mês. Há dias em que tenho uma aula às 08:30 e depois só volto a ter aulas às 12:00. Durante aquelas duas horas nada posso fazer senão olhar para o boneco, que a escola não tem condições para se poder trabalhar. Chego a casa por volta das 18:00, tão cansado como qualquer outro português depois de um dia de trabalho. Mas há dias em que chego mais tarde, porque tenho reuniões de grupo, de departamento, de conselho pedagógico, de coordenação do centro de recursos, com os pais, de directores de turma, do ensino especial, etc, etc, etc.Sou contratado há 11 anos. Embora as empresas privadas sejam obrigadas, por lei, a inserir nos quadros de pessoal todos os funcionários com 3 anos de "casa", o Estado dá-me um valente pontapé nos fundilhos todos os dias 31 de Agosto de cada ano. Até 2000, nem subsídio de desemprego recebia; e os que recebi após essa data fui obrigado a devolver porque, segundo as finanças, os meus ganhos são "muito elevados" (sic).

Todos os anos mudo de escola: quando me começo a habituar ao sítio onde estou, já estou de partida. Os meus alunos perguntam-me se serei professor deles no próximo ano: respondo-lhes que não sei, sequer, se serei professor novamente na vida. No dia em que efectivar, se for vivo quando lá chegar, terei de partir para a diáspora: migro para uns valentes 200 ou 300 km de distância, na esperança de conseguir uma escola ao pé de casa - a uns 45 km, como actualmente - quando já for velhinho.Desde que comecei a leccionar já dei mais de 20 níveis diferentes, o que dá uma média de 2 níveis novos em cada ano. Já nem tenho espaço no escritório para tantos dossiers...

A cada semana que passa dou 20 horas de aulas, distribuídas por 6 turmas e 150 alunos. Para cada hora de aulas preciso de pelo menos outra hora para as preparar. É que, como imaginarão, não vou às aulas sem saber o que vou lá fazer... Se mandar os meus 150 alunos fazer um trabalho de casa por semana e os corrigir em casa, precisarei de pelo menos 10 minutos para corrigir cada um: ou seja, corrijo 6 trabalhos por hora. Logo, numa semana passo 25 horas a corrigir trabalhos e/ou testes. Dando 20 horas de aulas por semana MAIS 20h para as preparar MAIS 25 para corrigir trabalhos, descubro que trabalho pelo menos 65 horas por semana, ainda que a Senhora Ministra me enfie pelos ouvidos que trabalhamos, nós, os privilegiados, apenas 35 h por semana. E nestas contas não estão as duas horas diárias em viagem, nem as duas horas de almoço, nem os tempos mortos que passo na escola,sem sítio para trabalhar.

Tenho rendimentos "obscenos". Como estou o índice 151, ou seja, em situação de pré-carreira, ganho (líquidos) €1000/mês, qualquer coisa como 250€/semana. Trabalho à volta de 65 horas por semana; isso significa que recebo do Estado qualquer coisa como 4 euros por hora. Não tenho empregada doméstica porque elas ganham mais do que isso a cada hora que passa. Os meus colegas que fizeram uma licenciatura noutra área qualquer, que são tão licenciados quanto eu, gabam-se de ganhar pelo menos o dobro do que eu ganho. Fico feliz por eles, mas não é com isso que encho a barriga. O meu automóvel tem 7 anos, é um Punto dos mais baratitos e não tenciono mudar tão cedo porque não tenho dinheiro para comprar outro. E mesmo que o tivesse, não sei se estarei empregado daqui a 3 meses. Sou, portanto, um privilegiado.

A minha esposa também é professora. Residimos, enquanto contratados, no Porto. O problema é que no meu grupo disciplinar só é possível efectivar se for para o Alentejo durante dois anitos, depois para a Serra da Estrela, por fim Bragança, Vila Real até chegarmos a Amarante, a apenas 50 km, altura em que me sentirei realizado: estarei perto de casa!!! Como não é possível irmos juntos nessa aventura, já combinamos: eu vou para o Alentejo; depois vai ela, quando eu estiver em Bragança; encontramo-nos a meio do país, no Entroncamento; dividimos os filhos a meias e, quando tivermos 50 anos (temos 30 e poucos nesta altura) voltaremos a ter vida conjugal. Só tenho algum receio de não me lembrar da cara dos meus filhos, se por acaso os encontrar em algum comboio intercidades...

Chego a esta conclusão: para quê dar o litro pelo ensino, se o ensino não me dá nada a mim? Não sou um missionário! Sou um profisssional de educação - e isso significa que também tenho barriga! Já me basta ter de aturar "colegas" que não me respeitam, criancinhas birrentas mal educadas pelos pais, Pais que nunca o deveriam ter sido pois não assumem as suas responsabilidades, edifícios degradados em que nem giz tenho para escrever no quadro, ...

E ainda há quem pense que os Professores são privilegiados?