30/11/2006

Exames Nacionais

A ideia de escola sem exames poderá parecer sedutora em teoria, mas na prática o resultado é a completa desmoralização e desvalorização social da própria escola. A abolição dos exames é, em grande medida, responsável pelo colapso do sistema educativo. Quando o colapso se tornou evidente, os sucessivos ministérios procuraram dificultar a reprovação legítima e eliminar as disciplinas centrais do conhecimento, substituindo-as por vacuidades que permitam aprovação quase automática, afastando as matérias "difíceis". O resultado é a degradação cada vez maior do ensino, aprofundando-se cada vez mais as diferenças entre quem vem ensinado de casa e quem precisa realmente da escola para ser ensinado porque nem livros tem em casa (e não necessariamente por falta de dinheiro).

Desidério Murcho,
num artigo que a Texto Editores impediu de sair na defunta Pontos nos ii

28/11/2006

Importa-se de repetir?

Exame de Eduquês

Há muito tempo que a Júlia (chamemos-lhe assim) se vinha preparando para o teste: A Júlia é professora e, na altura em que tirou o curso, foi-lhe conferido o grau de bacharel. Mas sabe-se como essas coisas são. Hoje em dia, em Portugal, não se faz nada por menos que doutor, e a pobre da Júlia, para subir de escalão e não ficar atrás nos concursos, lá se abalançou a uma formação complementar para conseguir a licenciatura. Disciplinada, meteu mãos à obra e, fora das horas de trabalho, mergulhou, noites a fio, nas «ciências da educação». E o dia do teste lá chegou. Na Escola Superior de Educação Almeida Garrett. Disciplina de Educação e Valores. Cheia de brio, atacou a primeira pergunta:«A educação é moldura adaptável pelo professor ao aluno no decurso do processo educativo. Concorda? Porquê?» Como é óbvio, a Júlia não concordava nem deixava de concordar. A pergunta dava para tudo. Já cá volto, vamos à segunda.«Numa época de canhestros, sistemáticos e fragmentários dogmatismos, labilismos, labialismos, turismos culturais, pragmatismos, cepticismos, determinismos, fatalismos, autismos, narcisismos, parolismos... - mais ou menos camuflados por dinâmicas endógenas e exógenas - um relance, embora perfunctório, sobre a ossatura programática da Disciplina, permite afigurar-se razoável, liminarmente, a susceptibilidade de desfibrá-la, entre outras, nas seguintes dïcotomias axiológicas mediáticas multifacetáveis, confinantes, congruentes, sinalagmáticas..., a entrecruzarem-se, transumirem-se, transubstanciarem-se, transversalizarem-se, etc., v.g: Educação-Ética; Cultura-Civllização; Valores-Referências. Sem irrelevar o subjacente, atípico e ágrafo património - genético, material e espiritual - a montante e a jusante do aluno, teça um comentário sinóptico (corroborante ou repudiante), ancorado em dimensão axiológica e argumentos, empíricos ou especulativos, minimamente válidos.»Júlia estava compreensivelmente assustada. Não sabia se havia de corroborar ou repudiar. Para mais de forma sinóptica. Vamos ver a próxima.«Causalizando os respectivos objectivantes, o maior ou menor sucesso intelectivo-educacional materializa-se em facultar ao Homem/Aluno uma plena e interactiva adaptação ao meio, preconizando a sua vivência numa sociedade virtual que ainda não existe. Sufraga ou impugna? Justifique.»Júlia estava quase a ter uma coisinha má. Não fazia a mínima ideia se queria sufragar ou impugnar. Mas ainda atacou mais outra.«No acervo do "mapa-múndi" noosférico (habitat cultural dos valores), sem intuitos exaustivos, trace a noção génese, características, mudança, hierarquia, taxinomia, teleologia, filosofia, peregrinação, utopia, potestade e heurística axiológicas.» Para cinco valores.

Júlia rompeu em pranto.*

*retirado de http://aguiar-conraria.weblog.com.pt/arquivo/168604.html

27/11/2006

Resposta a : Castigos, avaliações e... invenções!

Quis responder ao eccerui, http://nafloresta.blogspot.com/, mas comecei a escrever e saiu um texto tão grande que resolvi colocá-lo aqui.
...
Não me parece que o que tu faças seja relatar um caso pessoal. Acho que o que tu fizeste foi pessoalizar os casos da grande maioria dos professores, especialmente dos muitos que já cá andam há muitos anos. No que se refere ao estágio não foi o meu caso já que o meu curso era o único curso superior do qual saíamos com estágio já feito. De todos os outros saíram milhares de professores nas mesmas condições em que tu saíste… sujeitos aos humores do ME, ou de qualquer outra sigla que usava na altura, para abrir vagas para estagiar.

Relativamente ao trabalho, ao que fizemos, ao currículo que construímos, estamos quase todos na mesma. Tudo foi ignorado… tudo vai ser esquecido… Por isso não falas de um caso pessoal… falas de um colectivo que vai ver todo o seu trabalho branqueado.

Na altura da mudança para o 8º escalão tive que elaborar um currículo, teoricamente para depois ser discutido, o que implicava ter também uma crítica reflexiva sobre o trabalho desenvolvido. Em conversa com um colega da Faculdade disse-lhe que não fazia mínima ideia do que colocar no tal currículo já que a única coisa que eu tinha feito toda a vida era dar aulas. Ele riu-se e respondeu-me “estás enganada!” E começou a perguntar “não fizeste isto?… não fizeste aquilo?… não estiveste aqui?... não foste ali?... não apresentaste este trabalho?... não fizeste aquela intervenção, naquele congresso?... não foste isto?... não foste aquilo?... não desenvolveste esta acção?... não dinamizaste aquela outra acção?... não implementaste isto?… não promoveste aquilo?… E foi-me falando de “coisas” que para mim eram inerentes ao dar aulas, “coisas” que eu tinha feito porque faziam parte de mim, da minha disciplina, da minha escola, da minha profissão. “Coisas” a que eu não tinha dado importância como “coisas feitas” porque as tinha feito por gosto, porque as tinha feito na continuidade, no complemento da minha acção como professora, por inerência da minha profissão, do meu gosto por melhorá-la…
E disse-me mais “ tudo o que fizeste contribuiu para seres melhor professora … tudo o que fizeste para melhorares os teus conhecimentos, para melhorar o enquadramento da tua disciplina, para melhorar a escola, para melhorar o clima relacional entre os alunos, contribuiu para que as tuas aulas melhorassem… contribuiu para que sejas melhor professora”. Respondi-lhe: tenho comprovativos de congressos onde estive, de acções a que fui, porque normalmente os usava para justificar as faltas mas ninguém me passou comprovativo da dinamização que fiz e envolveu os putos todos da escola, ou do outro trabalho que fiz no defesa da disciplina. “Relata-os – isso é trabalho feito… é uma mais valia para ti, para quem contigo a desenvolveu e para quem nela interveio. Isso é uma mais valia para a escola em que trabalhas, para os alunos com que lidas, para o grupo a que pertences ” - disse-me ele.

E eu que pensava não ter feito mais nada se não dar aulas, vim para casa e pus-me a escrever o currículo. E fiz um currículo com 60 folhas (sem contar com os comprovativos)!!! E depois de o entregar lembrei-me de “coisas” que davam para mais umas 10/15 folhas...
E as “coisas” transferidas para o papel não valorizam, não relatam, não mostram o que fizemos, não estão lá as emoções que sentimos ou fizemos sentir, não estão lá os olhos dos putos que brilharam com aquela acção desenvolvida na escola, não estão lá os risos que provocámos com a outra acção, não está lá a lágrima daquele outro que nunca tinha sido bom em nada e nós fizemos “o milagre” de lhe conseguir dar um qualquer prémio para ele perceber que também podia ser bom.

Isto passou-se há uns 10/12 anos e correspondeu a 2/3 da minha vida profissional. Tenho mais 1/3 de “coisas” que entretanto fui fazendo.
Falei de mim, mas a maioria das “coisas” não as fiz sozinhas. Foram trabalho de equipa, quer tivessem sido feitas na escola, quer noutros “lados” em que trabalhei pela melhoria da disciplina e do ensino. Como eu há milhares de professores que todos os dias, todos os anos da sua carreira contribuíram, com o seu trabalho e com as suas horas fora das aulas, para que a escola, a sua disciplina, o ensino melhorassem. Todos os dias, todos os anos, há milhares de “coisas”, pequenas ou grandes, que são feitas por nós, que são o resultado do nosso trabalho
...
Sei que tudo isto nunca foi contabilizado na progressão que havia até agora, sei que havia uns que faziam muito e outros faziam menos, sei que havia uns que tinham tempo para tudo e que outros não tinham tempo para nada … sei disso e sei de muito mais… No entanto também sei que se nunca foi contabilizado, também nunca foi branqueado. Sei que a avaliação por muitos defeitos que pudesse ter nunca ficou dependente de um exame que iremos fazer perante um júri que não sabe o que é uma escola e perante o qual iremos ter que, na melhor das hipóteses, ir defender uma qualquer última teoria, de um qualquer último livro, de um qualquer autor da moda, que pode ser muito bonita para uma discussão académica, mas que de nada serve no contexto diário em que vivemos.
Sei que a avaliação podia ter muitos defeitos, que podia ter deixado passar alguns que não deviam ter progredido, mas estes alguns eram mesmo e só alguns, eram mesmo tão poucos que não constituíam mais do que uma gota de água no oceano.
Sei que a avaliação podia ter muitos defeitos… mas bastava tê-la regulamentado.

Esta avaliação que agora se propõe não é uma avaliação… é apenas um meio de poupar dinheiro … e para isso desvaloriza-se (é o que o ME tem feito com tudo… desvalorizar!)… e para isso ignora-se todo o trabalho feito… e para isso branqueia-se toda uma vida profissional desenvolvida…
E depois fala-se de empenho, fala-se de mérito!!!!

24/11/2006

E se fosse cá?

23/11/2006

Vicente Romano

A caminho da escola, não tenho tempo para mais que uma recomendação: o livro "Formação da identidade submisssa", de Vicente Romano, que pelos vistos até deu uma entrevista à Visão. Honra ao blog onde fui reencontrar o artigo e o nome do autor: o Tux Vermelho, cujo lema é "O BEM MAIS PRECIOSO É O CONHECIMENTO. PARTILHA-O!"

Basta um lema assim para ganhar mais um leitor.

21/11/2006

José Pacheco dixit

"Cansei-me de ver a comunicação social dar guarida a espertalhões que atingem o topo de venda de livros, criticando o "eduquês". Eu também o critico, porque muita da literatura das ditas ciências de educação não passa de literatura de cordel."

Se o homem o diz, quem sou eu para o criticar?

19/11/2006

Grotesco

José Pacheco consegue surpreender-nos, mais uma vez pela negativa. No artigo aqui linkado, perora sobre os malefícios dos exames nacionais, as chamadas ao quadro, os interrogatórios orais e estabelece uma infeliz analogia entre o ensino "do antigamente" e aqueles que, hoje, defendem um outro modelo de escola. Acaba o artigo afirmando que os exames são (sic) "uma merda".

Profunda habilidade retórica; profunda densidade semântica do discurso; torna-se evidente a necessidade de proceder a uma análise semiológica de forma a alcançar uma dimensão trans-hermenêutica que permita compreender a inexorável inextrincabilidade da inextrincável inexorabilidade do acto ensinar-a-aprender, correlativo do aprender-a-ensinar.

A discussão segue no ensinar na escola.

17/11/2006

Disto não falam eles...

Repescado n'O Cartel:

http://www.oecd.org/dataoecd/44/35/37376068.pdf

Onde se demonstra que afinal, os números da OCDE são outros.

Onde está a Ministra?

Aquilo que o eduquês me ensinou (II)

Os "cientistas" da educação que me "formaram" na faculdade diziam coisas que ainda hoje me fazem muita confusão. Diziam, entre muitas outras, que a relação pedagógica é uma relação democrática; e que a aula é um espaço de partilha de saberes.

Ora, não é nem uma coisa nem outra. Em primeiro lugar, não pode haver democracia dentro da sala de aula pelo simples motivo de que nenhum aluno pode mandar tanto como um professor; logo, não são todos iguais coisíssima nenhuma. Em segundo lugar, porque se o professor vai para uma sala de aula onde [sobre a sua disciplina] vai partilhar saberes com os seus alunos, assumindo que sabem tanto uns (alunos) como os outros (professor), então o dito professor deve ter vergonha na cara e voltar para casa porque não está lá a fazer nada. Ele é pago para saber mais que os seus alunos e ter mais autoridade do que eles, não para "partilhar experiências" e outras mariquices do género.

Portanto, esqueçam essa treta da relação democrática e da partilha de saberes. Constitui a negação da essência do professor.

15/11/2006

A ler

Já aqui insisti neste facto: o actual ensino só desfavorece as classes já desfavorecidas. Leia-se mais sobre o assunto aqui.

12/11/2006

Aquilo que o eduquês me ensinou (I)

Um rapaz de 13 anos bate na professora. Não é a primeira.

Muito bem.

Segundo aquilo que me ensinaram na faculdade, há que procurar as causas da agressão. Quais os antecedentes do aluno? Qual o ambiente familiar? Poderá tratar-se de um caso psicossomático? Ou alguma degenerescência do sistema nervoso central? O mais provável é ser um miúdo ansioso, com problemas de stress agudo provocados pela própria professora. E qual a real implicação da professora neste caso? O que fez ela para causar a agressão? Se a agrediu a ela mas não aos outros, o que houve no comportamento da docente para provocar esta situação? Poderá a professora em causa ter potenciado o acto de indisciplina?

Em suma, o que o eduquês me ensinou foi que o miúdo é uma vítima inocente da sociedade que o corrompeu. A causa efectiva da indisciplina é o professor.

Os meus paizinhos ensinaram-me que uma valente bofetada no focinho na altura certa é mais adequada.
Era o que eu teria feito.

04/11/2006

Sobre o espartilhar da carreira...

...

Do que não precisamos...



Acabei de ouvir o Mário Nogueira na 2 e gostei.

No entanto há uma pergunta recorrente a que eu não vejo dar a resposta que explique as nossas razões. Essa pergunta tem a ver com a recusa das quotas e do espartilho da carreira.

Passam o tempo a comparar-nos com outras carreiras, com a progressão a que estão sujeitas, com a impossibilidade de todos atingirem o topo. Comparam a nossa carreira com a carreira militar, com a carreira dos médicos, e agora até com as outras carreiras da FP. (até já nos compararam a vendedores!!!!)
E sobre esta comparação não temos sido felizes na contestação da igualdade de situações.

Quer-me parecer que deveríamos explicar a estes srs que todas as carreiras à excepção da carreira de professores são de progressão vertical. A nossa é diferente… é de progressão horizontal.

Qual é a diferença?

Nas carreiras de progressão vertical as tarefas vão-se tornando diferentes e específicas conforme se vai progredindo. São, todas elas, carreiras em que existe uma cadeia de comando, em que cada “posto” chefia, com todas as implicações que daí advêm, o “posto” abaixo, pelo qual é responsável e responde perante o “posto” acima. A razão para nem todos poderem progredir prende-se com a existência de uma estrutura piramidal, em que 1 chefia 2, que chefiam 4, que chefiam 8, etc… Em cada patamar existem funções diferenciadas… não continuando todos a desempenhar a mesma função que no patamar anterior. E em cada patamar vão existindo cada vez menos “funcionários” já que se vai entrando nos patamares das chefias. E para “chefes”, “subchefes”, etc., são necessárias cotas. Estas são as características de uma carreira de progressão vertical.

Na única carreira de progressão horizontal que existe, a dos professores, nada daquilo se passa. Todos desempenhamos, desde o princípio até ao fim, a mesma função básica… somos professores e damos aulas (e ainda bem!). Para além das aulas, todos desempenhamos, em pé de igualdade, as mesmas funções, fazendo todos os outros serviços existentes nas escolas, quer se prendam com as actividades que foram recentemente adstritas à componente não lectiva, quer se prendam com as burocracias existentes, quer ainda com os denominados cargos existentes. Acrescente-se o facto de considerarem que quanto mais “acima” se está menos respeito se merece já que como menos carga lectiva se tem mais se serve para “pau para toda a obra” – para estes sobraram, para encher os tempos não lectivos, as substituições e as tarefas similares. Estes tempos não foram destinados à produção de trabalho que a experiência acumulada poderia produzir, mas sim a suprir as faltas de condições existentes nas escolas. Não há diferenciação de tarefas … e não é a atribuição de cargos de coordenação, apenas aos futuros professores titulares, que vai fazer essa diferenciação. Estes cargos não implicam uma cadeia de comando… não são cargos de chefia (mesmo que daí advenha a responsabilidade de avaliar os colegas. Estes cargos não são mais do que cargos de coordenação e orientação do trabalho de um grupo. Todos os professores que tenham estes cargos, continuam a dar aulas… e por força do estatuto que nos querem impor, estes professores aumentarão ainda a sua carga lectiva. Não há portanto nada de similar com uma carreira de progressão vertical. Os patamares são horizontais, não em degraus de uma escala.

Há razão para haver avaliação para se progredir na carreira porque não há profissão que resista a um patamar único já que isso desmotiva. Há razão para haver uma avaliação exigente, centrada em parâmetros de profissionalismo, de competência e de formação, para que se possa progredir entre os diversos patamares. Não há razão para que numa carreira com estas características não possam ser todos excelentes, já que o que se pretende, exactamente, é que todos os professores sejam os melhores. Não há razão para que meia dúzia estejam “no topo” e a outra dúzia não possa lá estar já que não desempenham funções, diferenciadas o suficiente, para o justificar.

f... (professora no 10º escalão… o que quer dizer que não está a defender nenhum tacho, mas sim uma causa justa)


04/10/2006

Marcha Nacional dos Professores e Educadores

Amanhã, dia 5 de Outubro, Dia Mundial do Professor, os professores e educadores portugueses vão estar juntos a exigir, do ME, uma negociação efectiva e protestando contra a tentativa de imposição de um novo Estatuto da Carreira Docente que retira ou reduz direitos, salários, tempo de serviço, condições de trabalho e de exercício profissional.

Assim, contra a proposta do ME de liquidação do ECD, pela dignificação dos professores e educadores e em defesa de uma escola de qualidade, os docentes portugueses irão participar, em elevado número, na Marcha Nacional que se iniciará às 15 horas, no Marquês de Pombal, terminando no Rossio onde terá lugar um Plenário com intervenções de representantes das 4 Mesas Negociais que se encontram envolvidas no processo de revisão do ECD.

No Plenário, as 14 organizações (às 13 que, até agora, integravam a plataforma sindical de docentes juntou-se o SINPROFE) anunciarão as formas de luta que necessariamente se seguirão à Marcha, mais do que justificadas após a realização de uma reunião (a de hoje, dia 4) em que o ME não respondeu positivamente a nenhuma das 7 questões colocadas pelas organizações sindicais no documento "7 Premissas para uma negociação séria e efectiva".


As Organizações Subscritoras:
FENPROF - Federação Nacional dos Professores
FNE - Federação Nacional dos Sindicatos da Educação
FEPECI - Federação Portuguesa dos Profissionais da Educação, Ensino, Cultura e Investigação
ASPL - Associação Sindical de Professores Licenciados
PRÓ-ORDEM - Associação Sindical dos Professores Pró-Ordem
SEPLEU - Sindicato dos Educadores e Professores Licenciados pelas Escolas Superiores de Educação e Universidades
SIPE - Sindicato Independente dos Professores e Educadores
SIPPEB - Sindicato dos Professores do Pré-Escolar e do Ensino Básico
SNPES - Sindicato Nacional dos Professores do Ensino Secundário
SNPL - Sindicato Nacional dos Professores Licenciados
SPLIU - Sindicato Nacional dos Professores Licenciados pelos Politécnicos e Universidades
USPROF - União Sindical dos Professores
SINPROFE - Sindicato Nacional dos Professores e Educadores

24/09/2006

Ideologia, Retórica e Democracia

Público, 24 de Setembro de 2006

António Paulo Costa
Professor de Filosofia do Ensino Secundário

Durante o Debate Nacional sobre Educação que teve lugar no Parlamento, em 22 de Maio último, José Sócrates afirmou que a Educação precisa de "menos ideologia" e de "mais resultados". Inspirada pelo seu timoneiro, Maria de Lurdes Rodrigues afirmava no Fórum da Maia, uma semana depois, que os alunos obteriam "melhores resultados se a escola se oferecesse como um espaço de saber-fazer e não só de retórica". Eleitas a "ideologia" e a "retórica" como obstáculos ao obstinado fazer -- sem saber -- com que marcará a sua transitória estadia na 5 de Outubro, cabe perguntar quão asséptico é realmente este ministério em matéria de retórica ou de ideologia.

Senão vejamos: numerosos professores com habilitação académica e profissional para leccionar áreas específicas (Matemática, História, Economia, etc.) estão a deparar-se, nas escolas, com a obrigação de ensinar disciplinas para as quais não têm a mais pequena qualificação: é assim que, na margem sul do Tejo, uma professora de Biologia lecciona Segurança e Higiene no Trabalho e, numa escola perto da Amadora, uma professora de Física ensina Organização de Armazéns. Em ambos os casos, trata-se de disciplinas integradas em cursos de Educação/Formação, que constituem a derradeira oportunidade para habilitar para a vida activa alunos com amplos historiais de reprovações. O quê, se não retórica, pode justificar que se atire para a frente de turmas difíceis professores sem formação, reconversão ou experiência de vida para leccionar tais disciplinas? Como poderão eles ensinar o que não sabem, nem têm obrigação de saber? Como poderá preservar-se a sua autoridade como docentes, a sua dignidade como profissionais e a sua integridade como pessoas sabendo-se executores de um logro? O que aprenderão os seus alunos?

Mudemos de latitude. Enfastiada com a inconsequência das sanhas reformadoras dos seus antecessores, Maria de Lurdes Rodrigues declarou, no programa Prós e Contras de 18 de Setembro último, que "o país não aguenta mais reformas educativas". Há uma que aguentávamos bem: a do próprio Ministério da Educação. Nele habitam, por usucapião, hordas de técnicos que, independentemente da sua competência, fazem valer um poderzinho de retaguarda que o seu tempo de ocupação dos gabinetes, que supera largamente o dos ministros, sedimenta por natureza. E são muitos deles que asseguram que a ideologia "eduquesa" singre, em casual encontro de interesses com a obsessão fazedora da titular da pasta. Ter ideias ou agir segundo ideologias não é crime, note-se. Mas quando estes anónimos sem poder decisório formal, sem mandato concedido pelo povo e sem obrigação de sujeitar a escrutínio público as ideias que fazem valer administram, de facto, a Educação, estamos perante um totalitarismo de secretaria que é incompatível com a democracia. O que era uma ideologia educativa discutível torna-se, assim, uma ditadura educativa inexpugnável. Não há ministra -- obstinada ou não -- que lhes toque, não há argumentação que os persuada ou vença, não há voto que os eleja ou afaste.

No entanto, as ideologias educativas instaladas nos corredores do ministério lá vão, paulatinamente, apoucando o Conhecimento nos currículos e a exigência nas salas de aula, em favor de um "sucesso" e redução do abandono escolares para OCDE ver. Enquanto assobia para o lado em relação à 5 de Outubro, Maria de Lurdes Rodrigues engrossa a voz para impingir um ensino profissionalizante em que há biólogos a ensinar extintores ou físicos convertidos a fiéis de armazém; e elimina, no ensino científico-humanístico, exames nacionais atrás de exames nacionais sem sequer avaliar os resultados da sua implementação, como no caso de Filosofia, alinhando pela sanha reformadora que tanto critica. Se isto não é o casamento perfeito da retórica e da ideologia, com copo de água totalitário, o que é?

Escola Eslava de Imigrantes Russófonos

Já fui apelidado de várias coisas feias por me manifestar contra o pensamento pós-moderno do eduquês.

Bom, cá fica então uma amostra de fascistas, conservadores, retrógrados, sebenteiros, bolorentos e outras coisas mais.

23/09/2006

Da f...

"Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente, exactamente pelas mesmas razões". (Francis Banard)

22/09/2006

Um pouco de bom senso

O editorial do DN de hoje introduz um pouco de bom senso na reunião de neoliberais presunçosos que decorre por este dias.

18/09/2006

Manuela Teixeira no DN

Uma entrevista a ler

17/09/2006

Carreira docente

Bom, antes do tempo previsto vou explicar aquilo que acredito ser o melhor para a carreira docente.

Todos os professores devem, por princípio, ganhar o mesmo. A diferenciação salarial deveria fazer-se de 4 em 4 ou de 5 em 5 anos em função da obtenção de méritos por parte do docente: mestrados, pós-graduações, cursos de especialização, exercício de funções no ensino superior/universitário,trabalho reconhecido em grupos de estudos e associações profissionais, orientação de estágio, etc. Em cada período de 5 anos se algum(ns) deste(s) critério(s) for(em) correspondido(s), o seu vencimento aumenta cumulativamente; caso contrário, mantém-se durante esse período de 4/5 anos. Este sistema premeia o mérito e reconhece a antiguidade: quanto mais tempo de serviço tiver um docente, maior é o seu vencimento.

Acabam-se as acções de formação: são inúteis e apenas servem para encher os bolsos a uns quantos (dispenso-me de dizer quem).

Tal regime renumeratório deveria aplicar-se apenas às novas vinculações e não aos professores pertencentes aos actuais quadros; e o salário de base seria equivalente ao do actual 7º ou 8º escalão.

Sobre o muito que tenho ido lendo e ouvindo ... estou triste!!!

Estou cansada … muito cansada!
Este cansaço resulta especialmente de sentir-me demasiado desiludida com tudo e com todos.

Desiludida com a tutela que, incapaz de reconhecer os erros das suas permanentes medidas de “inovação”, tenta emendar erros com mais erros e descarrega todo o seu fel insultando os professores.

Desiludida com a tutela que me atacou, na minha dignidade profissional, chamando-me incompetente e não cumpridora.

Desiludida com os colegas que, na generalidade, preferem carpir mágoas na sala de professores, acomodando-se a tudo, em vez de lutarem pela reposição da sua dignidade.

Desiludida com os colegas que se dizem mais novos e se acham no direito de pôr em causa todo o trabalho dos mais velhos, imputando-lhes o estatuto de incompetentes, dizendo que só estão onde estão por causa da idade, desfazendo no trabalho de toda a sua vida.

Desiludida porque, estes colegas, que querem ser iguais aos mais velhos, como se estes também não tivessem tido os seus revezes e as suas lutas para chegarem onde chegaram, se acham no direito de os menosprezar, não dizendo fulano ou sicrano são incompetentes … mas sim, os mais velhos não prestam.
Esquecem-se que tudo o que tínhamos e que esta ME nos está a tirar foi resultado das suas lutas.
Bem ou mal conseguimos alguma dignificação da carreira … de tal maneira que tantos quiseram ser professores!
Bem ou mal, tentámos a dignificação da progressão na carreira. O ME não permitiu, nem regulamentou mais do que o que existe. Não foi falta de insistência da classe.

Desde o meu 1º ano de efectivação que sou das professoras mais antigas das escolas por onde tenho andado. Continuo a ser, apesar de continuar a haver colegas muito mais velhos! Porquê? Porque os outros professores não eram efectivos. Porque professores, quase à beira da reforma, não eram do quadro. Porque não havia cursos para professores (o meu era o único que existia) e não abriam estágios. Os cursos para professores apareceram muito depois do 25 de Abril, embora tivessem aparecido uns ramos educacionais entretanto

Porque tal como agora, não efectivavam os professores. Mas agora queixam-se que ocupámos os quadros e não têm emprego! Queixam-se das regalias que tivemos e não têm. Recebíamos desde o dia de contrato até ao último dia de aulas. Contava-nos o serviço ao dia. Não havia recuperação de tempo de serviço se fossemos colocados mais tarde. Éramos eventuais!!!

Viram-se contra os colegas, mas não se viram contra o Estado que não cumpre o que impõe aos privados: efectivação ao fim de 3 contratos. Não deixam os professores reformar-se – neste momento, muitos, cansados da ignomínia a que estão sujeitos, fá-lo-iam de imediato. Que sugerem? Matam-se os professores existentes, para abrirem vagas?! Acham que é por aí? Ou acham que se lhes baixa o ordenado para ficarem todos iguais e agora obrigam-se, em pé de igualdade com os mais novos, a irem prestar provas e fazer mestrados ou doutoramentos para que a seriação seja real?!
Há qualquer coisa que me escapa nesta ânsia de deitar abaixo os mais velhos!!! Há qualquer coisa que me magoa muito! Nem quando fui das mais novas, coloquei em causa a competência dos mais velhos. Sabia que este ou aquele dos mais velhos era incompetente, como também sabia que aquele mais novo o era. Nunca tomei a árvore pela floresta. (Às vezes considero-me uma pessoa estranha neste mundo selvagem!) No entanto, agora vejo a raiva, vejo o deita abaixo constante… não porque tenham observado, apenas pela generalização, apenas porque “eles estão lá e nós não estamos”.
Estou desiludida porque uma classe que está a começar a pautar-se por estes valores, uma classe que, mais do que nunca, se está a tornar autofágica, não tem futuro como construtora de futuros cidadãos saudáveis.

Sobre o sistema de avaliação que existe e a tal “progressão automática” de que nos acusam e à custa da qual também nos querem penalizar, quer a tutela, quer os professores mais novos, vou só dizer umas coisitas para que compreendam a sua existência e deixem de nos culpar por ela.

A imposição "daquelas" acções de formação foi obra do ME contra a proposta de valorização pessoal apresentada pelos sindicatos (estes queriam que fosse valorizada a formação consistente que se ia fazendo - doutoramentos, mestrados, especializações, cadeiras específicas em universidades, pós-graduações, etc).

Contra isto, aproveitando os dinheiros do PRODEP e vendo neste facto uma maneira de ficar com alguns dinheiros para si o ME institui-se como formador e tornou as suas acções forma de avaliação.
Neste ponto das avaliações/progressões ficou muita coisa por legislar e regulamentar, já que apesar da insistência dos sindicatos o ME não o quis fazer.
Neste momento (e isto vem de há 2 ou 3 anos), as verbas do PRODEP começaram a diminuir e assim que isso começou a acontecer o ME começou a dizer que aquelas acções não serviam (facto que todos sabíamos e que todos tínhamos contestado).

Agora acusam-nos de sermos nós a não querermos ser avaliados... o que não é, nem nunca foi verdade.

Muitos professores foram fazendo a sua valorização pessoal, não só a que resulta de pesquisa e de actualização, mas também a que resulta de uma série de acções não contempladas, nem valorizadas para a progressão. A maioria dos professores não se limitou às acções impostas… mas disso ninguém sabe porque não contam para nada, a não ser para o próprio. Muitos professores deram aulas no superior/universitário. Muitos professores trabalharam em grupos de estudos. Muitos professores trabalharam em associações profissionais. Muitos professores desenvolveram, nas escolas trabalhos pioneiros e de mérito. Muitos professores orientaram estágio, dentro e fora da escola. Muitos professores leccionaram as didácticas específicas. Muitos professores… Tudo isto foi feito, tudo isto contribuiu para elevar a condição do sistema educativo, tudo isto contribuiu para a valorização profissional, tudo isto contribui para o enriquecimento cultural, científico e pedagógico pessoal e das escolas … mas tudo isto foi posto de lado. Tudo isto pertence ao currículo de muitos professores, mas tudo isto não conta para a sua progressão. No entanto, agora acusam-nos de progredirmos apenas com as acções. Que culpa temos nós de não nos terem valorizado todo o trabalho desenvolvido? É por isso que somos incompetentes?!

É pena que falem do que os mais velhos fazem ou não fazem, sem saberem do que falam … que nos culpem das incompetências e omissões do ME.
Os professores sempre quiseram uma avaliação… mas sempre quiseram uma avaliação digna e coerente com a sua valorização profissional e com o mérito... e continuam a querer!!! Os professores sempre quiseram separar o trigo do joio… nunca nos foi permitido!!! Não nos acusem a nós, mais velhos de incompetência, de termos “subido” sem avaliação, de estarmos onde estamos sem termos prestado provas. É indigno de quem o faz e é indigno de quem sofre essa apreciação. Há professores maus… há! Mas não são assim tantos como querem demonstrar.

Não me acusem, agora, de ir ser equiparada (!!!!) a titular . Sim, porque, apesar de ter atingido o topo da carreira, agora não me parece que passe disto! Se acham isto dignificante para quem tentou dar tudo o que podia pela profissão e ainda é insultado por ir ter uma coisa que não pediu (e que acha que não deve ser assim), continuem... continuem a dizer mal dos colegas e não se virem contra o ME! É tão mais fácil bater no colega do que contestar os “patrões”!!!!

Sobre o que os professores não querem (ou não deveriam querer):

Os professores não querem um sistema de quotas, em que, se seguirem o mesmo sistema que impuseram em todos os organismos da FP (SIADAP), entre cada 20 professores, só 1 pode ser excelente e 4 muito bons. Se não concordo com este sistema para as outras profissões muito menos concordo com a sua aplicação aos professores (analisem bem este tipo de avaliação: os objectivos em que se baseiam, as condicionantes da avaliação, a relação “secreta” entre avaliador e avaliado, o que acontece se houver mais do que um avaliador a considerar o seu avaliado excelente, etc – e depois digam-me se isto é um sistema de avaliação que dignifique o trabalho e promova o mérito).

A avaliação dos professores não pode ficar dependente de exames feitos por colegas do ensino superior, que já demonstraram, à saciedade, desconhecer por completo o funcionamento e as interacções existentes nas escolas, não pode ficar dependente dos professores saberem ou não as últimas teorias, que na maioria dos casos não são aplicáveis nas escolas reais, e também não pode ficar dependente de inspectores (caso dos coordenadores) que apenas podem constatar cumprimento dos deveres.

Parece-me que alguém que entre para uma carreira sem que esta tenha um incentivo, por menor que seja, ou mesmo por errado que seja, de ir progredindo… uma carreira em que todos sejam iguais desde que entrem até que saiam… uma carreira em que apenas tenha uma diuturnidade de 5 em 5 anos, sem outro objectivo que não seja o de “ir andando” não chega a lado nenhum. É uma carreira condenada ao fracasso, em termos de incentivo à produção e à valorização do funcionário.

Avaliar pela valorização pessoal e profissional é (seria) fácil, no entanto, avaliar pelo mérito, numa profissão em que o “produto” não tem a ver com produção de um “artefacto” mas sim com os resultados obtidos pelos alunos torna-se muito difícil. O mérito não pode ser resultado das tabelas de sucesso/insucesso dos alunos (como pretende o ME)… os professores mais exigentes seriam sempre prejudicados.

Portanto, no que respeita à avaliação, para além de determinar em que medida a valorização profissional e pessoal contribuem para a progressão, há que estabelecer indicadores que determinem o mérito de um professor?

Esta é que é a questão que deve ser analisada! É sobre este assunto que nos devemos debruçar, em vez de andar a tentar demonstrar a incompetência dos outros.