01/11/2008

Temos problemas de classe para resolver, ou não?


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(Foto: Filipe Caetano, PortugalDiario.pt)
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Porque não nos questionamos todos sobre as culpas que temos no cartório?!

Os sindicatos assinaram o memorando? Assinaram! Não concordei com parte desse acordo? Não concordei! Mas compreendo a posição dos sindicatos.

Há muita gente desiludida com a actividade sindical? Há!

Mas onde estão as pessoas quando os sindicatos precisam de uma rectaguarda de apoio? Onde estão as pessoas quando eles precisam que as suas posições tenham a força dada pela nossa força?
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Elegemos os órgãos sindicais ou tornamo-nos sócios dos sindicatos, como o fazemos em relação às Associações Profissionais, e depois esperamos que nos resolvam os problemas todos sem nos lembrarmos de lhes dar apoio, de participar por dentro com a nossa opinião e a nossa força. A maioria nem sequer participa nas reuniões sindicais na sua escola, nem emite qualquer opinião até se sentir prejudicado... e, nesta altura, apenas parte para a crítica "externa", do "não nos ligam nenhuma", do não fazem nada". Normalmente, só se manifesta quando o problema é pessoal. Todos os problemas relativos aos diversos sectores da classe são sistematicamente esquecidos por quem os já tem resolvidos. Não há uma consciência de classe. Não há um apoio a lutas que não digam respeito ao próprio.
O problema é que, tal como em altura de tempestades, só nos lembramos de Santa Bárbara quando há trovões. Só nos lembramos dos sindicatos em momentos de crise. Durante o resto do tempo abandonamo-los à sua sorte, não lhes damos apoio, deixamo-los decidir sozinhos. Isso aconteceu nos últimos anos. Houve um ligeiro tempo de bonança em que não fomos grandemente atacados, grandemente prejudicados… acomodámo-nos e deixámos os sindicatos sozinhos… também um pouco acomodados pela falta de grandes lutas, diga-se em abono da verdade…. Quando, de repente, chegou a crise, iniciada com o concurso de 2004, aqui d`el rei, “os sindicatos não fizeram, os sindicatos não aconteceram…
Os sindicatos somos nós … mas nunca dizemos “nós não fizemos, nós não acontecemos”. Depois queixamo-nos deles porque se sentiram sozinhos e agiram quase sozinhos, porque tentaram mobilizar-nos mas nós estávamos amuados e fizemos beicinho e dissemos “agora não brincamos”. Pois é … talvez nos falte a todos uma consciência política, uma consciência de classe, uma consciência de direitos, uma consciência dos deveres que temos para connosco enquanto profissionais. Sim, porque ser profissional não é, apenas, exercer a profissão no nosso localzinho de trabalho. Ser profissional é ser crítico, é ser membro de uma classe, é lutar pela dignificação dessa classe nos seus diferentes status: social, científico, pedagógico, laboral. E essa luta não pode ser individual, já que numa luta desse tipo não se marcam muitos pontos. Os itens, que referi, constituem os pilares de uma profissão. Faltando a autenticidade de um deles que seja o estatuto do profissional fica ferido e a profissão de todos e de cada um é afectada.
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Participámos em força no 8 de Março e nas manifestações que se seguiram! Sim participámos! Mas depois?
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Cumpridos que foram o 8 de Março e as suas sequelas locais:
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- alguém se perguntou quantos professores se empenhariam numa luta que tivesse sido convocada no pós 8 de Março?
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- alguém se questionou sobre que formas de luta estariam os professores prontos para aguentar?
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- alguém contabilizou "munições in loco" para saber até onde cada colega estaria disposto a ir?
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A minha percepção é que a maioria considerou que, com a ida à manifestação, tinha completado a sua contribuição e que para a frente o caminho seriam rosas. Quando falei, a muitos, logo a seguir ao 8 de Março, em tomadas de posição, em novas formas de luta, em possíveis novas saídas para a rua, ou mesmo em greves a reacção foi a de que já tinham feito a sua obra.
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Que força de apoio teriam os sindicatos para continuar uma luta?
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Paralelamente, surgiram os movimentos. Esses movimentos são importantes? São, se souberem construir a consciência de classe, se souberem aproveitar o espaço de debate para unir, se souberem que a luta de uma classe não vive de protagonismos, nem de lutas intestinas pelo poder, se souberem compreender que, apesar da sua importância, quem negoceia, com o governo, são os sindicatos e que é necessário que a força da classe, adquirida pelos movimentos, seja capaz de falar com os sindicatos, apoiando-os e/ou mostrando-lhes no caso de estarem errados, que o que a classe quer não é o mesmo que eles querem. Não serve de nada, a ninguém, nem aos sindicatos, nem aos movimentos, nem aos professores as posições, que publicamente foram veiculadas, de atrito…, de diz que disse…, de eu sou melhor porque… Os movimentos surgiram como pontos de discussão, como pontos para dinamização de alertas, como núcleos locais para apresentação de propostas de acção/contestação, e todos os que vêem os sindicatos como o bicho papão aproveitaram para os considerar os seus defensores, nomeadamente quando aconteceu a assinatura do memorando. E gritou-se traição.
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Mais uma vez pergunto se os sindicatos tivessem “partido” para formas de luta mais “fortes” se teriam tido o apoio dos movimentos, se teriam tido o apoio dos 100.000 mil?
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Agora, surgem queixas de que os sindicatos só estão a "apanhar a onda" para não perderem a face!
No entanto, quantos os teriam apoiado se a "onda" tivesse sido provocada por eles?
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Que nos interessa de onde veio o movimento que nos vai levar à rua em defesa dos nossos direitos?
Temos problemas para resolver ou não?
Precisamos de estar todos juntos, ou não?
Não será já tempo de nos unirmos sem querermos protagonismos, sem queremos pôrmo-nos em bicos dos pés para ficar melhor na fotografia do que o vizinho?
Não será já tempo de nos deixarmos de arrastar a classe por um divisionismo que só nos trará amargos de boca?
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13 comentários:

Anónimo disse...

Maria Lisboa:

Parabéns por este seu texto e pela lucidez do seu raciocínio. Aliás, vem na linha daquilo que vou lendo, aqui e ali, escrito por si. Ponderação que vai faltando a muita gente por aí. É pena!
É tão simples manifestar opiniões sem necessidade de "gritar" nem ofender, mas infelizmente nem todos pensam assim. Quando o que está em causa é tão grave, ouvir e ler certas pessoas só prova que o "individual" está à frente do colectivo.... só pode.
Continue e divulgue as suas opiniões. Precisamos delas.
Pela minha parte, obrigada.

Maria Lisboa disse...

Obrigada, eu1

:)

Anónimo disse...

Gostei do que li. Mas...

"...seja capaz de falar com os sindicatos, apoiando-os e/ou mostrando-lhes no caso de estarem errados, que o que a classe quer não é o mesmo que eles querem."

Penso que não temos de mostrar nada aos sindicatos. Os sindicatos têm de ter consciência de que existem para nos representar, para dar força às nossas posições; não existem para terem posições que não sejam as dos professores.

AT

henrique santos disse...

Maria
mais um texto excelente que vem na continuação do que tens escrito. Um professor só adquire toda a plenitude quando, de facto, se expressa em todas as vertentes que referes. Os teus textos merecem chegar a muita gente... a muitos de nós. Vou aproveitar este teu texto, com indicação da autoria claro. Abraço e continua como sempre.

Maria Lisboa disse...

AT

Como qualquer pessoa (professor, neste caso), também os elementos dos sindicatos podem ter a sua opinião e estar convictos de que é o caminho que se propõem seguir, representando a classe é o correcto. Se não houver participação, troca de ideias, se ficarem a resolver problemas sozinhos, podem errar, como qualquer de nós o pode fazer (basta ver a diversidade de opiniões que se lêem por esses blogues fora). O que quero dizer com o "mostrar" é mesmo participar, trocar ideias, dizer o que queremos para que possam representar a classe como queremos que o façam.

Maria Lisboa disse...

Henrique,

obrigada.

Está à vontade para utilizares o que quiseres. A utilidade dos blogues e do que escrevemos aqui é precisamente essa - podermos tentar intervir no nosso destino. :)

IC disse...

Maria
Bem hajas por este texto, ele diz tudo o que estava a ser urgente dizer (a meu ver, claro).
E eu poria em letras gordas "os sindicatos somos nós", mas isso sempre foi esquecido por muitos.
Também vou pôr no meu cantinho uma adenda com o link para este teu post.

Anónimo disse...

Muitos parabéns por este belo texto e bem-haja, porque lê-lo me deu enorme prazer, quer enquanto pessoa, quer enquanto Educadora de Infância, quer enquanto dirigente sindical.
rita

Anónimo disse...

WAU, texto poderoso!!! É MESMO ISSO!!!
É hora de perceber que temos todos de apontar armas no mesmo sentido e estar dispostos a uma luta prolongada que certamente irá para além de uma, duas ou três manifs.

obrigada!!

prof disse...

É mesmo isso!Um abraço, Armanda

HzoLio disse...

maria, concordo em tudo contigo, MAS... eheheh

Como ainda te deves lembrar, apenas te toco no ponto do que sucedeu no concurso de 2006/2007 e da resposta, generalizada, que recebi dos sindicatos...

Como tu sabes eu não 'lhes' estava a pedir nada, estava sim a disponibilizar-lhes o resultado de muitas horas de trabalho na caça dos erros do concurso, e como brincámos na altura, a todo e qualquer contacto telefónico, recebia a pergunta para 10.000€ "É associado?!"...

Para não me alargar muito, depois falamos da forma como foi (ou ainda está a ser) desenvolvido o processo de recolha de assinaturas para a moção de suspensão da ADD no 'meu' agrupamento... Só para te deixar com água na boca, é de ir às lágrimas!!!

Jinhos ;)

Anónimo disse...

A solução para o impasse que se chegou na questão da avaliação de professores está no modelo simplificado que se usou para, no último ano lectivo, avaliar os professores contratados. Generalize-se o modelo simplificado de avaliação a todos os professores durante este ano lectivo e, durante este tempo, resolva-se e melhore-se o sistema que se quer por definitivo. É uma saída airosa para todos e, acima de tudo, beneficia as escolas e o país.

Anónimo disse...

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