Alguém vê a diferença entre o sonho americano e o português?
A educação será mesmo uma meta desta gentinha?
Blogue de Professores: Quadros, Contratados, Desempregados.
Alguém vê a diferença entre o sonho americano e o português?
A educação será mesmo uma meta desta gentinha?
Já aqui disse, e reafirmo, que a diferença salarial entre os professores no início e no final da carreira é obscena. Agora, é a própria OCDE quem o afirma: aqueles que nem carreita têm são os que ganham menos, enquanto que os que têm um lugar assegurado são, precisamente, os que ganham mais.
A impressão que dá é que houve alguém que comeu tudo, e para os outros já não sobrou nada. E se me vierem com a treta da solidariedade intergeracional, fico à espera que o exemplo venha de cima.
O documento foi elaborado com base em dados estatísticos que vão até 2007.
O governo apresentou esta semana os números relativos às taxas de insucesso escolar em 2008/2009. Segundo os jornais, a retenção - vulgo "reprovação" - diminuiu quase para metade nos últimos quatro anos, cifrando-se agora em 7,7% no básico e em 18% no secundário. Para o primeiro-ministro, aqueles que consideram que estes resultados são um produto do facilitismo estão a insultar os professores, os alunos e as suas famílias. No entanto, os próprios professores, os alunos e as suas famílias não terão qualquer dificuldade em reconhecer que esse mesmo facilitismo se instalou, paulatinamente, no nosso sistema de ensino.
O sucesso de um sistema educativo mede-se por testes internacionais que permitem a comparação entre diferentes sistemas, e não pela diminuição das taxas de reprovação. A associação do sucesso escolar à mera passagem de ano é apenas um dos muitos reflexos da ideologia que fez passar a escola de um lugar para aprender num instrumento de inclusão social. É da mais elementar honestidade admitir que a origem desta ideologia é o pensamento da esquerda e uma visão irreflectida das implicações do ideal de igualdade. No entanto, o sucesso da ideologia da escola inclusiva foi tal que ela se tornou politicamente transversal. Um dos principais responsáveis pela sua propagação no nosso sistema de ensino foi Roberto Carneiro, um político da direita conservadora e que ainda ontem veio, sem surpresa, aplaudir publicamente os resultados apresentados pelo governo.
Porém, mais cedo ou mais tarde teremos de nos confrontar com a realidade: na situação a que as políticas da escola inclusiva conduziram o sistema educativo, ele deixou de ser um trampolim para os desfavorecidos pela lotaria social. Pelo contrário, a inclusividade da escola levou as classes altas e médias a trocar o sistema público pelo privado ao nível da educação pré-universitária. O resultado final deste processo é um típico efeito perverso: a transformação da escola pública, que pretendia promover a inclusão, num factor de exclusão social.
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Os lobos e os carneiros
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Planejavam os lobos surpreender um rebanho de carneiros. Mas graças aos cachorros guardiões, não podiam faze-lo. Então decidiram empregar a sua astúcia.
Enviaram uns delegados aos carneiros para pedir-lhes que entregassem seus cães, dizendo-lhes:
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Os cachorros são os causadores de que haja inimizade entre vocês e nós. Só precisam entrega-los e a paz reinará entre nós.
Os ingênuos carneiros sem suspeitar do que sucederia, entregaram os cachorros, e os lobos, já livres dos cachorros, se apoderaram sem problemas do rebanho.
MORAL: Nunca entregues aos inimigos, os que te dão apoio e proteção!
.Esopo (?)
roubado aqui: www.sdr.com.br/Jornais/330/cartas.htm
.Exma. Senhora Ministra da Educação
Com conhecimento a:
Presidência da República
Governo da República
Procuradoria Geral da República
Plataforma Sindical
Comissão de Educação da Assembleia da República
Grupos Parlamentares
Direcção Regional de Educação de Lisboa
Órgãos de Comunicação Social
ASSUNTOS:
- Continuação da decisão de suspensão das actividades inerentes à implementação do actual modelo de avaliação.
- Pedido de revogação do actual modelo de avaliação de desempenho e revisão ou mesmo revogação do estatuto da carreira docente (e ainda de outros diplomas)
Os professores do Agrupamento de Escolas Carnaxide – Portela, subscritores deste documento, tendo decidido em 19 de Novembro p.p. suspender todos os procedimentos inerentes à avaliação de desempenho introduzida pelo Decreto-Lei nº 15/2007, de 19 de Janeiro e regulamentada pelo Decreto-Regulamentar nº 2/2008, de 10 de Janeiro, reuniram-se para reanalisar a sua posição face ao novo documento emanado do Ministério da Educação, o Decreto Regulamentar n.º 1-A/2009 de 5 de Janeiro.
Saliente-se que este último remendo numa legislação já tão esquartejada e já tão desfigurada, apesar de manter a mesma estrutura, veio criar ainda mais estupefacção aos professores, que no terreno exercem todos os dias a sua profissão, ao perceberem quão distante da realidade se encontra quem legisla.
Este novo diploma, na sua ânsia de implementar um modelo desprestigiante para a classe, sem parar para ouvir quem sabe da sua profissão, das condições do seu exercício e do que é importante considerar na sua avaliação, enferma ainda de mais erros do que o anterior:
1 - mantém o pressuposto de que os professores aceitam a divisão em duas categorias com todos os prejuízos que essa divisão acarretou;
2 - continua a confundir mérito com progressão, ao atribuir quotas para a avaliação impedindo, desta forma, o reconhecimento do verdadeiro valor profissional dos professores;
3 - alega que os professores têm que ser avaliados porque disso depende a melhoria do ensino, no entanto, dispensa a maioria dos professores da avaliação científico-pedagógica;
4 - cria diversos segmentos de professores, tentando dividi-los, para tentar implementar o modelo, criando verdadeiras situações de desigualdade e de discriminação ao dispensar, automaticamente, diversos grupos ou da globalidade da avaliação ou de segmentos dessa avaliação:
a) Os dispensados da avaliação (art. 12º e art.13º - os docentes que, até ao final do ano escolar de 2010-2011, estejam em condições de reunir os requisitos legais para a aposentação ou requeiram, nos termos legais, a aposentação antecipada; e os docentes contratados em áreas profissionais, vocacionais, tecnológicas e artísticas, não integradas em grupos de recrutamento)
b) “Os dispensados da avaliação científico-pedagógica ” e exclusivamente avaliados pelo órgão da direcção executiva (art. 10º e 11º ,nº 3):
- Professores coordenadores de departamento,
- Professores titulares avaliadores de docentes,
- Professores não titulares, nomeados em comissão de serviço como titulares para exercício da avaliação de docentes,
- Professores dos Conselhos Executivos com funções lectivas (que podem ou não ser titulares)
c) Os também “dispensados da avaliação científico - pedagógica” e igualmente avaliados pelo órgão da direcção executiva mas que, ao contrário de todos os restantes, para poderem concorrer às vagas de Muito Bom e Excelente serão (e apenas estes) obrigados à avaliação científico-pedagógica que terão que requerer (nº2 , art.3º do decreto regulamentar nº 1 - A/2009 e não abrangidos pelos art. 10º e 11º, nº3)
- Professores titulares que não avaliem outros docentes,
- Professores não titulares
- Professores contratados
5 - secundariza totalmente a função primária do professor, remetendo-a para segundo plano, ao considerar que só aqueles que desejem ser classificados com Muito Bom ou Excelente requeiram a observação de aulas; esquece que o brio profissional dos professores os leva a procurar a excelência, o que faria com que todos exigissem aulas assistidas, já que como afirmou o Sr. Secretário de Estado Jorge Pedreira, os professores são como os ratos, pois a eles adapta-se o provérbio chinês: «Quando se dá uma bolacha a um rato, a seguir ele quer um copo de leite»,
6 - ao dispensar a maioria dos professores da sua avaliação científico-pedagógica e ao dar a possibilidade aos não dispensados de não requererem (de uma obrigação passou-se à necessidade de um requerimento (?!) e a ter que se escolher se são duas se três?!)) aulas assistidas, desde que se contentem com uma avaliação de Bom, remete a totalidade da avaliação dos professores para um único avaliador - o Presidente do Conselho Executivo;
7 - ao remeter a avaliação para o Presidente do Conselho Executivo, a avaliação que este decreto regulamentar enquadra passou a reduzir-se apenas ao aferir de questões organizacionais e ao cumprimento de conteúdos funcionais inerentes à componente não lectiva, continuando a utilizar, para o efeito, medidas equacionadas em função de conceitos, extremamente subjectivos, tais como empenho, disponibilidade, …;
8 - faz depender a avaliação dos Presidentes dos Conselhos Executivos de quem exerce um cargo de nomeação política, tentando colocá-los numa situação de incompatibilidade entre quem os elegeu e a tutela, ao pressioná-los através desse tipo de avaliação; a avaliação das escolas e consequentemente dos seus actores depende da Inspecção Geral de Educação e o acompanhamento global do processo de avaliação dos professores da I.G.E. em articulação com o Conselho Científico (DL 15/2007)
Tendo analisado o referido diploma, os professores deste agrupamento reiteram a sua decisão de manter a suspensão de todos os procedimentos relativos à implementação do modelo de avaliação preconizado tendo em conta que as alterações propostas em nada modificaram o modelo.
Os Professores do Agrupamento de Escolas Carnaxide – Portela continuam a advogar:
1 - um modelo de avaliação consistente, que seja formativo e não punitivo, que motive os professores, valorize a qualidade do seu trabalho e o prestígio da escola pública;
2 - um modelo de avaliação que seja resultante de um amplo debate nacional entre professores, seus legítimos representantes e a tutela;
3 - um modelo de avaliação sujeito a experimentação e validação antes de ser generalizado;
Por tudo o que ficou expresso e pelo muito que ainda se poderia dizer, os professores deste agrupamento consideram da máxima importância:
· a revogação do Decreto Regulamentar n.º 2/2008, de 10 de Janeiro, tornado “simplex” pelo Decreto Regulamentar n.º 1-A/2009 de 5 de Janeiro, dando lugar à introdução de um modelo que seja realmente capaz de avaliar o desempenho dos docentes, pelo reconhecimento da especificidade dos seus conteúdos funcionais e pelo contexto em que se desenvolvem;
· a revisão do Decreto-Lei nº 15/2007, de 19 de Janeiro, nomeadamente nos articulados que se referem à divisão da carreira em professores e professores titulares, à avaliação de desempenho e às quotas para as classificações dela decorrentes ( e neste ponto, por se tratar também de uma avaliação sem sentido, a abolição da prova de ingresso);
· a revisão da Lei n.º 3/2008 de 18 de Janeiro, no que se refere aos efeitos maquiavélicos resultantes da falta de assiduidade;
· a revogação do Decreto-Lei nº 75-2008 de 20 de Abril que transporta em si articulados que vão agravar ainda mais uma possível má implementação dos diplomas citados anteriormente e para os quais também se pede a revogação ou a revisão.
· um diploma de concursos justo e digno
Os professores deste agrupamento repudiam, também, a sistemática falta de respeito demonstrada por esta classe profissional, quer no tratamento com que é brindada em qualquer entrevista dada pelos elementos da tutela, quer nas negociações sobre os diversos itens, quer ainda pela chantagem e ameaças feitas através dos Órgãos de Comunicação Social, situações que em muito têm contribuído tanto para o mal estar sentido pelos professores, como para o desinteresse e indisciplina manifestados pelos alunos.
Convictos, que desta forma, contribuem para a dignificação de uma vocação, a melhoria do trabalho dos docentes, das aprendizagens dos alunos e da qualidade do serviço público de educação.
Agrupamento....
Os signatários
Discurso da tomada de posse do director da Escola Secundária de Paredes
1. Os estudantes reclamaram, na semana passada, a demissão da Senhora Ministra da Educação, protestando contra a figura do director de escola.
Nas duas marchas da indignação, em Lisboa, onde estive presente, 120 000 professores aprovaram moções rejeitando a figura do director de escola.
A Plataforma Sindical dos professores chama comissários políticos aos futuros directores de escola.
Os jornais falam, no mesmo parágrafo, do guloso suplemento remuneratório dos directores de escola e do prato de lentilhas que Jacob vendeu a Esaú.
Compreendam, pois, que eu não deva nem queira permanecer em silêncio, nesta sessão de tomada de posse como director da escola secundária de Paredes.
2. Nós, os membros do Conselho Executivo que hoje cessa funções, tomámos posse no dia 9 de Junho de 2005. Completámos os 3 anos de mandato, portanto, no passado dia 9 de Junho de 2008, dia em que a legitimidade democrática de que estávamos investidos foi substituída por uma espécie de unção administrativa, que tolhe e embaraça quem desconfia da santidade dos óleos da tutela.
Solicitámos por isso ao Senhor Presidente da Assembleia de Escola que, à medida da lei, desencadeasse com urgência o processo de eleição do director.
Mandava a prudência que eu não me tivesse apresentado como candidato a director. Lembre-se o Verão quente de 2005, marcado por uma inédita, e, à época, abusiva, requisição civil dos professores vigilantes dos exames nacionais. Lembre-se a duplicação do horário de trabalho dos professores mais velhos. Lembre-se a reforma fruste da educação, que todos conhecemos, contestada nas manifestações gigantescas de Lisboa e nas duas greves que paralisaram a escola.
Vacilei, contudo, na virtude cardeal, quando deixaram em cima da minha secretária de trabalho um rol de folhas assinadas pela esmagadora maioria dos professores e funcionários da escola, a solicitar que me candidatasse ao cargo de director. Como já tinha vacilado naquele Março marçagão, com cheiro de Abril, enquanto descia pela avenida da Liberdade, respirando o ar puro da solidariedade, bem longe da abafação que se vivia na escola.
3. A verdade é que este não é um tempo para faltas, omissões ou cobardias. Basta os que – porque estão doentes ou porque estão velhos – já solicitaram a sua resignação, aliás, justa e merecida.
Por mim
Não me conformo com a falta de autonomia da escola pública e com esta tradição secular de obediência submissa que faz vergar os joelhos e perder altura; Não me conformo com os discursos macios que querem encher a escola de objectividade, de mensurabilidade e de constrangimento; Não me conformo com os programas disciplinares mal feitos e com as disciplinas que são só áreas curriculares e não têm programas; Não me conformo com a concorrência desleal dos cursos por equivalências ou por competências, que se concluem num par de semanas; Não me conformo com o número esmagador de 17 disciplinas dos alunos do ensino básico; Não me conformo com uma escola de falsas ilusões que não promove a cultura, nem o método, nem o rigor, nem a exigência, nem a disciplina, nem o trabalho; Não me conformo com as actividades de recreio que infantilizam os alunos, confundem os pais e diminuem os professores, e são desonestamente conhecidas como aulas de substituição; Não me conformo com a lei do subsídio que distingue os alunos à porta da cantina pela cor do bilhete que exibem; Não me conformo com o estatuto do aluno nem com direitos associativos e reivindicativos de crianças com 10 anos de idade; Não me conformo com a maré viva de dinheiro arrastado pelo ensino profissional a troco de aprendizes incompetentes e de estatísticas balofas; Não me conformo com um sistema competitivo perverso de acesso ao ensino superior que distribui de forma igual a angústia pelos filhos e pelos pais; Não me conformo com a avaliação do desempenho dos professores porque abjuro a avaliação do desempenho dos pais; Não me conformo com o estatuto da carreira docente que separa, divide e afronta os professores; Não me conformo com os pais que não reconhecem o trabalho supletivo excepcional da maioria dos directores de turma; Não me conformo com o vencimento ofensivo que o Estado paga aos funcionários administrativos e aos auxiliares educativos; Não me conformo com a quota de 5% de excelentes na avaliação anual dos funcionários nem com os efeitos práticos dessa avaliação – um aumento líquido de 17 euros para 3 anos consecutivos de classificação excelente; Não me conformo com um sindicato manso que não reage à despromoção do vínculo laboral dos funcionários públicos que perderam no dia 1 de Janeiro de 2009 a nomeação definitiva que os ligava ao Estado; Não me conformo com a falta de qualidade dos transportes escolares; Não me conformo com o frio regelado das nossas salas de aulas; Não me conformo com uma escola sem balneários individuais que protejam a intimidade dos alunos; Não me conformo com uma escola sem posto médico e com quartos-de-banho medievais; Não me conformo com a falta de condições de trabalho dos professores; Mas também não me conformo com a requalificação escolar, se o preço a pagar for o do ajuste directo até 1 milhão de contos; Não me conformo com a escola a tempo inteiro – espécie de entidade adoptante afectiva que absorve o tempo e o direito dos pais a estarem com os filhos; Não me conformo com o fim da gestão democrática das escolas e deixo aqui o compromisso público de renunciar ao lugar de director da escola se a maioria dos professores reclamar um exercício incompetente. Não me conformo com o dia do prémio do diploma porque a escola não presta tributo ao dinheiro mas aos anjos da catedral de Chartres; Finalmente, não me conformo com a avaliação dos professores porque depende de um “perfil ideal de aluno” e eu acredito que a liberdade tem asas de oiro.
4. Reforço a preferência, já manifestada em outro lugar, pela subjectividadeão em vez da objectividade, pela conversação em vez da comensuração e pela persuasão em vez do constrangimento.
É urgente tomar o espaço de intervenção. O núcleo da questão é, claro, a autonomia da escola. Está visto que o caminho a percorrer não pode ser apenas o da auto-avaliação e o da avaliação externa – caminho que, à sombra da política real, apenas valida o príncipe de Salina; é necessário mudar mais do que uns fragmentos, e escolher novos parceiros para o caminho – necessariamente os pais e a autarquia.
O sentido só pode ser o da crença na comunidade educativa local inscrita na matriz anglo-saxónica do associativismo. O que se propõe é aceitar o desafio que o futuro próximo há-de trazer, o de desligar a escola do poder central e vinculá-la ao poder local. Fora deste caminho, a escola pública irá transformar-se lentamente na escola daqueles que estão fora do arco social; os outros, como já está a acontecer, rumarão para as escolas particulares.
Uma última palavra de enorme satisfação para dizer que os professores João Ribeiro, Paula Costa e Marília Gomes aceitaram fazer parte da próxima direcção executiva da escola.
Queria também reconhecer publicamente, à professora Maria Manuel Fernandes, o serviço prestado à escola e a dedicação carinhosa e permanente aos alunos, principalmente àqueles que mais precisavam – os do regime educativo especial.
5. Por singular coincidência esta cerimónia coincide com a tomada de posse do presidente dos Estados Unidos. Faço aqui o voto de que alguma da chuva de esperança que parece abençoar o novo presidente possa cair também na nossa escola.
Muito obrigado.
Francisco Queirós
Director da Escola Secundária de Paredes
Nota: conheço o Francisco. Sei bem que a este discurso correspondem acções consequentes. Só lhe posso desejar as maiores felicidades nestes tempos de obscurantismo(s).
Em texto directo, em anexo e também em www.radiopax.com
Mais papistas…
Não posso começar esta crónica sem uma saudação muito especial aos mais de cem mil professores que ontem estiveram em greve. Duas paralisações na casa dos 90%, no espaço de um mês e meio, é um facto sem paralelo no sindicalismo português, antes ou depois do 25 de Abril. A actual luta dos professores constitui aliás um movimento social inédito no nosso país, que extravasa muito as fronteiras do sindicalismo. Desde logo porque nasceu nas próprias escolas, como resposta genuína à prepotência e ao autoritarismo da equipa ministerial teimosamente apoiada por José Sócrates. A contestação generalizada a este modelo de avaliação anti-pedagógico surpreendeu os próprios sindicatos que assinaram o polémico Acordo com o ME, em Abril de 2008.
Mas as causas e consequências dos protestos dos professores vão muito para além da avaliação, do estatuto que separou artificialmente a carreira entre titulares e não-titulares e dum modelo de gestão anti-democrático que pretende, de algum modo, restaurar a bafienta figura do "senhor reitor". A luta não ficou confinada nas escolas, ganhou o espaço público e protagonizou, em pouco mais de meio ano, duas das maiores manifestações de sempre em Portugal, com 100 e 120 mil participantes, seguramente as únicas que conseguiram trazer à rua a maioria qualificadíssima de uma só classe profissional. Tudo isto apesar da chantagem, das ameaças e dos cantos de sereia. É obra!
As repercussões sociais e políticas deste movimento ainda nos escapam. Mas, justamente por ele se situar no coração do sistema educativo, por ter envolvido pais, alunos e toda a sociedade, o mínimo que se pode dizer é que estamos a assistir a uma aula magistral de educação cívica. Os direitos e a dignidade profissional dos professores não cederam a ameaças nem estão à venda perante recuos "simplex" que apenas confirmam a falta credibilidade de um modelo de avaliação mal copiado de paragens longínquas e que já nem é levado a sério pelos seus promotores.
Perante esta afirmação de dignidade profissional e cívica de que se orgulha legitimamente a classe docente, destoa o clima de intimidação e as pressões intoleráveis exercidas sobre os professores de duas escolas da cidade de Beja – a Mário Beirão e a D. Manuel I – por sinal, tive o gosto de ser professor, delegado e dirigente sindical nestas duas escolas, na já longínqua década de 80. Não posso pois calar a indignação perante o que se tem passado, em particular na Secundária D. Manuel I, a nossa velhinha Escola Industrial e Comercial de Beja.
Mais de 90 dos 114 professores desta Escola pediram, no final do primeiro período lectivo, a suspensão de avaliação, depois da greve a que aderiram cerca de 80 docentes. Já em Janeiro, na sequência do Dia de Reflexão, mais de 70 subscritores solicitaram a convocação de uma Reunião Geral de Professores, ao abrigo do Artigo 497 da Lei 99/2003 – vulgo Código do Trabalho. Espantosa foi a reacção dos órgãos de gestão da Escola: esta reunião seria ilegal à face a um regulamento recentemente imposto à função pública – como se os funcionários do Estado pudessem ver os seus direitos diminuídos face à lei geral e, sobretudo, face á Constituição da República Portuguesa que consagra o direito de reunião no seu Artigo 45.
Pior: além de "não autorizar" uma reunião que apenas tinha de ser comunicada e nem carece de autorização, o órgão de gestão da Escola marcou ele próprio, para o mesmo dia e a mesma hora, uma reunião, com um ponto único: "Esclarecimento de dúvidas concretas em relação ao processo de avaliação de desempenho na forma simplificada". E impõe logo uma metodologia: "as questões serão respondidas por ordem de inscrição pelos elementos do CCAD, partindo-se do princípio que os docentes consultaram os sites do ministério relativos à legislação". Ou seja: temos uma sessão de explicações aos meninos que ainda não apreenderam a excelência deste modelo de avaliação! Às vezes dá-me uma saudade de voltar á Escola… Ah! E se me perguntarem quem é que me contou tudo isto, como agora está na moda, aprendi há muitos anos que não se fala, nem na PIDE.
Alberto Matos – Crónica semanal na Rádio Pax – 20/01/2009
19.01.2009 - 08h42 Bárbara Wong
É por causa dos seus livros que Alice Vieira é convidada para ir às escolas. Há 30 anos, falava de “Rosa, minha irmã Rosa” aos alunos dos 3.º e 4.º anos, hoje fala sobre o mesmo livro aos estudantes dos 7.º e 8.º.
“Alguma coisa está mal”A escritora Alice Vieira começa por dizer que de educação percebe pouco. “Nunca fui professora na minha vida!”, justifica. Mas há três décadas que anda pelas escolas e observa o que se passa no mundo da educação. O retrato que faz, reconhece ser “assustador”: professores com fraca formação, alunos que não compreendem o que aprendem. Defende mais disciplina e mais autoridade para a escola. Quanto à luta dos docentes confessa, bem disposta: “Saúde e Educação seriam os ministérios que nunca aceitaria!”.
Teme que se a contestação continuar o ano lectivo possa estar perdido?
Esta é a segunda greve de professores, este ano lectivo. Em que é que estas acções influenciam a qualidade da escola pública?Os professores têm um calão muito próprio e gostava que um professor e a senhora ministra da Educação se sentassem e me explicassem o que é que é a avaliação? O que é que os professores têm que fazer? Para eu perceber! Os professores dizem que têm muitas fichas para preencher. Que tipo de fichas? O que é que a ministra quer fazer com aquilo?
Sente que a opinião pública tem as mesmas dificuldades em compreender o que se passa?
A maior parte não compreende e os professores queixam-se disso mesmo. Eu não quero acreditar que o que se passa é como aquela anedota, em que “todos vão com o passo errado e só o meu filho é que vai no passo certo”. O descontentamento é geral e quando 140 mil professores vêm para a rua, é óbvio que devem ter razão, mas não têm toda. A ideia que tenho, desde o princípio é de que a ministra tem razão em querer que os professores sejam avaliados, mas ela não sabe transmitir o que quer.
Isso reflecte-se no modo como as negociações têm sido conduzidas?
Sim, é visível nos vai-e-vem. Agora avalia-se assim e depois já é de outra maneira... As pessoas não sabem muito bem o que é ou não é. A ideia que passa é que os professores não querem trabalhar, que não querem ser avaliados e é fácil veicular essa ideia porque os professores são um grupo complicado. Porquê?Porque chegam a uma certa altura da carreira, têm os seus direitos adquiridos e é mais difícil aceitar outras coisas.
Chega-se a uma altura em que as pessoas estão cansadas.Sente isso nas escolas aonde vai?
A primeira coisa que ouço dizer é: “Estou cansada”, “vou-me reformar”, “estou farta disto”, “não me pagam para isto”... É só o que eu ouço.
Mas sempre ouviu esses lamentos ou agudizaram-se nos últimos anos?
Há 30 anos que vou às escolas e ouço-o agora. As leis são iguais para todos, mas há escolas onde dá gosto ver o trabalho que os professores fazem, que estão motivados e a ministra é a mesma! Não é a totalidade das escolas, mas sobretudo nas mais afastadas, nas do interior, encontro gente motivada e a fazer bons trabalhos. Essas escolas nem vêm no ranking das melhores. Também vou a privadas, ligadas à Igreja Católica, às vezes converso com professoras minhas amigas e conto-lhes: “Os alunos entram em fila, ou levantam-se quando eu entro, não fazem barulho...”. E respondem-me: “Está bem, mas isso é nessas escolas”. E eu pergunto: “Mas se está bem para essas escolas, porque é que não está para as outras?!”
A escola pública está a perder qualidade?
Há um desinteresse, um cansaço e depois há o problema da formação. Eu não quero generalizar, mas esta gente mais nova... Qual é a preparação que tem? Converso com professores e é um susto, desde a língua portuguesa tratada de uma maneira desgraçada, até ao desconhecimento de autores que deviam ter a obrigação de conhecer... Sabem muito bem o eduquês, mas passar além disso, é difícil. Muitos professores com que lido têm uma formação muito, muito, muito deficiente. Eles fazem com cada erro, que eu fico doida! E não só falam mal como se queixam diante dos miúdos. Podem dizer mal entre eles, mas não diante dos alunos, que depois reproduzem e a balda vai ser completa. A responsabilização dos professores é fraca, eles não são muito seguros e os alunos sentem que os professores não são seguros.
E por isso há atitudes de indisciplina e de violência?
Por exemplo, as manifestações dos miúdos também me perturbam um bocadinho, porque eles não sabem o que andam ali a fazer. Os miúdos devem aprender a falar bem, para saber reclamar, reivindicar, é uma questão de educação.
Mas nesse caso a culpa não é da escola, pois não?
Também é. Os professores queixam-se muito que têm de ser pai, mãe, assistente social, educadores... Pois têm! Porque a vida dos miúdos é na escola. Em casa não lhes dão as mínimas noções de educação, o simples “obrigada, se faz favor, desculpe”. Quando os alunos vêem os professores na rua, a berrar e a gritar, o que é que eles pensam? Os alunos manifestam-se para exigir melhor ensino? Não. Não os vejo preocupados porque os professores os ensinam mal.
Com alunos e professores na rua, o ano lectivo está perdido?
Não me parece que esteja perdido, se houver bom senso. Não se pode estar a brincar. As pessoas não entendem muito bem que o maior investimento que podem fazer é na educação. Se não tivermos gente educada, a saber, capaz, o que é que vai ser de nós? Estamos a fazer uma geração que não se interessa, não sabe nada, mas berra e grita. E isso perturba-me.
Volto a perguntar, a educação está a perder qualidade?
Eu comecei a ir às escolas há 30 anos, para apresentar o meu primeiro livro “Rosa, minha irmã Rosa” e ía falar com os alunos de 3.º e 4.º anos. Agora vou, exactamente com o mesmo livro falar a alunos dos 7.º e 8.º anos. Alguma coisa está mal. É assustador! Outra coisa assustadora é a utilização da Internet.
Não concorda com o acesso dos mais novos às novas tecnologias?
Estamos a queimar etapas, a atirar computadores para os colos dos miúdos quando não sabem ler nem escrever. Só devia chegar quando tivessem o domínio da língua e da escrita.
E os mais velhos?
Os mais velhos, não sabem utilizar a Internet, não sabem pesquisar, eles clicam, copiam e assinam por baixo. Eu chego a uma escola, vou ver e fizeram 50 trabalhos sobre um livro meu, todos iguais, com os mesmos erros e tudo, porque descarregam da Internet. Pergunto aos professores e respondem-me: “Mas eles tiveram tanto trabalho a procurar...” O professor tem que ensinar a pesquisar. Às vezes, estou a falar com os alunos e tenho a sensação nítida de que não estão a perceber nada do que eu estou a dizer.
Essa sensação é generalizada?
No geral, as crianças têm muitas, muitas dificuldades. E os professores, logo à partida, têm medo que os alunos se cansem e nem tentam! “O quê? Dar isso? Eles não gostam, cansam-se”. Há um medo de cansar os meninos. Desde 1974 que os alunos têm sido muito cobaias da educação. E os professores e os alunos não sabem muito bem o que é que andam a fazer... Aconteceu uma coisa terrível é que tudo tem que ser divertido. Há duas palavras que me põem fora de mim: moderno e lúdico! Tudo tem que ser lúdico, tem de ser divertido, nada pode dar trabalho. Não pode ser!
É preciso mudar a mensagem?
Quando vou às escolas esforço-me imenso por transmitir aos alunos que as coisas dão trabalho. E eles olham para mim como se fosse uma coisa terrível. Há muitas maneiras de se abordar as coisas, mas se os próprios professores passam a mensagem de não querer ter trabalho... Quando vou ao estrangeiro, vejo os professores e penso “se fosse em Portugal, não era assim”. Eles fazem o que for preciso fazer. Cá dizem que não é da sua competência... Isso é complicado.
Disse que as escolas do interior são diferentes das de Lisboa. Essas diferenças não se devem aos públicos que cada escola acolhe?
Sim, os miúdos de Lisboa têm mais solicitações, ao passo que para os de Trás-os-Montes, a ida de um escritor à escola é uma festa! Em Lisboa já não há lisboetas, há miúdos de todas as terras, de todos os países...
E porque é que os miúdos da Europa de Leste se destacam nas escolas?
Porque vêm de culturas de trabalho e, desde cedo, ouvem dizer que têm quee trabalhar. Com a democracia, as portas abriram-se, a escola deixou de ser de elite e estão todos na escola. Ainda bem! Mas os professores não estavam preparados para isso e admito que é difícil.
Falta-lhes formação?
Eu gostava de saber onde é que os professores são formados! Mas tendo alunos tão diferentes é necessário fazer formação. Porque, coitados dos professores, são deitados às feras!
Como se chega aos alunos?
Muitas vezes, olho para eles e vejo que não estão a ouvir nada. E eu apanho o melhor da escola, a parte boa, não tenho um programa para dar. Agora, quem está todos os dias na escola, compreendo que seja um stress terrível. A educação é daquelas matérias em que, se calhar, são precisas medidas impopulares, mas necessárias. Na educação nunca se fez um salto, que é necessário, nunca houve um ministro de quem se diga “fez”.
É precisa mais disciplina?
É preciso mais autoridade, o professor não pode fazer nada, não tem autoridade nenhuma. A solução passa por mais interesse e mais disciplina. O gosto pelo que se faz. E o professor tem que sentir esse gosto e passar aos miúdos. A profissão é de risco, de missionário e não de funcionário público na acepção pejorativa da palavra. Não é uma profissão como as outras e não é seguramente a de preencher impressos...Como é exigido na avaliação?Voltamos à avaliação! Ela é necessária, todos nós devemos ser avaliados, mas não pelo parceiro do lado ou pelo filho do patrão! Não faço ideia de como é que se avalia, mas na educação existe gente competente, que estudou, e devia ser chamada para dizer como avaliar. Não concordo que sejam avaliados entre eles. Não se pode ser irredutível, quer dum lado [professores] quer do outro [ministério]. As manifestações, no momento a que se chegou, não levam a nada, já vimos que agita, mas não levam a nada.
Parece-lhe que o conflito entre ministério e professores não tem fim à vista?
Os professores estão cansados, o que também é mau, porque aceitar uma situação só porque já se está cansado não é bom. Tem de haver uma solução, senão o ano lectivo perde-se e o culpado não será só um.
Lídia Jorge - Público - 2009.01.09
A titularidade foi dada a professores bons, excelentes, maus e muito maus. Não premiou nada, porque baralhou tudo.
1.Ficarão por muito tempo célebres os braços-de-ferro que Margaret Thatcher manteve com os sindicatos do Reino Unido, como conseguiu vencê-los, e como à medida que os humilhava, mais ia ganhando o eleitorado do seu país. Na altura a primeira-ministra britânica era a voz da modernidade liberal, criou discípulos por toda parte, e ainda hoje, apesar do negrume da sua era, há quem se refira à sua coragem como protótipo da determinação governativa. Mas neste diferendo que opõe professores e Governo, está enganado quem associa o seu perfil ao de Maria de Lurdes Rodrigues. Se alguma associação deve ser feita - e só no plano da determinação -, é bom que o faça directamente com a pessoa do primeiro-ministro.De facto, a equipa deste Ministério da Educação tem-se mantido coesa, iniciou reformas aguardadas há décadas, soube transferir para o plano da realidade as mudanças que em António Guterres foram enunciadas como paixão, conseguiu que o país discutisse a instrução como assunto de primeira grandeza, fez habitar as escolas a tempo inteiro, fez ver aos professores que o magistério não era mais uma profissão de part-time, arrancou crianças de espaços pedagógicos inóspitos, e muitos de nós pensámos que a escola portuguesa ia partir na direcção certa. Quando José Sócrates saía com todos os ministros para a rua, nos inícios dos anos lectivos, via-se nesse gesto uma determinação reformista que augurava um caminho de rigor. Não admira que o primeiro-ministro várias vezes tenha falado do óbvio - que era necessário determinar quem eram, na escola portuguesa, os professores de excelência. Era preciso identificá-los, promovê-los, responsabilizá-los, outorgar-lhes credenciais de liderança. Era fundamental que se procedesse à sua escolha. Mas a sua equipa legislou sobre o assunto e infelizmente errou.
2.Errou ao criar, de um momento para o outro, duas categorias distintas, quando a escola portuguesa não se encontrava preparada para uma diferenciação dual. A escola portuguesa tinha o defeito de não diferenciar, mas tinha a virtude de cooperar. O prestígio do professor junto dos alunos e dos colegas não era contabilizado, mas era a medida da sua avaliação. Pode dizer-se que era uma escola artesanal que necessitava de uma outra sofisticação. Mas, para se proceder a essa modificação com êxito, era preciso compreender os mecanismos que a sustentavam há décadas, e tomar cuidado em não humilhar uma classe deprimida, a sofrer dia a dia o efeito de uma erosão educacional que se faz sentir à escala global. Só que em vez da aplicação cuidadosa e gradual de um processo de mudança, a equipa do Ministério da Educação resolveu criar um quadro de professores titulares, a esmo, à força e à pressa. No afã de encontrar a excelência, em vez de se aplicar critérios de escolha pedagógica e científica, aplicaram-se critérios administrativos, de tal modo aleatórios que deixaram de fora grande percentagem de professores excelentes, muitas vezes os responsáveis directos pelo êxito pedagógico das escolas.O alvoroço que essa busca de um quadro de excelência criou está longe de ser descrito devidamente. Basta visitar algumas escolas para se perceber como a titularidade está distribuída a professores bons, excelentes, mas também a maus e muito maus, e foi negada a professores competentes. Isto é, criou-se um esquema que não premiou nada, porque baralhou tudo. Os erros foram detectados por muita gente de boa fé, em devido tempo, mas o processo avançou, a justiça não foi reposta, nem sequer a nível da retórica política. Pelo contrário, aquilo que a razão mostrava à evidência foi sendo desmentido, adiado, ridicularizado, ou desviado para o campo da luta sindical dita de inspiração comunista.
3.O segundo instrumento ao serviço da excelência não teve melhor sorte. Era preciso inaugurar nas escolas uma cultura de responsabilidade que até agora fora relegada para determinismos de vária ordem, menos os estritamente pedagógicos, o que era um vício da escola portuguesa, pelo menos até à publicação dos rankings. Mas aí, de novo, a equipa do Ministério da Educação funcionou mal. Se os campos de avaliação do desempenho dos professores estão mais ou menos fixados, e começam a ser universais, os parâmetros em questão foram pensados por mentes burocráticas sem sentido da realidade, na pior deturpação que se pode imaginar em discípulos de Benjamin Bloom, porque um sistema que transforma cada profissional num polícia de todos os seus gestos, e dos gestos de todos os outros, instaura dentro de cada pessoa um huis clos infernal de olhares paralisantes. Ninguém melhor do que os professores sabe como a avaliação é um logro sempre que a subjectividade se transforma em numerologia. Claro que não está em causa a tentativa de quantificação, está em causa um método totalitário que se transforma num processo autofágico da actividade escolar. Aliás, só a partir da divulgação das célebres grelhas é que toda a gente passou a entender a razão da pressa na criação dos professores titulares - eles estavam destinados a ser os pilares dessa estrutura burocrática de que seriam os pivots. Isto é, quando menos se esperava, e menos falta fazia, estavam lançadas as bases para uma nova desordem na escola portuguesa. Como ultrapassá-la?
4.Não restam muitos caminhos. Ultimamente, almas de boa fé falam de cedência de parte a parte. Negociação, bondade, comissões de sábios. A questão é que não há, neste campo, nenhuma justiça salomónica a aplicar. O objecto em causa não é negociável. Tendo em conta uma erosão à vista, só a Maria de Lurdes Rodrigues, que sabe que foi longe de mais, competiria dizer "Não matem a criança, prefiro que a dêem inteira à outra", mas já se percebeu que não o vai fazer. Obcecada pela sua missão, que começou tão bem e está terminando mal, quererá ir até ao fim, mesmo que do papel dos mil quesitos que alguém engendrou para si só reste um farrapo. É pena. Depois de ter tido a capacidade de pôr em marcha uma mudança estrutural indispensável para a modernização do ensino, acabou por não ser capaz de ultrapassar o desprezo que desde o início mostrava ter em relação aos professores. E, no entanto, numa política de rosto humano, seria justo voltar atrás, reparar os estragos, admitir o erro sem perder a face. Ou simplesmente passar o mandato a outros que possam reiniciar um novo processo.De facto, em Portugal existem vários vícios na ascensão ao poder. Um deles consiste em não se saber entrar no poder. Pessoas sem perfil técnico, ou humano, aceitam desempenhar cargos para os quais não foram talhados. Parece que toda a gente gosta de um dia dizer ao telefone, no telejornal, "Papá, sou ministro!", com o resultado que se conhece. Outro é não se saber sair do poder. Houve um tempo em que Mário Soares ensinou ao país como os políticos saem no tempo certo, para retomarem, quando voltam a ser úteis. Os grandes políticos conhecem a lei do pousio. E o objecto da disputa deve ser sempre mais alto do que a própria disputa. É por isso estranho e desmedido o que está a acontecer.
5.José Sócrates deverá estar a pensar que pode ter pela frente um golpe de sorte - Margaret Thatcher teve a guerra das Falklands - e até pode vir a ter uma maioria absoluta outra vez. Aliás, pelo que se ouve e vê, a frase da ministra da Educação "Perco os professores mas ganho o país", cria efeitos de grande admiração junto duma população ansiosa por ver braços-de-ferro no ar, sobretudo se eles vierem do corpo de uma mulher. Não falta quem faça declarações de admiração à sua coragem, como se a coragem prescindisse da razoabilidade. E até é bem possível que a Plataforma Sindical um dia destes saia sorridente da 5 de Outubro com um acordo qualquer debaixo do braço, como já aconteceu.Mas a verdade é que, a insistir-se neste plano, despropositado, está-se a fomentar uma cadeia de injustiças e inoperâncias que só a alternância democrática poderá apagar. Se José Sócrates pediu boas soluções e lhe ofereceram estas, foi enganado, e deveria repensar nos seus contratos. Mas se ele mesmo acredita neste processo kafkiano, é uma desilusão, sobretudo para os que confiaram na sua capacidade de ajudar o país a mudar. Neste momento, entre nós, a educação tornou-se uma fábula.