30/10/2008

Resistências!

.




.

26/10/2008

Loucura ou maldade?

.

Salvador Dali


Que o diploma sobre a avaliação docente é um verdadeiro monstro burocrático já todos constatámos. Que a esse monstro foram sendo implementadas mais cabeças, com os diferentes despachos e memorandos que lhe foram sendo anexados, em nome da regulamentação do monstro, transformando-o numa hidra de Lerna, também já todos nos apercebemos. Que os serviços intermédios do ME, com as suas estranhas interpretações, ainda, o “amostrenguem” mais, também já todos sabemos.

Que entre nós ainda consigamos aprimorar o “bicho” tornando-o ainda pior do que é, é que já ninguém entende.

Espanto-me, cada vez mais, como alguns elementos de uma classe diferenciada, portadora das mais altas habilitações académicas, revela a sua total iliteracia quanto à leitura, interpretação e aplicação de simples articulados de uma legislação.

Que a maioria das leis são mal redigidas é uma verdade. Que a maioria das leis são dúbias é outra verdade. Que nós não somos juristas também é verdade.

Por isso, o que temos que fazer é, apenas, ler. Ler como quem lê um texto. Ler, analisar e aplicar. Não temos que inventar. Não temos que devanear sobre… Não temos que inventar sobre…

Também sabemos que o considerar os resultados dos alunos, como um dos pontos chaves desta avaliação, é um dos maiores erros do monstro. Todos estamos cientes de que este item apenas visa a obrigatoriedade de mostrar resultados para as estatísticas e não o melhorar do ensino e ou da aprendizagem. Por isso mesmo, ainda se torna mais compungente o resultado da criatividade de que enfermam alguns “artistas grelhadores”.


Vejamos o que diz o 2/2008 sobre a relação entre: os resultados dos alunos, a definição de objectivos individuais a auto-avaliação e a avaliação do Presidente do Conselho Executivo (e onde me refiro a resultados dos alunos poderia referir abandono):

Quais são os elementos de referência para a definição de objectivos individuais?

Os objectivos individuais são formulados tendo por referência os seguintes itens:
A melhoria dos resultados escolares dos alunos;
(…)


Quais são os elementos de referência para a avaliação? *

A avaliação do desempenho tem por referência:
a) Os objectivos e metas fixados no projecto educativo e no plano anual de actividades para o agrupamento de escolas ou escola não agrupada;
b) Os indicadores de medida previamente estabelecidos pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada, nomeadamente quanto ao progresso dos resultados escolares esperados para os alunos e a redução das taxas de abandono escolar tendo em conta o contexto socioeducativo.

* Reiterados neste ponto que consigna as competências da Comissão de Coordenação da Avaliação do Desempenho:

Os objectivos fixados e os resultados a atingir pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada no âmbito do respectivo projecto educativo ou plano de actividades são considerados pela comissão de coordenação da avaliação do desempenho no estabelecimento de directivas para uma aplicação objectiva e harmónica do sistema de avaliação do desempenho.

Que diz sobre a auto-avaliação?

A ficha de auto-avaliação é entregue aos avaliadores em momento anterior ao preenchimento, por estes, das fichas de avaliação, constituindo elemento a considerar na avaliação de desempenho mas não sendo os seus resultados vinculativos para a classificação a atribuir.

A ficha de auto-avaliação deve explicitar o contributo do docente, durante o exercício das suas funções, para o cumprimento dos objectivos individuais fixados, em particular os relativos à melhoria dos resultados escolares obtidos pelos seus alunos.

Para o efeito da parte final do número anterior o docente apresenta, na ficha de auto -avaliação, os seguintes elementos:
a) Resultados do progresso de cada um dos seus alunos nos anos lectivos em avaliação:
i) Por ano, quando se trate da educação pré -escolar e do 1.º ciclo do ensino básico;
ii) Por disciplina, quando se trate dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;
b) A evolução dos resultados dos seus alunos face à evolução média dos resultados:
i) Dos alunos daquele ano de escolaridade ou daquela disciplina naquele agrupamento de escolas ou escola não agrupada;
ii) Dos mesmos alunos no conjunto das outras disciplinas da turma no caso de alunos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;
c) Resultados dos seus alunos nas provas de avaliação externa, tendo presente a diferença entre as classificações internas e externas.

Além dos referidos no número anterior, pode o docente apresentar outros elementos (…) que permitam comprovar o seu contributo para o progresso dos resultados escolares dos alunos, a redução das taxas de abandono escolar e a apreciação do respectivo contexto socioeducativo
.

E sobre a avaliação realizada pela direcção executiva?

Na avaliação efectuada pelo órgão de direcção executiva os indicadores de classificação ponderam o seguinte:
Progresso dos resultados escolares esperados para os alunos e redução das taxas de abandono escolar, tendo em conta o contexto socioeducativo — aprecia os dados apresentados pelo docente na ficha de auto-avaliação os quais são objecto de validação pelos avaliadores;


Como é possível que lendo o mesmo que eu li (e transcrevi) haja quem seja capaz de fazer uma ficha de registo de avaliação do PCE, como esta?

http://www.scribd.com/doc/6431579/Peninsula-Setubal-Fichas


Ou uma ficha de definição de objectivos individuais, como esta?

http://www.scribd.com/doc/6499599/Grelha-Objectivos-Individuais-2o-e-3o-Ciclo-1

Ou seja obrigado, como noutra que eu conheço, a, na ficha de objectivos individuais, indicar a média de cada turma no ano anterior e a definir objectivos de manutenção ou superação dessas médias (indicando critérios de êxito/superação), não tendo em conta se a turma era do professor, se as notas/níveis foram resultado de subida por votação em conselho de turma, se existem alunos novos na turma, etc.

Ou ainda como noutra, em que foi definida uma determinada média de sucesso por ano de escolaridade e “foi decidido” que se, por acaso existe uma turma mais fraca, outra turma desse ano, que seja melhor, tem que compensar a média (“ganhando” o seu sucesso e mais o sucesso que a outra não conseguir, para cumprir a média).

Só posso dizer que não são os deuses que devem estar loucos, mas sim os humanos! Neste caso específico, alguns humanos-professores!

Será assim tão difícil perceber o que está escrito?

Será difícil perceber que a escola/agrupamento (departamentos e conselho pedagógico) propõe uma meta de consecução de resultados, quer seja em % de redução do insucesso, quer seja em % de aumento do sucesso, que essa meta estabelecida a nível de escola/agrupamento (em geral, ou considerando excepções em determinadas disciplinas que pensem não conseguir atingir a % proposta)
deverá constar do Projecto Educativo e que todos os professores deverão trabalhar com os seus alunos para essa meta?

Será difícil perceber que o que se pretende é a melhoria dos resultados, através da redução/aumento da média do insucesso/sucesso obtida na globalidade dos alunos/disciplinas/anos de escolaridade,
em função da tal % estabelecida no PE, e não em cada um per si?

Será difícil perceber que só no final é que o professor, na sua auto-avaliação deve fazer a análise, em função dos diferentes itens contidos na ficha de auto-avaliação, justificando aí o seu trabalho neste item? E que será a partir dessa análise que o PCE considerará se houve ou não cumprimento do objectivo neste campo?

Será tão difícil perceber que o professor não pode trabalhar em função de uma média de turma, pré-definida, garantindo que a terá de manter, ou melhorar? É isso que se pretende, mas as circunstâncias variam de ano para ano.

Será difícil perceber um professor não pode definir como objectivo individual o número de 2, 3, 4 ou 5 que vai dar no final do ano… e muito menos ser penalizado porque em vez de cinco 4, e três 5, deu sete 4 e um 5?

Será difícil perceber que um professor não é um fabricante de peças avulso cuja produção pode ser incrementada (… e mesmo aqui só até um certo patamar)?

E que dizer da “definição das médias” encontrada na 1ª ficha de que dou o link? E que dizer quando se considera que um professor é
excelente quando atinge uma progressão superior a 100%?

Só pode! Está tudo louco! Ou será que é mesmo, e só, maldade?
Esta ADD é impossível e mais impossível se torna quando os "grelhadores" atingem níveis de loucura que a tornam num inferno de que nem Dante se lembraria.

21/10/2008

Santana Castilho

20/10/2008

A educação no século XXI

Veja-se e reflicta-se(via Rerum Natura):













17/10/2008

Medina Carreira

Mais alguém que defende que estamos a formar hordas de semi-analfabetos.

16/10/2008

Magalhães, o Conquistador

Os adeptos das Ciências da Educação exultam. Nunca como agora um ME foi tão proactivo, tão centrado no aluno, tão pedagogicamente construtivista e colaboativo. Isto sim, são as novas maravilhas da educação. Os amanhãs que cantam ocorrem já hoje, nem que seja nos degraus de uma escada.



Professores fazem músicas de louvor ao Magalhães e colocam-nas no YouTube

Um grupo de professores coordenadores de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) a entoar melodias de músicas como Esta Vida de Marinheiro ou Grândola Vila Morena com letras de louvor ao computador Magalhães é o quê? Para Paulo Carvalho, que lançou a polémica na blogosfera, é "uma sessão de circo", algo "surreal" que prova que os docentes "tudo são capazes de fazer, mesmo o ridículo". Para o Ministério da Educação e para a multinacional Intel, que promoveram o evento, trata-se de uma acção de formação para aqueles a quem caberá ensinar os professores do 1.º ciclo do Ensino Básico a usar, nas salas de aulas, os portáteis oferecidos às crianças pelo Governo.Ao fim da tarde de ontem, Paulo Carvalho, professor da EB 2-3 de Castro Daire, dizia-se "estupefacto" com o impacte do texto publicado em http://paulocarvalhotecnologias.wordpress.com/, no qual descreve uma das cinco acções de formação de dois dias promovidas, de norte a sul do país, no âmbito do Plano Tecnológico de Educação. "Primeiro foi a Antena 1, e agora é só jornalistas a telefonarem-me!", exclamava o professor, que se apercebeu, também, de que, desde que fora escrito, a 29 de Setembro, o texto já tinha sido reproduzido em inúmeros blogues.Por aquela altura, mais de 12 mil pessoas tinham visto o filme que Paulo Carvalho colocou no YouTube com o título de Formação Magalhães e que diz ter "apanhado" durante "uma das actuações" dos professores "que mais aplausos arrancaram". Mas, à mesma hora, outros filmes concorriam com aquele. Como o que tem como título Sailling with Magellan PC e em que vários docentes, sentados nos degraus de uma escada, simulam remar, ao mesmo tempo que, entoando a melodia de Grândola Vila Morena, elogiam "um PC de encantar" que, "já não há volta a dar/veio para ficar". Num outro vídeo (Coordenador TIC), Esta Vida de Marinheiro serviu de inspiração aos professores que cantam assim sobre o Magalhães: "A trabalhar é um desembaraço/ para nós foi uma alegria/ para dar mais um passo/ com esta nova tecnologia".Como surgiram estas cenas no decorrer das acções de formação? É isso que explica Paulo Carvalho. "Três senhoras que tinham vindo expressamente dos States", conta, propuseram aos "200 professores" presentes em Cantanhede que inventassem "uma cantiga ao Magalhães e, se possível, com teatro à mistura". (...) "Tudo de 'útil' passou por aquele palco, até as náuseas me obrigarem a sair", comenta. Contactado pelo PÚBLICO, Nuno Martins, da Intel, explicou que as três pessoas a que se refere Paulo Carvalho são professoras, especialistas na utilização das novas tecnologias na sala de aula e no "método colaborativo". "Foi pedido àqueles pessoas, que vão formar professores do básico, que participassem numa actividade dinâmica, semelhante às que podem ser desenvolvidas na sala de aula por crianças de seis aos dez anos, usando como ferramenta o computador", explicou. Numa nota divulgada pelo Gabinete de Comunicação do Plano Tecnológico da Educação, sublinha-se que as acções constituíram, para os professores, uma "mais-valia". 850 coordenadores de Tecnologias de Educação e Informação participaram nas acções.

13/10/2008

Uma certa esquerda

Uma certa esquerda insiste nas ladaínhas do costume, com defesas teóricas de inanidades conceptuais cujo único destino possível é o cesto dos papéis. Depois de neste mesmo blog se ter mostrado quem são, afinal, os filhos de Rousseau e se ter denunciado a quem convém o actual estado de imbecilização da população, eis que outros começam a abrir os olhos e, oxalá, mostrar o caminho da tal esquerda.

A ler:
"Aprender a aprender: um slogan para promover a ignorância"
"O slogan «aprender a aprender» serve os interesses do capitalismo neoliberal e globalista"

Claro que muitos não querem que se lhes enfie isto pelos neurónios adentro. Para eles, o mais eficaz seria um clistér pelas orelhas. Esses, encostados a um sistema que os promove (onde? adivinhe o leitor...), preferem manter o silêncio antes que lhes descubram a careca.

12/06/2008

Os fascistas

Os fascistas espalharam-se por todo o lado. Alguns até se espalharam pela esquerda - ou será que a esquerda se espalho pelo fascismo?

Os combustíveis estão cada vez mais caros. E no entanto, o preço do barril de petróleo está, em 2008, exactamente ao mesmo valor de 2000: 70 euros.

De um lado, estão fascistas totalitários que esmagam os povos com preços absolutamente especulativos. Do outro, estão camionistas anarquistas, que atacam à lei da pedra e da grunharia os colegas de trabalho que apenas querem, imagine-se, trabalhar. Como se o direito à greve implicasse o não-direito à não-greve.

Se abomino os fascistas de direita, não faço por menos o fascismo de esquerda. Esses trastes anarquistas que constituem piquetes de greve são, geralmente, escumalha nojenta de que a humanidade se envergonha. Na fábrica onde uma pessoa conhecida trabalhava, os piquetes de greve juntavam-se à porta para impedir, com base na força de paus e pedras, que alguém exercesse o direito a não fazer greve. Mas, vermes nojentos como são, esses anarquistas da merda nem percebem que são tão fascistas como os fascistas que eles próprios criticam.

Polícia de choque em cima deles, com força e sem cerimónia. Só se lamentam os que ficarem de pé.

Outros fascismos existem, mas na Escola.
Num determinado dia da semana, A. tem três horas de CNL marcadas no horário. Mas A. não as cumpre, tal como não cumpre todas as horas lectivas porque deixa os alunos sair mais cedo. Uma horita de cada vez. Só que A. é dono de meia aldeia. Funcionários e professores, noutros locais de trabalho, são seus assalariados. E certo familiar de A. é profissional de medicina, o que lhe permite atestar tudo e todos. Portanto, A. recebe tacitamente a conivência de toda a gente. E niguém se atreve, nem quer atrever, a colocar em causa as benesses de A.
É outra forma de fascismo: o fascismo dos acomodados do sistema que, não podendo em caso algum ser exonerados da função pública, dela vivem cegamente, como carraças agarradas ao corpo do animal.

Darwin estava errado. Nem sempre as espécies evoluem.

20/04/2008

Os cravos também se abatem!


(roubado por aí...)



… e há muitas formas de os abater!

Não bastavam as manhãs de sábado (que nalgumas modalidades se estendiam pelas tardes), não pagas, agora até para os feriados se marcam campeonatos! E o problema é que nem é um feriado qualquer, porque existem feriados que pouco nos dizem em termos de comemorações. Mas um feriado é um feriado. É feriado para todos! E existem feriados especiais. E este de que falo é um feriado especial, um feriado em que “ainda” se comemoram, com diversas manifestações uma data muito especial para o povo português. Um feriado em que, em tempos, até os cafés fechavam. Um feriado, em que todos deveriam ter a liberdade de poder usar a sua liberdade para comemorar como quisessem a data que relembra. Um feriado em que o Estado não pode mandar trabalhar funcionários cujos serviços não estão enquadrados na definição de serviços sociais necessários, ou mais especificamente serviços mínimos de apoio social.

No entanto, sem que exista razão para que isso aconteça, porque o calendário nacional não obriga a que seja necessário utilizar esta data, nas escolas da DREL há quem não possa comemorar este feriado como quer. Há professores, alunos e famílias de alunos a quem foi sonegado este feriado.

Falo do 25 de Abril. Falo de Desporto Escolar. Falo da DRELVT. Falo de Campeonatos Regionais de algumas modalidades marcados para o dia 25 de Abril.

ATLETISMO DE PISTA - DRELVT - EAE Setúbal Norte - Pista Municipal da Sobreda - 25 de Abril
TÉNIS - DRELVT - EAE Lezíria - Clube de Ténis de Santarém - 25, 26 e 27 Abril

BASQUETEBOL (JUVENIS) - EAE Lisboa Oriental - agendado para Vila Franca de Xira/Loures - 19 Abril, foi adiado para Mafra - 25 de Abril


http://sitio.dgidc.min-edu.pt/desporto/Documents/campeonatos_regionais/DEscolar_Calendarização_Camp_Regionais_08_Final.pdf

06/04/2008

A Hidra de Lerna da nossa educação

Processo, de nome próprio
Burocrático, de apelido
.
.
.
.
.
Recupero, aqui, um texto que coloquei há mais de 2 anos e que já, nessa altura, tinha alguns anos (1995)
Continua actualizadíssimo!
Quando o colega Manuel Constantino o publicou, fê-lo como uma chamada de atenção para o que estava a acontecer.
À época o "menino"- Processo, de nome próprio, Burocrático, de apelido - era apenas uma criança. Andava pelos 5/6 anos e estava “a entrar na primária”. Surgiu como se fosse um sobredotado e por isso tratámo-lo como se fosse um génio. Trabalhámos, “com este aluno”, como manda o eduquês. Centrámo-nos nele, acarinhámo-lo, apaparicámo-lo, demos-lhe força e vida e deixámos que fosse ele a mandar em nós. A cada birra e a cada exigência inventámos mais uma ficha, mais um documento, mais um objectivo, mais uma estratégia para lhe resolver a vida. E o “menino” cresceu, e fez a escolaridade toda, habituado a “ser bem alimentado”: fichas, grelhas, planos, relatórios, reuniões, recuperações, acompanhamentos, apoios… Não o soubemos disciplinar a tempo. Entretanto o “menino” entrou na universidade e formou-se. Cada vez mais bem alimentado, cada vez mais senhor de si, já não é um menino a quem podíamos ter educado, transmitido princípios de contenção e de respeito pela função primária e última de quem o educava. Não soubemos perceber que não era nenhum génio, que não era nenhum salvador, que não tínhamos que nos subjugar a ele, mas sim aprender a contê-lo nos limites do desejável. Não soubemos fazê-lo... por inércia? por convicção? Não interessa, só sei que não o soubemos!
Neste momento, o Dr. Processo Burocrático está formado. Sente-se dono do mundo. Manda em todos nós. Exige, reclama, ameaça, chantageia… Só lhe falta começar a punir! E para isto pouco falta… Transformou-se num tirano absoluto!
Não actuámos a tempo! Agora enfrentamos o monstro que acalentámos no nosso seio, que alimentámos querendo ser sempre “mais papistas que o papa”, que mimámos, tentando, sempre, mostrar mais apoio, ao menino, do que o colega do lado.

Colaborámos na criação deste monstro… demos-lhe 7 cabeças, como à Hidra de Lerna!

Como podemos, agora, sufocar “o menino” que ajudámos a criar?
Como podemos lidar com tantos sentimentos díspares, entranhados na nossa formação e na nossa forma de estar, que nos levam a continuarmos a subjugar-nos a este bicho?
Como podemos abjurar um monstro por quem também somos responsáveis?
Que armas poderemos “inventar” para cortar as cabeças e os tentáculos deste bicho que nos sufoca e nos impede de exercer a nossa profissão?

.

05/04/2008

Foi a vez das “Lisboas” (Oriental e Ocidental)!

.


.
.
.
Estavam os dois Secretários!
Da Ordem de Trabalhos constava: avaliação de desempenho, gestão, formação contínua.
A convocatória era destinada ao Pres do CE e ao Pres do CP, mas trazia a ressalva de, no caso, de serem uma e a mesma pessoa, o PCE deveria fazer-se acompanhar de um elemento da comissão de coordenação da avaliação, para garantir a presença de dois elementos de cada escola/agrupamento.
Se existem n escolas a organização deveria providenciar uma sala que comportasse n x 2 pessoas. Tal não aconteceu. A sala deitava gente por fora! Gente que deveria merecer o mínimo respeito do ME, gente que o ME deveria considerar as faces das suas escolas e receber condignamente. Tal não aconteceu! Havia professores sentados nas escadarias do anfiteatro. Havia professores de pé encostados às paredes. Havia professores sentados em cadeiras que vieram colocar, com grande barulho, já durante o monólogo do Sec. Pedreira, nos patamares das entradas situadas nos topos das filas de cadeiras.
Não, não foi um acaso por excesso de participação. Vim a saber que esta falta de respeito se repete, frequentemente, nas diversas “conversas em família”.

Durante quase hora e meia, este sr discursou sobre o DR 2/2008, tendo como pano de fundo um power point com partes do referido decreto. Durante quase hora e meia o sr tratou quem ali estava como se fosse mentecapto. Durante quase hora e meia o sr “vendeu” a sua avaliação, qual cigano em dia de feira.

E que "vendeu" ele? Vendeu o Dec. Reg 2/2008… comentado!

- que já todos sabíamos com o que contar porque desde Janeiro de 2007 já sabíamos com o que devíamos contar porque o ECD já continha tudo o que precisávamos de saber e preparar e que por isso não nos podíamos queixar de retroactividade da lei quando se propõe que a avaliação se reporte a Setembro de 2007;
- que não compreende porque é que toda a gente “embirra” que a avaliação considere os resultados dos alunos se o peso desse item é de apenas 6%;
- que não aceita que se diga que a contabilização deste item irá provocar subidas artificiais de notas, porque os professores são profissionais responsáveis e que se existe esse medo, nas escolas, estas deveriam (podem) fazer provas internas (finais) para segurança da avaliação dos professores (!);
- que as quotas, como diz o decreto, irão ser atribuídas em função das avaliações externas das escolas já que, como é lógico e de acordo com todos os estudos (!), se uma escola tem melhores resultados, é porque com toda a certeza tem melhores professores (não põe sequer a hipótese de os alunos terem a ver com o assunto!!!) e portanto precisa de quotas mais dilatadas para poderem abranger toda essa excelência;
- que as quotas serão diferenciadas em função das categorias de professores – contratados, professores, professores titulares (se por acaso queriam acabar com os conflitos de interesses, não o conseguiram – há professores titulares avaliados, professores titulares avaliadores-avaliados e professores titulares só avaliadores, a continuarem a concorrer para o mesmo objectivo);
- que as classificações inerentes a cada menção qualitativa são: Ins - 3; Reg - 6; Bom - 7; M.B. - 8; Exc – 10; sobre ponderações não falou;
- que a assiduidade é contabilizada pela soma do número de aulas do 1º ano com o número de aulas do 2º ano de avaliação;
- que a formação contínua contabilizará tantos pontos quanto o resultado da multiplicação do número de créditos das acções pelos pontos obtidos na avaliação de cada acção;
- que a flexibilização das grelhas pode ir “até ao nível mais baixo de desagregação dos itens contidos nos parâmetros, pela agregação destes, mas nunca pela agregação de parâmetros;
- que o objectivo do ME é que o regime legal seja aplicado até onde for possível, uma vez que, desde a 1ª hora reconheceram existir dificuldades das escolas em fazer a sua implementação na totalidade;
- que “eles” sabem que há resistências à aplicação da avaliação,
e que tenhamos atenção porque eles sabem distinguir resistências de dificuldades;
-
que o objectivo do ME é garantir o mínimo inultrapassável – o do direito do avaliado (!!!)
- que no final do 1º ciclo avaliativo será feita a aferição (técnica portuguesa - testagem em massa!);
- que na próxima semana irá sair um despacho, “despachando” o Simplex (afinal já não é nesta semana…)

E termina com a grande tirada:

Não vale a pena complicar, o que já de si é complexo!

explicando que a complexidade e a diversidade são formas de garantir os direitos dos avaliados e fazendo um apelo ao pragmatismo porque todos os instrumentos são susceptíveis de aperfeiçoamento.

Ao fim de quase hora e meia de arrazoado sobre um diploma que todos estamos fartos de conhecer, já com uma sala à beira de um ataque de nervosos, os srs secretários abriram o período de perguntas e as reacções não se fizeram esperar!

“Intervenções da bancada”

- Chega de doutrinação. Perdemos hora e meia do nosso tempo ouvindo enunciar um diploma que já todos conhecemos. Respostas aos problemas, nenhuma. Que dirá o despacho?
- Senti-me numa aula para alunos mesmo muito burros! Isto não se faz! Quero deixar uma palavra aos contratados que, pelos vistos, vão legitimar este processo!
- Viemos, aqui, para ponderar e debater assuntos para os quais não vai haver tempo. Não foi só hoje que nos trataram como débeis mentais…já desde há uns tempos que isso acontece…
- Como querem que se quantifiquem e cumpram percentagens baseados em pessoas (ciências humanas)?
- Resultado do aumento da idade da reforma, que incentivos para o último escalão que viu redobrado o tempo e o trabalho?
- O ME tem dito que somos peritos em avaliação, mas sabe perfeitamente que avaliar alunos e colegas não é a mesma coisa, que um enorme abismo separa estas duas funções. Onde está a formação?
- Onde está a definição dos principais conceitos (abandono, etc) que constam dos parâmetros de avaliação?
- Como é possível dizer a cada escola para fazer o que “puder” só para afirmar que se implementou a avaliação, fazendo proliferar a disparidade de processos e de critérios?
- Está tudo misturado! Como é possível que em cada parâmetro exista mais do que um elemento de análise?
- Como é possível querer que definam objectivos, tendo em conta o PE, no fim do 3º período do final do 3º triénio da existência deste documento? Não seria mais coerente iniciar tudo no início do novo triénio que se inicia em Setembro?
- Simplificar? Até que ponto? Onde está o documento que o permite? Nesta altura do ano a 2 meses de terminar o ano não existe nada... e exige-se às escolas?!
- Quotas em função das avaliações externas? A maioria das escolas ainda não a teve.
- Aulas assistidas no próximo ano – quantas?
- Saberá a tutela que muitos departamentos não têm professores titulares?
- Saberá a tutela que haverá professores de escalões mais baixos a avaliar professores de escalões mais altos o que é, manifestamente, incorrecto em qualquer hierarquia?
- A tutela tem consciência que no “país dos professores” existem 3 países dentro do mesmo país?
- A tutela tem consciência do que a interacção contexto sócio-educativo /avaliações externa pode conter em si? E continua a achar que é pela avaliação externa que serão indexadas as quotas?

Também foram feitas perguntas sobre casos específicos de avaliação: PIEF, Centro de Novas Oportunidades; EFA, Educadores em apoio domiciliário, Ensino Especial em diferentes escolas, licença sabática, …)

Respostas (uma ou duas foram dadas pelo Sec VL):

- o despacho sairá no início da próxima semana;
- já estão a trabalhar com centros de formação para que se implementem acções no âmbito da avaliação e já existem algumas a decorrer;
- a definição de conceitos depende do CCCA que, com certeza, irá ter isso em conta;
- a falta de titulares está coberta pela figura de comissão de serviço para exercício dessa função;
- aulas assistidas no próximo ano: 3… ou mais se a escola o entender;
- cada escola pode ter o desenho operacional que entender, elaborado de acordo com as suas condições
- há sempre um topo de carreira, por isso, os incentivos para o último escalão são obtidos pela conversão dos Exc e MB, que nos outros dão bonificação para a transição de escalão, em prémios de desempenho;
- irão ser criados prémios de desempenho à semelhança da FP (aqui não percebi se era para todos como na FP, se era apenas para obviar ao ponto anterior);
- a avaliação externa é sempre considerada no contexto em que se insere a escola em questão; logicamente que uma escola que nos 5 pontos da avaliação é considerada muito boa ou excelente é porque tem que ter professores muito bons ou excelentes e, portanto, tem que ter direito a uma maior quota;

O Sec aproveitou para explicar, caso a caso, como se fará a avaliação para os diferentes casos em dúvida (resumidos, são praticamente iguais, mas assim “ganhou” mais um bocado de tempo…

Sobre a “simplificação” referiu que o despacho irá conter a concretização do que foi combinado com o Conselho de Escolas:

- princípio do respeito pelo trabalho realizado;
- não estar em causa a uniformização pelo mínimo;
- se existem condições diferentes, haverá processos internos diferentes;
- formas de diferenciação de registo, com o juízo que o avaliado faz sobre o seu próprio trabalho, cruzado com os elementos da ficha do CE que a escolha já recolhe habitualmente (assiduidade?);
- as escolas que puderem fazer mais, podem e devem fazê-lo, nomeadamente, quanto à recolha de elementos sobre o processo de ensino/aprendizagem;

E acrescentou, novamente, não há nenhuma aplicação retroactiva da lei, já que o tempo de serviço apenas foi descongelado a 1 de Janeiro e já todos sabiam com o que contar!
E concluíram… o tempo esgotou-se! Os outros dois pontos da OT ficam para uma próxima reunião a agendar.
Durante o processo, o microfone avariou, e "mandaram-nos para o intervalo". Na volta ainda foram feitas mais duas perguntas, mas por razões de agenda (descobri que pelo menos um deles foi para o Porto) teriam que adiar a reunião com os professores “do deserto” (expressão minha), marcada para a tarde. A sala também iria ser necessária às 13h 30m, por isso tivemos que nos despachar!


Notas soltas:

Quero, ainda, referir que uma das colegas realçou a falta de apoio que o ME deu às escolas para a concepção e implementação deste processo, apenas exigindo, pressionando, nada dando e ainda por cima não cumprindo a sua parte no que respeita a normativos atempados.
Frisou que os professores se viram sozinhos, num processo completamente novo, e que foi apenas através dos blogs e da troca de informação on-line que se conseguiram “orientar”. E aqui, expressou um profundo agradecimento a todos os que contribuíram para isso, em especial, ao colega Ramiro Marques que foi compilando e divulgando diversos instrumentos de registo.

A mesma colega, também, questionou o “ME” sobre os relatórios (mencionando alguns) que não publica ou que publica incompletos, apenas com a parte que lhes interessa.

Neste relato, parece ter havido muitas “intervenções da bancada”, no entanto, não foram tantas como isso, já que algumas das que anotei foram feitas pela mesma pessoa. O tempo dispendido no discurso e “o intervalo”, deram pouca possibilidade de intervenção… também não lhes interessa mais! Tratar-nos como burros é o que dá!

Um debate sério, para ser feito em pouco tempo, não se coaduna com o gasto de tempo perdido com a intervenção desnecessária do Sec. A ele só lhe competia referir ou explicitar alguma alteração que estivesse em cima da mesa, nomeadamente o conteúdo do despacho que diz ir mandar publicar. Se dúvidas houvesse, sobre o Decreto da avaliação, essas surgiriam durante o debate. Continuam a tratar-nos como incompetentes e a não nos levar a sério. Depois dizem, para os OCS, que reuniram “imenso” com os professores, que ouviram as suas opiniões. Falso! Nós é que os ouvimos. E sem possibilidade de contraditório porque respostas, só ao que lhes interessa.

03/04/2008

Propostas do BE ... mais um penso para uma ferida que do que precisa é de cirurgia?

.

.
Não me parece que qualquer destas propostas:
vá contribuir muito para a diminuição do insucesso ou do abandono escolares. Não traz propostas novas, não acrescenta nada, contém, apenas, remendos legislativos e explicitações de muitos articulados já existentes.
.
O problema principal do nosso sistema de ensino radica na sua concepção de base e no seu currículo.
.
Fala-se repetidamente de escola democrática e considera-se, apenas, como conceito de escola democrática, o esta, ser igual e obrigatória para todos.
.
O conceito de escola democrática deveria conter, em si, o conceito da escolha de um futuro. Esta escola, que temos, não é democrática porque não o contém.
O ser igual para todos torna-a, de imediato, anti-democrática. O tipo de ensino que se oferece é o ensino vocacionado para quem quer ser “doutor”. Está todo construído nessa base. Por isso o insucesso, por isso o abandono, por isso o desinteresse. Muitos alunos, e isto não tem nada a ver com classes sociais, não querem ser ”doutores” e por isso não vêem qualquer mais valia no que deve(ria)m apre(e)nder na escola.
.
Inventam-se Currículos Alternativos (CA), inventam-se CEF, inventam-se outras formas de colmatar o insucesso e os resultados continuam a ficar muito, muito aquém das expectativas.
.
E o que há de errado com os CA e os CEF, é serem uma tentativa de cura para uma doença que o sistema criou, e não uma profilaxia para que essa doença não tivesse chegado a existir.
.
O que há de errado com os CA e os CEF, resulta de uma política de ensino completamente errada, completamente obtusa, completamente cega.
.
O que há de errado com esta política de educação é pensar que todos querem/têm que ser doutores, acabando por afastar muita gente da escola.
.
E este é o enorme erro que produz a necessidade de CEF.
A massificação do ensino, deveria prever diversas vias de acesso ao conhecimento, criando saídas profissionais variadas, mas sem cortar caminhos. O maior erro deste país foi querer que todos aprendessem tudo da mesma forma, copiando essa forma do antigo liceu, cuja via era unicamente a universidade.
.
Quando fecharam os cursos técnicos e comerciais fartei-me de dizer que estávamos a cometer um enorme erro social e que haveríamos de pagá-lo a muito curto prazo. Chamaram-me imensos nomes, desde elitista a segregacionista. Quanto a mim, elitismo e segregacionismo foi o de quem não soube ler a sociedade.
.
Correndo o risco de me continuarem a chamar elitista, continuo a insistir que nem todos os alunos querem ser doutores e como expliquei na altura, e continuo a acreditar agora, isso não tem nada a ver com classes sociais, mas com apetências.
.
Há muitos alunos, nomeadamente os da minha escola, para quem este tipo de ensino não lhes diz nada. Não lhe vêem sentido, não vêem que lhes sirva para o futuro. Não lhes interessa.
.
No entanto, aqui há uns 3/4 anos, um colega, abriu um atelier de electricidade, promovido pela Câmara com uns dinheiros do PRODEP. Esse cursozito teve que rejeitar alunos porque não tinha capacidade para tanta inscrição.
E no ano seguinte, devido às mudanças de horários dos alunos, para que estes tivessem a possibilidade de continuar a frequentar o curso, o colega teve que se disponibilizar para dar aulas ao sábado.
.
O interesse neste atelier, motivou, paralelamente, a subida de notas de muitos alunos, mais especificamente em física e matemática.
Os alunos perceberam uma relação entre a prática e a teoria, perceberam que o conhecimento teórico tinha uma aplicação, e gostaram e perceberam também que o que estudavam servia para alguma coisa objectiva, nomeadamente, se quisessem vir a ser profissionais de electricidade!
.
E perceberam, também, que se quisessem continuar a frequentar o curso, tinham que se portar bem (e não só ali, em toda a escola) porque havia mais gente interessada e aquele direito implicava deveres.
.
O que está errado com os CA e os CEF é que estes vêm tentar resolver problemas de gente que já se desinteressou por completo pelos estudos, que já criou um conjunto de atitudes de rejeição ao ensino, que já enquistou um conjunto de maus comportamentos e que, ainda por cima, é reunida toda numa mesma turma, dentro do mesmo espaço que aprendeu a abominar.
.
Creio que a única forma é criar vias de aprendizagem/formação diferenciadas. Vias estas que não impeçam os alunos que descubram que afinal gostam de estudar e aprender de poderem seguir o caminho da universidade se o quiserem. Vias que não se fechem em si próprias, mas que permitam caminhos de formação alternativos, desde o início, para que não tenhamos que andar a colocar pensos em feridas que, em muitos casos, já são incuráveis.
.
Só assim é que entendo a escola democrática. Só assim vejo um caminho para a diminuição do insucesso e do abandono escolares.
.
Sobre a constituição de turmas só quero lembrar que existem escolas (e se calhar não são tão poucas como isso) para quem aquele diploma não tem qualquer razão de ser. A minha escola, por ex, não tem um único filho de doutor ou socialmente equiparado, na minha escola, os repetentes estão equitativamente distribuídos pelas turmas (variam entre os 6 e os 10)… e mais não vale a pena acrescentar. Não são estes os remédios necessários.
.
Equipas de apoio, tutorias, projectos de acompanhamento escola/família, possibilidade de acompanhamento psicológico, animadores e assistentes sociais… temos de tudo um pouco.
.
Vontade de trabalhar e interesse pela escola/aula (porque da escola gostam todos) praticamente não existe. Para este problema, alertei tanto as deputadas que reuniram connosco, como os elementos da DREL e parcerias institucionais presentes, tentando fazer-lhes ver que, socialmente, estávamos a estragar aquela população. Não existem bairros sociais mais bem equipados e com melhores apoios do que aqueles que “fornecem” os alunos para aquela escola. Habituaram-nos a que praticamente tudo o que precisam lhes “cai do céu”. Tudo lhes é dado ou cedido a preços módicos, sem que lhes seja exigido nada em troca, o que faz com que todos se sintam no direito de, mas não no dever de…
Quando dizemos a um aluno “tem cuidado, não estragues o material”, a resposta é invariavelmente “porquê, depois não vem mais?” ou “deixe lá, eles depois mandam mais”.
Quando lhes dizemos que têm que estudar e trabalhar, a grande maioria acha que não precisa de o fazer porque vai viver do rendimento mínimo e que, portanto, não tem que se preocupar, porque nem precisa de trabalhar agora, nem quando for grande. Estas “pequenas grandes visões” do futuro espelham o que eles vivem, sentem e ouvem: não há problema, alguém nos sustentará… temos esse direito!
.
E os que até estudam alguma coisita e conseguem fazer o 9º ano? A maioria destes não tem posses (?), interesse (?), vontade (?) de continuar. E para que serve o 9º ano? Que emprego, que estatuto lhes dá? Vão para o balcão do MacDonalds ou para uma qualquer outra loja do estilo, onde encontram outros que não tinham completado o 9º ano. Que incentivo têm os colegas, vizinhos, amigos, para fazerem, sequer, o 9º ano?
.
Como o que queremos que aprendam, não lhes mostra nenhum futuro, não vale mesmo a pena pensarem em fazê-lo. É preciso conquistá-los com coisas que lhes interessem! E todas as nossas actividades práticas estão cheias de gente…
.

26/03/2008

Calaram-se! E este silêncio é de fel… não de oiro!

.

(roubado por aí...)
(se trocarmos o polícia pelo professor, não estaremos longe do que a opinião pública espera de nós...)
.

Ouvem-se, por aí, vozes que dizem ter havido recusas da aceitação da transferência da “aluna”, por parte de escolas e AA de pais, com ameaças destes últimos de retirarem os filhos das escolas se as ditas aceitarem a “menina”.

Não sei se é verdade, ou não, o que se diz sobre a recusa de aceitar a “aluna”, sei é que esta atitude das escolas e pais também não pode ser socialmente aceite, para que não se passe de uma “cena de violência” para outras “cenas de violência”?!

Teoricamente, entende-se a transferência de escola como um castigo porque provoca a desinserção do aluno do seu contexto habitual, do seu grupo de amigos, das suas referências, dos seus “suportes na asneira”. E é isto que se pretende com esta transferência.

A “menina teve uma “atitude de falta de educação e agressividade” e, ao que parece, já tinha tido algumas “chamadas de atenção”. No entanto não passou, de repente, a ser nenhuma criminosa que precise de ser socialmente isolada, nem pode ser transformada em exemplo nacional, pagando por todos os infractores, pagando por todos os desleixos institucionais e familiares, pagando por pelo despertar das consciências que, até aqui, eram surdas a todos os avisos dos professores. Não se pode transformar, esta aluna, na redentora de todas as falhas e erros sociais. Precisa, simplesmente, de ser castigada para compreender que os direitos implicam deveres, que existem mais pessoas, no mundo, para além dela e que essas pessoas merecem ser respeitadas. Daí a ser renegada por toda a gente vai uma grande diferença.

Todavia, apesar da manifesta falta de respeito e agressividade da aluna, esta não está só no seu acto. Sem o “apoio e incentivo” dos colegas, em especial do “artista do vídeo”, talvez não levasse tão longe a sua luta pelo telemóvel e a sua atitude de desconsideração pela professora. Com uma palavra, um gesto de condenação do resto da turma, talvez tivesse parado a tempo. E destes não oiço falar, não oiço condenar a sua atitude, não oiço qualquer palavra de reprovação sobre o “menino” da filmagem. Não sei se estão a ser “tomadas medidas”, mas o que passou naquela sala implica a turma toda num acto de agressividade para com a professora. Mesmo os alunos que se tentam aproximar não mostram intenção de intervir. Aproximam-se, apenas, e saem à primeira ordem para deixarem o campo de visão aberto para as filmagens. São quase tão culpados como a aluna em causa.

Também se ouve falar na possibilidade de retirar a turma à professora, ou de a convidar para assumir um lugar na DRE.
Parece-me que mudar a professora, nesta altura do ano, quer retirando-lhe a turma, quer dando-lhe um lugar numa qualquer DRE é reconhecer, publicamente, “a impreparação” da srª para conduzir a turma e dar-lhe um final de carreira cheio de suspeições e indignidade. Por muito afectada que tivesse ficado (e tem razões para isso) eu, no lugar dela, não aceitaria nenhuma das situações anteriores. Seria reconhecer, perante o país, a escola e os alunos, a minha incompetência!

Mas o que mais me custa, como professora, que também sou, é que ainda não ouvi uma palavra de apreço e de apoio, para com a colega, por parte de qualquer instância do ME!

Mais uma vez, o ME, através de todas as suas chefias implicadas – gabinete ministerial e direcção regional do norte – se cala!
Mais uma vez o ME desprestigia os professores não manifestando apoio à professora.!
Lamentaram a atitude da aluna, tentaram negar a evidência de que existem actos de violência nas escolas, minimizaram, repetidamente, o acto, mas não abriram a boca para apoiar a professora, para lhe garantir que estão ao seu lado, para pôr um "penso" na sua auto estima ferida, para lhe restituir a dignidade perdida por causa de um fedelha mal-educada, para lhe garantir que, na sala de aula, quem manda é ela.

Calaram-se! E este silêncio é de fel… não de oiro!
.

21/03/2008

Os filhos de Rousseau

“Rousseau nasceu em Genebra, na altura um estado independente, e nunca foi um admirador da cultura francesa, nem tão-pouco de cultura nenhuma.” As suas ideias “pedagógicas” encontram-se ligadas aos seus ideais políticos: “uma criança que cresce numa sociedade civuilizada é ensinada a refrear os seus instintos naturais, a reprimir os seus verdadeiros sentimentos, a impor as categorias artificiais do pensamento conceptual sobre os seus sentimentos e a fingir que pensa e sente coisas que não sente nem pensa. Por conseguinte, a civilização é corruptora e castradora dos valores verdadeiros”. Assim, o que devemos fazer é “mudar a civilização de forma a possibilitar aos nossos instintos naturais uma expressão completa e livre. Rousseau defendia mudanças fundamentais na educação para libertar o indivíduo das grilhetas da civilização. O seu ponto central é que a educação não deve ter como objectivo reprimir e disciplinar as tendências naturais da criança, mas, pelo contrário, incentivar a sua expressão e desenvolvimento. O principal veículo de instrução não deve ser a instrução verbal, muito menos a livresca, mas a prática e o exemplo. O ambiente natural para que isso possa acontecer é no seio da família e não da escola. Rousseau constitui a génese dos movimentos totalitaristas - tanto o fascismo como o comunismo´. Foi também crucial no desenvolvimento do pensamento anarquista do século XIX. Os perigos [desta maneira de pensar]são vários, mas temos de arranjar maneira de viver com eles.”
Brian MaGee, História da Filosofia
Agora, clique aqui.
Eis o que defendem os filhos de Rousseau.

Contra factos, não há argumentos!

.

.

Contra recados destes não há argumentos! ;)

Se a mãe desta "menina" lhe dá o direito de...,
se trata a professora por tu...,
se ameaça a professora...,
se, em casa, deve ter comentado em "linguagem adequada" a situação ocorrida na aula...

que poderemos esperar da atitude desta "menina"?

.

.

Escola a tempo inteiro, ou a imbecilização de um futuro

.

Recupero um artigo de Clara Viana, publicado no Público, em 20.05.2007

"Portugueses não querem ter mais tempo para a família, ao contrário da maioria dos europeus"

"O universo das famílias continua em profunda transformação em Portugal. Os agregados de um casal com filhos desceram abaixo dos 50 por cento
Os portugueses têm cada vez menos filhos
e, entre a maioria daqueles que os têm, não faz parte das prioridades poder ter mais tempo para lhes dedicar, segundo dados divulgados esta semana pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) a propósito do Dia Internacional da Família.
Mais individualistas, mais autocentrados: é uma tendência que já não é nova, mas que se tem vindo a consolidar. Surpreendentes, contudo, são estas percentagens extraídas do Inquérito ao Emprego de 2005, agora divulgadas: 83,7 por cento da população empregada, com pelo menos um filho ou dependente a quem prestem cuidados, diz que não deseja alterar a sua vida profissional para poder dedicar mais tempo a cuidar deles. Os que admitem desejar trabalhar menos para conseguir aquele objectivo representam apenas 13,4 por cento. A percentagem de mulheres nesta situação mais do que duplica a dos homens (18,8 por cento contra 8,1).
Nos estudos realizados por organismos da União Europeia ressalta o contrário, com a maioria dos europeus a manifestar-se insatisfeito no que respeita à conciliação entre trabalho e família. Esta insatisfação foi mesmo apresentada como uma espécie de "moeda comum" europeia."

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1294522

As conclusões deste estudo vêm sublinhar muito do que os professores têm dito, quanto à cada vez mais acentuada falta de educação referente a atitudes, valores e princípios revelados pelas crianças/jovens e chamar a atenção para a enorme falta de apoio escolar, em casa, de que se queixam frequentemente.

Os elementos deste Governo terão também este perfil psicológico, ou apenas o têm aproveitado e fomentado para nos impor uma ideologia de desresponsabilização familiar, passando para a escola tudo o que são responsabilidades parentais, apoiados e defendidos por quem se diz representante das famílias?

A Ministra que, ao primeiro sinal de argumentação contrária, amua, faz beicinho e fica com as lágrimas nos olhos, seria capaz de enfrentar uma sala cheia de putos que, às leis da civilidade “dizem nada”?

Os “psis” que analisam situações como a ocorrida, recentemente, por causa dum telemóvel e que desculpabilizam “a jovem e os seus colegas” pela manifesta atitude de falta de respeito e agressividade, sublimarão, assim, os seus erros “caseiros”, desculpando-se, através dos comportamentos alheios, de possíveis comportamentos dos seus rebentos?

Os AA, desta terra, que apoiam a desculpabilização de todos os comportamentos disruptivos das crianças/jovens deste país, desde que cometidos intramuros da escola, assacando-os sistematicamente aos professores, estariam dispostos a suportar que, no seu emprego, “alguém” ou um “bando de vários alguéns”, lhes faltasse sistematicamente ao respeito, chegando muitas vezes à agressão verbal, psíquica e mesmo física?

Fazê-los é bom, dá prazer!
Para além do prazer, os filhos trazem, consigo, o status social dado pela paternidade/maternidade, como símbolo da contribuição para a sociedade, para o prolongamento da vida.
Só que este reconhecimento social implica(ria) um dever para com essa mesma sociedade – a educação dos filhos. Erradamente, “um saco de teorias libertárias” convenceu, essa mesma sociedade, que esse dever lhe competia a ela e só a ela, através da escola, e não aos pais. Aquilo que seria um direito, o completamento da educação através da instrução e da socialização, transformou-se, rapidamente, num nada. Às escolas, a quem estava outorgado o ofício de ensinar, foi-lhes atribuído o papel de “amas”.

E cientes desse novo papel da escola, todos lhe reclamam o cumprimento de um dever que não lhe compete, para o qual não tem estruturas, nem capacidade. Incapaz de responder a todas as solicitações, a escola perde-se nas suas inúmeras tarefas não sendo capaz de responder a nenhuma com sucesso.

Não consegue educar porque aquilo que ela faz é desfeito em casa, já que na maioria dos casos, os pais acabam por funcionar como “avós” deseducando aquilo que foi educado durante o dia, negando por completo a autoridade da escola.

Não consegue ensinar porque isso foi subtraído dos programas, já que apenas se tem que desenvolver competências, e mesmo assim não o conseguindo porque passa o tempo a interromper para educar e porque naquilo que tenta ensinar lhe é negado o apoio em casa.

Ainda não satisfeitos com a situação, o “patronato” (que define as regras do serviço prestado) e os pais (que deviam apoiar e exigir ao tal “patronato” melhores condições e melhor “produto”) em vez de exigirem, a quem devem, respeito e trabalho, reclamam, acirradamente e insultuosamente, contra os agentes que prestam um serviço que, neste momento, é uma manta de retalhos que não serve a ninguém, retirando-lhes qualquer hipótese de desenvolver um trabalho sério ao desculparem e minimizarem todos os desmandos e diatribes dos “meninos”.

Mas apesar, de como afirmam, a escola se constituir um local de insucesso, a todos os níveis, “patronato” e pais querem que os “meninos” aumentem o seu tempo de estadia nesse antro de inutilidade. Querem, transformar as 37 horas semanais, lá passadas pelos alunos, em 55 horas semanais!

Que o “patronato” defenda esta situação todos percebemos! Quer, simplesmente, agradar aos outros “patronatos” libertando os pais das “crianças/jovens” para que estes estejam disponíveis para ser esmifrados e escravizados até ao tutano.

Que os pais não percebam isto é que já é mais grave!
Que os pais, crentes de que estão a usufruir da sua liberdade de ter um emprego (e talvez um pouco de tempo livre), não compreendam que não têm que lutar por uma escola a tempo inteiro, falácia para ocupação de tempos livres mal geridos e mal implementados, como se vê com as actividades do 1º ciclo, mas sim, reivindicarem, à semelhança do que acontece em muitos países da Europa e nos Estados Unidos, empregos (em que não sejam explorados, unicamente, para o bem do patronato) e tempo livre de qualidade para a família e para apoio aos filhos, é que não se compreende.

Que os pais não se apercebam dos objectivos dos diferentes “patronatos”, ao tão amavelmente lhes quererem fornecer a escola a tempo inteiro, para poder escravizá-los para seu lucro pessoal, implementando a precariedade laboral como forma de amordaçá-los; infantilizando-lhes e formatando-lhes os filhos, para uma futura sociedade sem reacção, ao gerir-lhes todos tempos, tornando-os incapazes de se organizar, com o objectivo de os poder comandar e controlar sem objecções, tudo isto feito sob a capa da protecção das crianças/jovens e da facilitação da vida familiar, também não se compreende.

Que os pais não compreendam as grades em que estão encarcerando o seu futuro e o dos seus filhos e ainda defendam todas as cretinices apresentadas, como redentoras da sociedade, por um (des)governo que nos vai afundando, diariamente, na ânsia de lucros cada vez maiores, aumentando, passo a passo, o fosso entre o trabalhador e o patronato, é desolador.

Que os pais não o percebam e ainda o defendam, só se compreende mesmo com esta constatação: “Mais individualistas, mais autocentrados: é uma tendência que já não é nova, mas que se tem vindo a consolidar”

Não chore a sociedade, num futuro muito próximo, os erros cometidos, porque avisados a horas. Os professores alertam, há demasiado tempo, para este fenómeno, mas como resposta a esta alerta só recebem o insulto de que o que querem é não fazer nenhum!

17/03/2008

Resposta aos "discursos com barbas" de David Justino

.

E se começássemos por achar que a escola para todos não é apenas um direito para quem dela usufrui, mas também o cumprimento de um dever face à sociedade que a disponibiliza?

Como ninguém parte deste princípio, alunos e famílias sentem-se no direito de exigir, mas não no dever de dar nada em troca.

Quando for, socialmente, possível exigir atenção, comportamentos adequados, interesse e participação na aula, estudo e trabalho de casa, ida aos apoios disponibilizados nas escolas (a que os alunos faltam constantemente) peçam satisfações aos professores.

Quando a escola for socialmente valorizada como local de aprendizagens e não como local onde se colocam as crianças, sem que se lhes possa exigir trabalho (porque os "meninos" se cansam muito) peça-se satisfações aos professores.

Pode-se castigar os professores introduzindo mil e um diplomas:

- em que se preveja avaliação exaustiva do cumprimento dos seus conteúdos funcionais;
- em que se sobrecarregue o professor com montes de aulas de apoio, de substituição, de projectos de escola, de elaboração de relatórios para desmotivar as retenções, de reuniões de trabalho;
- em que se institua a figura de director para funcionar com um papão;
- em que se pretenda criar conselhos de escola que passarão a gerir toda a actividade escolar incluindo a pedagógica subordinando-a à administrativa;

que os resultados reais, respeitantes ao insucesso, não se modificarão, mesmo que as estatísticas se alterem.

Enquanto:

- não for decidido socialmente que cidadão se quer que a escola forme;
- não forem revistos os conteúdos necessários à formação desse cidadão; -
- não for implementada uma diversificação para aquisição desses conteúdos, dando possibilidade aos alunos/famílias de escolha de vias diferenciadas para a sua formação (a maioria não quer ser “doutor” e o ensino está todo vocacionado para essa via);
- a sociedade não deixar de desculpar o aluno, considerando-o como uma vítima, e não como um agente activo no seu processo de aprendizagem;
- se tentarem implementar reformas em cima de reformas sem que qualquer delas seja aferida e avaliada (ainda não acabámos de implementar uma, já outra está a surgir – não há escola que aguente);
- não houver um “pacto de regime no âmbito da educação” que permita uma continuidade do trabalho, independentemente do governo/ministro que de momento governa o país; -
- não se parar de fazer reformas enrolando sempre o sistema sem se tratar do núcleo principal;
- … enquanto não se parar para pensar qual é mesmo o problema;

não haverá resultados palpáveis em educação. Não haverá professor que os consiga, a não ser que trabalhe em escolas com determinadas elites sociais

Quando se compara com outros sistemas, convém analisá-los para perceber quais as diferenças e não importar fatias para implementar num sistema que nada tem a ver com os outros. Um sistema é um sistema porque constitui um todo… não pode ser remendado!

Desculpem-me "achar" tanta coisa, mas estando no terreno (ainda por cima num "terreno acidentado") e não nos gabinetes "acho isto tudo"!

http://quartarepublica.blogspot.com/2008/03/educao-e-os-discursos-com-barbas.html#comments

13/03/2008

Avaliações que não servem os desígnios para que dizem ter sido criadas

.

Joaquim Farias (roubada em http://ferrao.org/2008/03/joaquim-farias-organizao.html

.

Em tempos, chamei a atenção para este "fenómeno", esta enormidade chamada SIADAP, em diversos locais e a várias pessoas. Poucos ligaram, pensando que esta "coisa" talvez não fosse consigo. O que é certo é que já está implementado na maioria dos locais.
.
Creio que a maioria dos funcionários não percebeu, ainda, o diabólico desta avaliação. Creio que os professores não se aperceberam, que apesar dos parâmetros “definidos no ECD”, iremos ser avaliados de acordo com uma dinâmica semelhante.
Creio que, dos que leram alguma coisa sobre o assunto, uns pensaram que aquilo nunca iria para a frente, outros que não seria aplicado aos professores. Infelizmente, parece-me que pelo andar da carruagem, tanto uns como outros estão errados.
.
A aplicação do SIADAP como modelo de avaliação de funcionários públicos, nomeadamente dos funcionários das escolas, modelo global de avaliação, baseado em objectivos fixados de acordo com a avaliação de resultados (produto), a aplicação do SIADAP, mesmo que não o seja no “seu estado mais puro” aos professores a aplicação, à avaliação das escolas, do modelo de excelência da EFQM (European Foudation for Quality Management), modelo concebido para avaliar grandes empresas em que há um produto concreto e contabilizável a produzir, revela-nos bem a concepção empresarial que estão a atribuir quer às repartições de serviços públicos, quer às escolas.
.
A aplicação das noçõezinhas de gestão, que uma qualquer cabeça não pensante introduz num sistema que não pode ser comparado com uma empresa, implementando o gestonês, à semelhança do que já aconteceu com o eduquês, não traz nada de bom para o sistema educativo e muito menos para as escolas.
.
Ambos os sistemas são baseados num sistema de pontuação, em que existem tabelas com critérios cujas pontuações, específicas para cada item, são estabelecidas de acordo com a importância que lhes é atribuída. (isto lembra-lhes alguma coisa?), o que permite valorizar o que se pretende valorizar (um pleonasmo – não é bem, mas…- intencional). Este tipo de avaliação vai permitir uma comparação interna e externa, contribuindo para “rankingismo” exacerbado, comparando situações reais incomparáveis.
.
No "SIADAP" existem 3 componentes básicas de avaliação de cada funcionário: alcance dos objectivos, competências comportamentais (têm a ver com os conteúdos funcionais) e atitude pessoal.
.
Se no que respeita à definição de competências e de atitudes não se colocam muitos problemas porque não foge muito ao estabelecido anteriormente, já o mesmo não pode ser dito em relação à introdução do conceito de “trabalho por objectivos”, através da contratualização de objectivos individuais MENSURÁVEIS, nomeadamente, em profissões cujo conteúdo profissional principal se centra nas relações humanas.
.
E estes objectivos tornam-se tão mais esquizofrénicos quanto mais são confundidos com os objectivos da organização, como no caso da avaliação do pessoal docente em que se pede a cada professor que tenha como objectivo individual a redução do insucesso ou do abandono, apontando para percentagens fixadas pela escola/agrupamento, como meta.
.
Tomemos como exemplo, os parâmetros já referidos e considerados os mais controversos da avaliação proposta para os docentes: o insucesso e o abandono. O professor não se pode propor reduzir em x a taxa de insucesso e/ou abandono. O professor apenas se pode comprometer na realização de acções que possam contribuir para que isso possa acontecer, mas mesmo neste caso, fica sempre dependente da resposta do(s) aluno(s), já que esta variável não é completamente controlável pelo professor.
.
A estes, seguem-se, inúmeros parâmetros, quase todos de uma subjectividade gritante. Como se mede o empenho, o rigor, a equidade, a qualidade, o grau de participação, …? Como se traduz tudo isto em pontos “grelháveis”.
.
Mas no que respeita ao nosso conteúdo funcional principal, também não estamos melhor. Quem determina a correcção pedagógica? Se a minha corrente e a do avaliador forme diferentes, como é? A mesma dúvida se coloca relativamente à “adequação e correcção pedagógica das metodologias utilizadas”
Eu, por exemplo, sei que estou a utilizar metodologias e práticas pedagógicas completamente “fora de prazo” na maioria das minhas aulas. Sei-o e utilizo-as! Porquê? Porque com os alunos que tenho, neste momento, são as mais viáveis. Gosto? Não! Rendem menos, são menos interessantes, menos motivadoras, menos enriquecedoras! Sei disto tudo e no entanto utilizo-as? Sim. Noutras escolas utilizei outras. Nesta, depois de várias experiências mal sucedidas tive que voltar “ao século passado”. E agora vem alguém dizer-me que não é assim, que não concorda com "a correcção, a diversidade, a adequação"… Talvez não porque quem me avaliar (?) pertence à mesma escola e também está a utilizar o mesmo tipo de trabalho. Mas se (ou quando) fosse (for) o tal inspector, vindo de fora, desconhecendo a realidade?!
.
E depois há o processo! Burocrático, contabilístico, desumano, numa profissão essencialmente baseada na relação humana.
.
Por fim, surgem os resultados. Para que serve tudo isto? Para distinguir profissionais competentes? Para melhorar as organizações? Para determinar pontos fracos e tentar melhorá-los?
.
Não, nada disto! Tudo isto tem como único objectivo o condicionamento das progressões. E tudo isto é feito sob a capa da promoção do mérito.
.
Se fosse esta a verdade porque não são avaliadas as chefias da FP (como foi noticiado)? Se tudo isto é verdade porque é que os resultados não são todos ratificados? Sim. Nem todos os que tiverem as tais classificações que se enquadram no conceito de mérito têm direito a tê-las. Por isso não me digam que esta avaliação de desempenho seja a da FP, seja a nossa, pretende reconhecer o mérito.
.
Nem os sindicatos, nem os próprios trabalhadores reivindicam que todos os trabalhadores sejam excelentes ou muito bons. O que contestam é que se limitem, dentro de cada serviço, o número de trabalhadores que o possam ser. Quanto a mim, e creio que também é esta posição deles, é possível que num serviço existam 2 ou 3 excelentes e no serviço ao lado não exista nenhum. O que está em causa é a possibilidade de ser reconhecido o mérito de quem o tem, não sendo limitado esse reconhecimento a números resultantes de uma simples proporção.
.
Esta avaliação (SIADAP) está inquinada à partida.
.

Está inquinada pelas cotas e pelas quotas, está inquinada por avaliadores e avaliados se misturarem na mesma “gamela”, está inquinada por avaliadores e avaliados “concorrerem”, dentro do mesmo grupo, para as quotas existentes dentro da cota de cada nível”.
As cotas de cada nível são 5% para o excelente, 20% para Muito Bom por organismo ou serviço. No entanto, para que possam existir estes níveis o grupo em causa tem que ter um mínimo de 20 funcionários. Se isso não acontecer, e os funcionários quiserem aceder as estes níveis, têm que se juntar vários serviços e/ou categorias.
.

Fazendo as contas, facilmente se percebe que para 20 funcionários as quotas de Excelente e de MB são, respectivamente, 1 e 4.
.

Encontramos, aqui, um dos pontos maquiavélicos da questão.
.

Dando um exemplo:
Na minha escola, para que, na avaliação do pessoal não docente, tenhamos 20 funcionários, é necessário juntar todos os Auxiliares de Acção Educativa (AAE), todos os Assistentes Administrativos (AA), a Técnica do ASE e o Psicólogo do SPO (que sendo técnicos superiores não são do mesma categoria dos grupos anteriores).
Todos eles vão “concorrer” para aqueles dois números: 1 e 4..Entre estes encontram-se dois elementos avaliadores: CSAE (chefe da secretaria) que avalia os “seus” AA e a Chefe do Pessoal que avalia os “seus” AAE.
.

Estes dois elementos avaliadores vão ser avaliados, tal como os dois técnicos por um elemento do CE.
A avaliação é feita entre o avaliador e o avaliado (negociação secreta entre cada um), o avaliador recebe a proposta de auto avaliação, mas antes da reunião final entre avaliadores não pode dar a conhecer a notação que atribuirá.
.

Até aqui tudo bem, ou tudo mal, não interessa … é um processo.
Só que, agora, na reunião de avaliadores vão encontrar-se pessoas que são simultaneamente avaliados e avaliadores.
.

Nessa reunião apenas o elemento do CE não está a lutar por um “lugar ao sol”.
.

Cada um destes avaliadores pode trazer, em carteira, 1 excelente e alguns MB dependendo do número de avaliados.
.

Nesta reunião vai ser negociado entre avaliadores qual o excelente mais excelente e quais os MB mais MB de entre todos.
.

Não esquecer que dois dos avaliadores também são avaliados à procura do excelente!
.

Nem vale a pena dizer mais nada quanto ao maquiavélico da situação!
Nem vale a pena equacionar as interacções negativas existentes dentro desta reunião!
Nem vale a pena explicar o que de pérfido existe numa situação em que avaliadores e avaliados estão em pé de igualdade na luta pelo mesmo “prémio”(!)e em que alguns (2) têm poderes que os outros não têm!
.
E agora, falando de professores...
.
Este é um dos problema que se vai colocar aos professores ao dividirem uma carreira horizontal, numa carreira horizontal com dois patamares em que todos fazem o mesmo, “concorrem” para o mesmo, mas em que uns têm que avaliar outros, não para que o trabalho se desenvolva em termos de excelência, mas sim para que essa avaliação tenha como resultado final a progressão estatutária e financeira de cada um.

.
Este tipo de avaliação, já de si bastante má, porque não está prevista para a melhoria das organizações, mas para a criação da competitividade entre pares, indo buscar tudo o que de pior pode conter este conceito, é o mesmo que irá ser aplicado entre nós... ao englobar avaliadores e avaliados na mesma corrida não pode resultar de forma nenhuma numa melhoria do sistema (nem no nosso, nem noutro qualquer!).
.
Vou continuar a utilizar o exemplo do pessoal não docente da minha escola para explicar o que esta avaliação tem de pérfido.
.

Daqueles 20 funcionários que mencionei, apenas 1 poderá ser excelente!!!
Como bem se percebe, os serviços, os conteúdos funcionais e as categorias profissionais são completamente distintos, no entanto, estão todos dentro do mesmo “saco”!
Para além do excelente, e de acordo com as percentagens permitidas, apenas será possível a atribuição de 4 Muito Bons.
.

Se houver mais do que um avaliador (como disse são 3, porque as categorias são diferentes, e portanto, os avaliadores são diferentes) com propostas de excelente ou muito bom, na reunião de avaliação os diferentes avaliadores terão que negociar entre si a quem sairá o “Óscar”, independentemente das categorias profissionais, independentemente da excelência dos diversos funcionários.
.

Com este processo, os serviços/avaliadores podem jogar com os sistemas de créditos… basta que a avaliação de excelente e/ou de muito bom seja “distribuída” ano após ano, para que as progressões não aconteçam.
.

É fazer um cálculo matemático e ver quantas pessoas progridem, e quantos anos se leva para progredir, independentemente da excelência... e, como já referi, dos jogos que se podem fazer para que as progressões sejam continuamente proteladas (é uma questão de consultar as condições para progressão - nº de avaliações com determinado índice qualitativo vs número de anos necessários).
.
Passando novamente à avaliação de desempenho docente, penso que percebendo o SIADAP se percebem muitas coisas do processo que nos querem impor.
Só nos resta saber as quotas que nos destinam e como serão divididas.
Será num bolo para a escola toda?
Será esta uma das explicações da redução dos Departamentos existentes nas escolas a apenas 4? (as vagas para professor titular foram divididas por estes 4 departamentos…)
.

Adenda:

... e a informação da DGRHE:


http://www.dgrhe.min-edu.pt/DOCENTES/PDF/Docente/AvaliacaoDesempenho/ImpedimentosAvDesempenho.pdf


Nem vale a pena ler mais…

.
1 - Nenhum titular de órgão ou agente da Administração Pública pode intervir emprocedimento administrativo (…)
c) Quando, por si ou como representante de outra pessoa, tenha interesse em questãosemelhante à que deva ser decidida, (…)

.
Como as quotas são para todos e todos concorrem às mesmas quotas de Exc e MB, incluindo o pres do CE, está resolvido o assunto.
Estamos todos impedidos!
Eu bem me fartei de avisar que não nos podíamos estar a avaliar para concorrermos todos para o mesmo fim
Mas o que é interessante é esta gentinha ir buscar o CPA e não perceber que está a enterrar o seu nascituro ainda antes do seu 1º berro.
.

Estou legalmente impedida de avaliar!!!!! :)

11/03/2008

Avaliação ou classificação com vista a...?

.

(roubada por aí...)

.

A Srª ME diz que a avaliação entre pares é muito bonita. Diz-nos isto porque é a forma mais económica de a realizar e não porque fosse esse o caminho que escolhesse se por acaso tivesse uma miríade de inspectores disponíveis para andar por todas as escolas.
.
Realmente, a avaliação entre pares seria óptima se se tratasse disso mesmo, de uma avaliação. Avaliação esta com carácter formativo, avaliação que até serviria ao avaliador e ao avaliado pela troca de saberes que daí poderia advir.
.
O problema que se põe é que quando falamos da avaliação, proposta pelo ME, não falamos de uma avaliação, mas sim de uma classificação. E falamos de uma classificação que produz efeitos numa progressão profissional em função de níveis quantitativos diferenciados, como é próprio de uma classificação.
.
E é nesta nuance da avaliação que irão emperrar a cooperação e o enriquecimento dos professores, enquanto actores de processos que se pretendem colegiais. Numa profissão em que este deveria ser um dos objectivos, este tipo de avaliação fará com que definhe qualquer partilha de conhecimentos, de materiais, de trocas pedagógicas. Todas as que acontecerem, resultarão, apenas, da necessidade de cumprimento de um qualquer objectivo individual e surgirão como uma acção para um determinado fim, e não como uma partilha.
.
Numa avaliação classificativa, em que avaliadores, avaliadores-avaliados e só-avaliados concorrem todos para as MESMAS quotas de notações (Exc e MB) que possibilitam bonificações para progressão na carreira, alguma coisa está mal.
.
E piora quando avaliadores (incluindo os avaliadores do CE) e avaliadores-avaliados participam em reuniões de decisão de avaliação nas quais são, simultaneamente, decisores e candidatos.
.
Se forem ultrapassadas as quotas, qual é o Exc mais Exc, qual é o MB melhor MB? Como pode um avaliador defender a sua avaliação de um destes níveis se não pode ser defensor de um dos seus avaliados?
Se forem, ultrapassadas as quotas e algum dos decisores se encontrar, em situação de igualdade com outros candidatos (mesmo estando isento de votar em si) em quem votam os outros decisores? Naquele candidato que está com eles? Ou noutro candidato que nem está entre estes? (factor humano)
.
Avaliações classificativas só se entendem numa perspectiva de carreiras verticais, onde existem patamares de chefias, em que determinado patamar é responsável pelo de baixo e responde ao de cima, e em que não existe concurso de uns e de outros para o mesmo fim.
.
Analisem-se os diversos documentos existentes, nomeadamente um dos que está no site da dgrhe e do qual uma das autoras foi designada para o CCCA, e veja-se que nesses documentos as avaliações em causa se ficam pelo tipo de avaliação formativa. Repare-se, também, que mesmo em documentos de outros países que promovem o reconhecimento do tal mérito de que falam, o reconhecem na sua plenitude, não vindo dizer que em tal sítio apenas podem coexistir x Exc ou y MB.
.
Sei que nem todos podem ser EXC ou MB, mas sei, também, que em determinados locais se pode concentrar um número maior destes elementos e noutros não existir nenhum. Estabelecer quotas por escolas/agrupamentos faz com que uns não possam ser reconhecidos e noutras haja casos de "em terra de cegos, quem tem olho é rei"
.
Repare-se, que à excepção, da observação de aulas, o que até me foi pedido (e não só a mim) para fazer algumas vezes, e dos objectivos a cumprir em função da diminuição das taxas de insucesso/abandono, tudo o que consta da proposta do ME, constava da auto avaliação feita no relatório crítico que cada um de nós apresentava para a candidatura à mudança de escalão. Tudo era avaliado, só que de forma qualitativa. Agora passa a ser de forma quantitativa.
E não afirme o Governo que nunca houve quem não mudasse de escalão devido a uma classificação de Não Satisfaz porque isso é completamente falso. Houve casos desses, por isso informem-se. Não sei se houve pedidos de avaliação de bom ou de avaliação extraordinária de muito bom. Se não os houve foi porque quem os regulamentou não criou condições para que servissem para alguma coisa. Ter um bom, para que 15 anos depois se pudesse pedir um muito bom, que apenas daria direito a uma bonificação de dois anos na progressão na carreira, não era razão para o incómodo que implicava estas solicitações. O problema da avaliação contida no antigo ECD resultava de uma falta de cumprimento das obrigações de regulamentação dos sucessivos ME e não de uma má aplicação das escolas, ou de constituir aquilo a que os srs do governo entendem, agora, designar por progressão automática.
.
Não é uma avaliação individual que vai produzir resultados melhores do que os que existem. A avaliação proposta, coarctando, à partida, a possibilidade de progressão na carreira e de ascensão ao seu topo, à maioria dos professores, é de tal forma desmotivadora, que a maioria não verá necessidade de se esforçar mais do que o suficiente para garantir a sua subsistência no sistema. O profissionalismo tem limites! E se a vontade de “fazer coisas” que nos caracteriza passa a estar condicionada por uma burocracia desmedida, se o espírito colegial que nos é inerente se transforma numa corrida individual para a conquista de um determinado nível qualitativo, se o trabalho passa a ser desenvolvido pela conquista de objectivos individuais, toda a vida da escola vai definhar, tornando-se numa profissão semelhante a uma qualquer repartição em que “as salas de aula se transformarão em guichets de atendimento” onde se “aviarão” os clientes.
.
Só quem não faz a mínima ideia do que é uma escola pode propor formas de avaliação dos seus actores semelhantes às de uma empresa de produção de um qualquer artefacto.
.
A avaliação no ensino deveria fazer-se pela avaliação das escolas e não pela avaliação minuciosa de cada um dos seus actores.
A avaliação interna implicaria um maior rigor e aferição de trabalho e resultados, com vista à avaliação externa, e conduziria à anulação de "discrepâncias negativas individuais" que pudessem existir. Se estas persistissem, seria assunto para análise/avaliação desse(s) caso(s) para perceber se o problema residia no(s) professor(es) em causa, ou noutro ponto, implicando, neste caso, observação de aulas ou mesmo intervenção de inspectores.
.
Os professores são avaliados diariamente, hora a hora. Nas escolas, todos (professores, alunos, funcionários e pais) sabem quem são os professores excelentes, os bons professores, ou os menos bons professores.