08/11/2007

Também temos que a culpar!

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EDUCAR É CONTRARIAR
Maria José Nogueira Pinto
jurista
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Esta fórmula simples era usada pela minha tia e provocava-nos, a nós crianças, os piores sentimentos. Já o povo dizia que de pequenino se torce o pepino. O tempo deu-lhes razão! Toda a polémica em torno de duas questões - o ranking das escolas e o novo regime de faltas - obriga a refrescar a memória sobre quais foram, nos últimos trinta anos, os pressupostos filosóficos do modelo educativo português.
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O primeiro e o mais nocivo é o princípio rousseauniano da criança boa, ou boazinha, ou tendencialmente boazinha. Daqui decorre a ideia peregrina de que a escola tem de ser um sítio divertido e os professores uns amigalhaços.
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O segundo princípio é o da absoluta igualdade entre todas as crianças. Se a todos devem ser dadas, igualmente, oportunidades, isso não significa que todos, igualmente, as aproveitem. Ao não se querer estabelecer diferenças, optou-se por um nivelamento medíocre, em vez de dar a mão aos mais problemáticos sem tolher os melhores.
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Durante trinta anos, diabolizaram-se os valores da autoridade, do rigor, da exigência e da disciplina. O esforço e o mérito, factores que diferenciavam os melhores dos piores, foram tidos como uma ameaça à pureza dos dogmas da bondade natural e da igualdade.
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O modelo educativo, objecto de sucessivas tentativas experimentalistas, foi-se reduzindo à mais elementar expressão: uma educação sem memória, métodos simplificados, todo o esforço removido, um excesso de especialização roubando qualquer perspectiva de conjunto, noções fragmentadas sem referência a qualquer pano de fundo. O pensar, o exercício sistemático do raciocínio, o ginasticar do cérebro como única forma de o fortalecer, tudo isso era contra-indicado: aborrecia os alunos, acentuava as diferenças, revelava o potencial e o esforço de uns e o desinteresse ou incapacidade de outros, o mérito e o demérito.
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A título exemplificativo, imaginemos como se sairia, hoje, um aluno de dez anos de idade, se submetido a provas idênticas às que enfrentámos nos exames de admissão às Escolas Técnicas e aos Liceus. Decerto não as superaria. Por ser menos inteligente? Não. Por não ter sido capacitado para tal.
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O objectivo deixou de ser o de educar e ensinar. A escola tornou-se um entreposto de todos os problemas, desde os meramente burocráticos até aos eminentemente sociais. Sobre o emaranhado legislativo, as instalações sem condições e a falta de orçamento, caíram as circunstâncias dos próprios alunos: a fragilidade das redes familiares, a solidão, os comportamentos aditivos, a pre-delinquência, o abandono.
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Politicamente, não foi relevante saber se se estava a produzir iletrados ou se muitos dos alunos faziam da escola um mero local de passagem. Politicamente, o mais importante eram as estatísticas e os indicadores. Para cumprir estes desideratos impunha-se que todas as crianças estivessem inscritas numa escola. Mesmo que a frequentassem pouco e mal.
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Comparar o ensino privado e o ensino público, hoje, é comparar o incomparável. O ensino público português formou gerações e gerações com excelente qualidade. Eu frequentei o ensino público, os meus filhos frequentaram o ensino público. Mas, actualmente, as circunstâncias específicas das escolas públicas, que não podem fechar-se à massificação, não podem selecionar os seus alunos, se desgastam a resolver problemas a jusante e a montante, não têm autonomia organizativa e reflectem as ameaças da sua envolvência externa, impedem-nas de disputar rankings.
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Tudo isto é óbvio. Desperdiçámos muito do nosso capital humano ao mergulhá-lo num caldo de cultura laxista, bacocamente tolerante e permissiva, que infantilizou as crianças e os jovens. Mudar é quase um acto revolucionário, é ontológico e do domínio da filosofia dos princípios. Não vale a pena culpar a ministra. Melhor será perceber que a educação não é um problema governamental. É, certamente, um problema nacional com culpas partilhadas. E de díficil solução.
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Sim! Maria José tem razão! Tem razão em quase tudo o que diz, incluindo a necessidade de toda a sociedade assumir como culpa sua o estado do ensino. Cultivar uma sociedade permissiva a nível de atitudes, costumes e conhecimento, passando pela exigência de um sucesso fácil não conduz de forma alguma à construção de um país que se respeite internacionalmente.
Só não lhe reconheço razão quando diz que "não vale a pena culpar a ministra". A ministra tem culpa, não apenas como elemento da sociedade, mas porque preferiu ir pelo caminho mais fácil: culpar os professores, dar razão aos alunos, desresponsabilizar ainda mais os pais e os filhos do cumprimento dos seus deveres tanto no que se refere aos comportamentos como ao estudo, estar de bem com uma opinião pública que desinformou totalmente.
A ministra tem culpa porque não analisou profundamente as razões do insucesso. A ministra tem culpa porque não quis resolver o problema do ensino, preferindo arranjar maneiras de maquilhar o insucesso e o abandono. A ministra tem culpa porque preferiu arrastar os professores pela lama, crucificando-os em nome de um sistema dos quais são apenas cumpridores, muitas vezes para além do que lhes é exigido e muitas vezes, também, contrariando normas "superiores" que impediram que o caos fosse ainda maior (e não são as suas palavras de agora, que não se reflectem nas suas acções, exprimindo a necessidade de dignificar os professores que vão limpar toda o fel que despejou sobre eles, devolvendo-lhes uma imagem que tanto se esforçou por desfazer). A ministra tem culpa porque continua a "desvalorizar" (atitude tão querida dos nossos ministros e OCS de hoje) as informações sobre a escola real preferindo trabalhar com números e estatísticas que não transmitem a realidade das escolas. A ministra tem culpa porque só quis atacar os problemas orçamentais e de estatística, mascarando isso sob a capa de uma reforma da educação. A ministra tem culpa porque não sabe nem quis saber qual é o problema real do ensino.
Sim! Ela tem culpa e muita! Tem culpa porque, tendo o poder, preferiu usá-lo de forma errada!

03/11/2007

Ministro do Trabalho e Solidariedade Social manda "recado" à Ministra da Educação?

O ministro do Trabalho e Solidariedade Social manifestou, ontem, o seu empenho no combate à concorrência desleal que faz uso do trabalho clandestino e ilegal. No encerramento de um fórum da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Lisboa, Vieira da Silva defendeu que não é possível conseguir crescimento económico sustentável sem emprego "digno".O que se designa como "trabalho digno" é, segundo a OIT, a actividade laboral desenvolvida em condições de "liberdade, equidade, segurança e dignidade humana". O ministro admitiu que existem em Portugal "alguns segmentos minoritários" que se afastam daquela definição. "Seria irresponsável dizer que não há, em Portugal, situações que não devam ser corrigidas", afirmou.
Vieira da Silva sustentou que "sem trabalho digno, as sociedades não ganham cidadãos, não ganham consumidores e os Estados não ganham capacidade de actuação e regulação para a melhoria das condições". Por este motivo, sublinhou, "perdem-se os efeitos acumuladores do crescimento económico". O ministro entende que o conceito de trabalho digno tem impacto na "sustentabilidade financeira, económica e social" dos países, incluindo nos mais desenvolvidos.

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Recordo que há centenas de professores com horários reduzidíssimos. Mas, infelizmente, não era a esse "trabalho indigno" que se referia o ministro...

21/09/2007

O novo Estatuto dos Jornalistas

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Infelizmente os OCS são, em grande parte, e nos últimos tempos, culpados do mal que lhes está a acontecer. Venderam a alma ao diabo em troca de notícias “fresquinhas”, dadas ainda antes de irem para debate ou de serem legisladas. Instituíram-se meros transmissores de vontades e poderes, ajudando a bater em quem nesse momento estava na mó de baixo e elogiando as grandes medidas que iam ser tomadas, sem tentarem ouvir o “contraditório” ou procurar informação que fundamentasse ou contrariasse as medidas em questão. Julgaram-se imprescindíveis por “comerem à mesa do Rei” e esqueceram-se de observar a realidade e perceber que tal como aos outros o tapete também lhes iria ser retirado de debaixo dos pés. A liberdade de expressão é uma das primeiras coisas a ser coarctada quando um regime ditatorial se começa a impor. Por isso fico, muito preocupada e apreensiva com a aprovação deste estatuto. Esta minha preocupação varia na razão inversa à alegria demonstrada pelos OCS relativamente à imposição no nosso estatuto e aos ataques feitos à nossa e a outras profissões, dos quais foram, simultaneamente, cúmplices e instigadores. Apesar disso, não me regozijo! Nem por eles terem que aprender à custa deles como se vive atado num molho de varas, nem pelo novo amordaçar da liberdade de expressão. (no Público de 21/09/07, Edição Impressa: “Estatuto do Jornalista volta a ser aprovado no Parlamento apenas pelo Partido Socialista”). É que depois de tudo aquilo a que temos vindo a assistir, este é, para mim, o princípio do fim de uma democracia que não soubemos assumir, nem construir. Aflige-me que continuemos, como diz Vieira da Silva “adormecidos no cais/entretidos com o medo/de já ser tarde demais//teimosamente morrendo/por detrás desta janela/a fingir que somos livres/com um cravo na lapela”. Aflige-me que cada vez mais nos viremos para o nosso umbigo, na esperança de salvar o pouco que temos, esquecendo-nos que a luta pelos nossos filhos e pelo seu futuro não passa apenas pelo “pão nosso de cada dia”. Aflige-me a ignorância de um povo que não aprendeu com a história o resultado da sua impassibilidade, da sua falta de espinha dorsal, da sua atitude de medo e subserviência, da sua postura de “alguém há-de ir à luta, que isto assim não pode ficar… eu é que não me meto nessa que se isto der para o torto, não estou para me lixar”.
O problema é que, como dizia Bretch, “agora levaram-me a mim e,/quando percebi, /já era tarde”.

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02/09/2007

Desemprego docente

No dia 3 de Setembro (segunda-feira), a FENPROF realizará em todo o País uma jornada que vai deixar na sociedade portuguesa novos alertas contra o flagelo do desemprego docente. Em Lisboa, decorrerá uma concentração a partir das 15h00, junto à Loja do Cidadão, na Praça dos Restauradores. No Porto, a acção terá lugar, a partir das 9h30, na Loja do Cidadão, nas Antas.

Esta iniciativa de âmbito nacional, durante a qual serão distribuídos comunicados à população, sublinhará a importância do combate às políticas anti-sociais que mantêm milhares de professores no desemprego, enquanto o País continua a apresentar altas e preocupantes taxas de analfabetismo, de insucesso escolar e de abandono precoce da Escola. Ao mesmo tempo que dezenas de milhar de crianças com necessidades educativas especiais integram turmas superlotadas e sem qualquer tipo de apoio, como a FENPROF tem alertado desde a primeira hora.

A jornada de 3 de Setembro, que incluirá depoimentos de professores desempregados, terá outras concentrações, nomeadamente junto aos Centros de Emprego de Aveiro (10h00) e de Castelo Branco, Coimbra (Fernão de Magalhães), Guarda e Leiria, às 9h30.

Em Viseu a acção decorrerá junto ao Instituto de Emprego (frente ao Fórum Viseu), a partir das 9h30 e em Santarém junto ao C. Emprego/Segurança Social, às 10h00.

Mais a sul, estão previstas concentrações em Évora, Beja e Faro, às 10h30, junto aos edifícios onde funcionam os Centros de Emprego

Concurso de professores excluiu quase 45 mil candidatos

Um total de 47.977 tentaram a sorte e candidataram-se a um contrato numa escola. Mas mais de 90 por cento não conseguiram nesta fase um lugar para dar aulas. As listas de colocação de contratados foram publicadas ontem à noite. E revelam que só 3252 professores obtiveram um horário completo; 44.725 não conseguiram.

Estes são apenas "resultados intermédios", avisa o Ministério da Educação (ME). Na próxima semana têm início as chamadas colocações cíclicas. Servem para preencher as vagas que, entretanto, não forem ocupadas e também para atribuir os horários incompletos. Ainda assim, a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) tem marcada para segunda-feira, "dia em que milhares de professores em todo o país se inscrevem para o subsídio de desemprego", uma acção de sensibilização da população para o problema.

O concurso de docentes deste ano destinava-se a colmatar apenas "necessidades residuais para os casos em que os docentes já colocados nas escolas" não eram suficientes para os horários disponíveis.

Segundo os dados do ME, concorreram 6399 professores de Quadro de Zona Pedagógica (ou seja, com vínculo a uma área geográfica, mas que não estavam afectos a nenhuma escola) e foram colocados 2450. Havia ainda 989 professores de quadros de escola em concurso - os chamados "horários zero". A maioria (705) foi colocada, já nesta fase, noutra escola.

Para garantir uma eficaz rentabilização dos recursos, explica o ME, foi decidido que nesta fase apenas seriam preenchidos os horários completos declarados pelas escolas. E também não foram contratados, "neste momento", professores para os grupos de recrutamento onde havia "professores dos quadros sem horário". Só nos próximos dias se saberá quantos lugares podem ainda vir a ser disponibilizados.

Rede pública perde dez mil professores em dois anos lectivos

Nos últimos dois anos lectivos deixaram o sistema educativo 10725 professores que não foram substituídos. E a rede do Ministério da Educação pode perder até 12 mil professores em 2007/08, segundo prevê a Federação Nacional dos Professores (Fenprof). A tutela não avança previsões. Mas tendo em conta a quebra dos dois últimos anos, a redução em três anos atingirá valores entre os 16 e os 23 mil.

No concurso nacional para preenchimento de necessidades residuais, cujos dados foram divulgados anteontem, só 3252 candidatos à contratação, entre os 47 977 que concorreram, obtiveram um horário completo no próximo ano lectivo. E entre os participantes estavam mais de 20 mil que, em 2006/07, tinham contrato.

Ou seja: mesmo partindo do princípio de que a esmagadora maioria das 3252 vagas terá sido entregue a docentes com experiência - e não aos recém-licenciados (ver caixa) -, quase 17 mil contratados foram para o desemprego. Resta-lhes esperar pelos lugares que as escolas disponibilizem para compensar situações de baixas de professores, horários incompletos ou necessidades pontuais.

Mas, para Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, "é pouco provável" que as ofertas absorvam a maioria dos casos. O sindicalista prevê que, no final, a redução do número de contratados "deverá ser o dobro" dos "cinco a seis mil" que o Ministério previu para o último ano lectivo: ou seja: 10 a 12 mil. "A própria ministra já veio dizer que os lugares das escolas estão quase todos preenchidos depois deste concurso".

A Fenprof promove amanhã, dia em que os professores se vão começar a apresentar nas escolas, vigílias junto a vários centros de emprego do País. Locais para onde, segundo Mário Nogueira, "deverão convergir os que ficaram no desemprego".

Para João Dias da Silva, da Federação Nacional dos Sindicatos da Educação (FNE), "é difícil prever o número exacto de contratados que irá este ano para o desemprego depois de serem preenchidas todas as vagas a abrir pelas escolas". No entanto, diz, o número será "seguramente superior aos 5000" que o Ministério previu. "Uma coisa é certa", diz: "É evidente que a precariedade e o desemprego ficarão a marcar o concurso".

Nesta fase de recrutamento participaram ainda 905 professores dos quadros de escola (QE) sem componente lectiva atribuída e 6399 quadros de zona pedagógica (QZP) que ainda não tinham sido afectados a nenhum estabelecimento. No total, mais de 4000 quadros acabaram por ficar ainda sem colocação. Previsivelmente, será a estes -e não aos candidatos a contrato a prazo - que será entregue a maioria das vagas ainda a criar.

Docentes subiram até 2004/05

A redução do número de professores é um fenómeno novo em democracia. Depois do 25 de Abril, com a massificação da frequência da escola, o número de educadores aumentou constantemente. Mesmo entre 1995/96 e 2004/05, em que factores demográficos retiraram mais de 280 mil estudantes às escolas, o número de docentes aumentou em 15 mil, até aos 153 119 de 2004/05.

Confrontada com a quebra de alunos, e uma factura salarial que ainda faz do Ministério da Educação o maior empregador do sector público, a equipa liderada por Maria de Lurdes Rodrigues começou a racionalizar a sua rede.

Mas os sindicatos contestam a lógica utilizada: "A redução de professores não se deve apenas à perda de alunos", diz Mário Nogueira. "Está relacionada com o fecho de escolas no 1.º ciclo, com o aumento dos horários lectivos semanais dos professores, com aspectos que enfraquecem a qualidade do ensino público".

"É óbvio que o Ministério não pode contratar todos os licenciados", concede Dias da Silva. "Mas quando se fala em reforço da rede do pré-escolar, em aposta nos cursos profissionais do secundário, não se entende porque não se utiliza parte deste capital humano nesses objectivos".

23/08/2007

Área de Integração

A Área de Integração deve ser atribuída a professores de Grupo de Filosofia. Porquê?


1. A Área de Integração a quase todos os objectivos de formação próprios do 10º Grupo B;

2. O Programa da disciplina tem um carácter não-linear que é absolutamente incompatível com o desmembramento da disciplina por grupos disciplinares. Efectivamente, cada módulo é constituído por três sub-módulos oriundos de diferentes áreas temáticas, pelo que não é possível o seu esquartejamento em três anos distintos leccionados por três grupos disciplinares distintos;

3. NO caso particular da Escola Secundária XXXXXXXX, e pelo facto de não ser linear mas sim um Programa com diferentes percursos de aprendizagem, advêm sérias consequências para o processo de ensino-aprendizagem: após um ano de leccionação, já todos os sub-módulos foram reconstituídos em percursos alternativos, pelo que a retirada da leccionação da disciplina ao Grupo de Filosofia implicaria a sua absoluta inexequibilidade, pois resultaria na total descoordenação didáctica e pedagógica com graves consequências na vida académica dos alunos;

4. Os cursos profissionais contêm no seu currículo diversas disciplinas distribuídas por vários grupos disciplinares; pelo contrário, ao 10º Grupo B só lhe é dada a possibilidade de leccionar Área de Integração. A disciplina de Filosofia ocupa um lugar, por direito próprio, na Formação Geral dos Curso Gerais. Nos Cursos Tecnológicos e Técnico-profissionais, esse lugar é ocupado pela Área de Integração. Consequentemente, ao reclamar para si a leccionação da Área de Integração, não está o Grupo 10º B a reclamar mais do que aquilo a que tem, legitimamente, direito: a substituição da leccionação de uma disciplina da Formação Geral por outra disciplina igualmente da Formação Geral. O lugar natural da nova disciplina é, claramente, o Grupo 10º B;

5. Igualmente, não faz qualquer sentido que uma disciplina equivalente à Formação Geral nos Cursos Profissionais seja leccionada por Grupos disciplinares usualmente correspondentes às formações específicas ou técnicas; trata-se, simplesmente, de substituir uma disciplina da formação geral (Filosofia) pela sua equivalente (Área de Integração);

6. De acordo com o Programa oficial da disciplina, a Área de Integração procura favorecer “simultaneamente a aquisição de saberes oriundos das ciências sociais e da reflexão filosófica”, comprovando a relevância da Filosofia para a sua leccionação; é o próprio Programa da disciplina que o afirma, não se tratando de uma mera manifestação de intenções de um conjunto de professores;

7. Sendo a Filosofia, ela própria, um espaço de reconhecida interdisciplinaridade, ressalvamos o facto de o próprio Programa de Área de Integração salientar, e passamos a citar, que “com este programa pretende-se, essencialmente, desenvolver a capacidade de integrar conhecimentos de diferentes áreas disciplinares, aproximar estes conhecimentos de experiências de vida dos alunos e aplicá-los a uma melhor compreensão e acção sobre o mundo contemporâneo”. Ora, nenhuma outra área do saber senão a Filosofia parece capaz de responder a este desafio;

8. Acresce que o objectivo fundamental de cada um dos módulos, e não apenas o dos módulos finais, é a problematização dos temas/problemas do elenco modular. Qual a disciplina, senão a Filosofia, cuja especificidade se adequa exactamente a esse propósito?

9. Salientamos ainda o facto de a bibliografia de referência ser constituída, em grande parte, por autores oriundos da Filosofia, tais como Fernando Gil, António Damásio, Edgar Morin, Fernando Savater, Simon Blackburn, Jean Piaget, Platão, Olivier Reboul, Paul Watzlawick, Ignacio Ramonet, António Zilhão, Alain Renaut, Niccoló Machiavelli, Carl Sagan, Marguerite Yourcenar, Boaventura de Sousa Santos, Gaston Bachelard, Jean Bronowsky, Karl Popper, Jean-Jacques Rousseau, Jean-Paul Sartre, André Breton, Luc Ferry e Sófocles

10. Analisando o programa de Área de Integração, verifica-se que muito mais de metade dos módulos previstos – cerca de dois terços - são coincidentes com o programa oficial dos 10º e 11º anos em vigor actualmente na disciplina de Filosofia. Também por esse motivo a nova disciplina é reclamada pelo Grupo 10º B;


11. Mesmo os sub-temas de Área de Integração que não coincidem com o actual programa de Filosofia coincidem, no entanto, com a formação de base dos professores deste Grupo bem como com as disciplinas usualmente leccionadas pelos seus professores nas mais variadas escolas secundárias de todo o país, tais como a Psicossociologia, a Sociologia, a Antropologia, a Ciência Política e a Psicologia;


12. Do exposto resulta, ainda, que é necessário assegurar dentro do mesmo grupo de professores a continuidade da disciplina em todos os anos da sua leccionação: manifestamos a nossa total disponibilidade para assegurar a leccionação dos três anos pelos quais a disciplina está distribuída, de modo a assegurar a devida continuidade didáctica, pedagógica e funcional dos cursos técnico-profissionais.



Consequentemente, os Professores do Grupo 10º B reclamam a exclusividade da leccionação da disciplina de Área de Integração

05/07/2007

Está tudo dito!

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Edmund Blair Leighton

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"Ganhámos as eleições para nomear pessoas"
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Vítor Baptista (deputado do PS, na AR)
in: http://jn.sapo.pt/2007/07/05/nacional/ganhamos_eleicoes_para_nomear_pessoa.html

04/07/2007

E esta, hem!

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Nota para quem não conseguir ampliar a imagem:

Serviços do Ministério Público de Lagos

Exmo Sr...

Processo nº.....

Data: 29-03-2006

Notificação

Notifica-se V. Exª, na qualidade de Falecido, nos termos e para os efeitos a seguir mencionados:

Para no prazo de 10 dias, vir aos presentes autos, levantar certidão requerida

O Oficial de Justiça

29/06/2007

Para pensar, repensar ... e passar

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http://citadino.blogspot.com/2007/06/scrates-um-curto-passo-entre-o-neo.html
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Tenham uma atenção especial à última parte.
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Educação em Portugal



Para mim, chega.

26/06/2007

E assim se explica...

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E assim se explicam tantos relatórios que "lhes" chegam sempre nos momentos mais oportunos, como aconteceu hoje (por acaso?!) numa área que não é da educação (
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=41807), mas que nos faz lembrar o que tem sucedido, sempre muito oportunamente, ao longo destes dois últimos anos, na área que nos diz respeito.
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E assim se explicam uma série de "medidas" que estão a ser tiradas... desculpem, que estão a ser implementadas...
E assim se explica a chuva de computadores que de repente desabou sobre professores e estudantes...
E assim se explicam as "novas oportunidades" sem conhecimentos curriculares que suportem os diplomas que daí advirão...
E assim se explica a diminuição do substracto cultural do que se pretende apreendido nas escolas...
E assim se explica a tentativa continuada de privatização das escolas...
E assim se explica...
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Se lermos com atenção o que nos diz este 1º capítulo de um livro intitulado: "Educação ou Armadilha Pedagógica"*, perceberemos a fundamentação das políticas que nos têm "caído" em cima nestes últimos tempos e compreenderemos aquilo com que temos que lutar..
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Nota: clicar nas imagens para que ampliem e possibilitem a leitura do texto
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"Deste modo se entende ainda porque razão se não avança para um Sistema Educativo no qual uma formação escolar exigente em termos científicos e culturais constitua a base de uma competente formação tecnico-profissional. Dele resultariam, por certo, uma sociedade mais humanizada e um país mais progressivo. Nele se formariam melhores cidadãos, melhores técnicos e melhores profissionais. Mas, aparentemente, com três defeitos inadmissíveis: seriam cultos, menos consumistas e mais reivindicativos..."
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Educação ou Armadilha Pedagógica, Manuel Madaleno, com prefácio de Pedro Barroso - papiroeditora, maio 2006
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09/06/2007

A ministra eduquesa

Já por mais de uma vez afirmei que nunca nenhum outro ministro da educação esteve tão claramente ao lado do pensamento pós-modernaço das teorias vulgarmente associadas ao “eduquês” (seja lá o que isso for). Infelizmente, numa cobarde demonstração de renúncia ao debate livre de preconceitos, os meus fascinantes colegas de trabalho que obtêm orgasmos intelectuais à custa da leitura de imbecilidades que deveriam fazer corar de vergonha qualquer relapso mental, nunca tiveram um assomo de dignidade para dizer o que quer que fosse — e não é na internet que o farão, com certeza.

O facto é que tenho aqui em casa, por manifesta falta de lembrança de o usar como fonte de combustível no fogão de sala, um daqueles livrinhos típicos do “pensamento” eduquês: “Projecto Educativo”, de A. Carvalho e F. Diogo, edições Afrontamento, com o altíssmo patrocínio do Miistério da Educação, na altura liderado por alguém que, se tivesse polegar oponível, teria sido um excelente escritor de historinhas.

Reza assim:

“A evolução, nos últimos anos, do Estado-Providência para um Estado que se anuncia como catalizador das iniciativas locais conduz a uma cada vez maior transformação da concepção escola. Do núcleo professor-aluno passa-se a um espaço comunitário, envolvendo todos os actores que nela interaccionam. De sistema fechado passa-se ao conceito de comunidade educativa onde muros e fronteiras se esbatem, ligadas a outras comunidades (familiares, recreativas, económicas, etc.). (…) Esta visão de uma escola de interesse público é compatível com uma concepção de escola que tem como função participar no alargamento e aprofundamento da educação fundamental, não ignorando a sua relação com a comunidade envolvente que será também agente educativo.”

Ora muito bem. Traga-se lá a comunidade para dentro da Escola e institua-se o Encarregado de Educação como “agente de ensino”: passa ele a avaliar os professores.

Mas vem isto a propósito das palavras da senhora ministra, hoje, à TSF:

Para Maria de Lurdes Rodrigues a transferência de competências de matérias de educação para as autarquias vai permitir fazer mais e melhor, conseguido melhor qualidade.

A governante acrescentou que é sempre possível efectuar a transferência do pessoal docente se for essa a forma de conseguir «uma educação de melhor qualidade e mais eficiente». No que respeita à possibilidade dos professores do Ensino Básico serem também transferidos para as autarquias, Maria de Lurdes Rodrigues garantiu que esta é uma possibilidade que não está a ser equacionada nesta altura.


Digam lá agora se há ministra mais neoliberal e mais eduquesa do que esta.

07/06/2007

Computadores a 150 euros?

Humm… vejamos:

Para os professores, o preço do pc é de 150 euros. Mas com o pc vem um apêndice que, pelos vistos, é obrigatório: uma chamativa ligação à net 5 euros inferior ao preço de mercado, durante três anos (36 meses). O preço de mercado anda à volta dos 34,99 euros (vantagens da concorrência tresloucada e desleal dos nossos múltiplos operadores). Donde, temos 30 euros durante 36 meses (1080 euros) mais 150 de entrada. Total: 1230 euros, por um pc que, segundo os próprios fabricantes, custaria, a preços de mercado, 800 euros.

Ok, ok, só na internet já se recupera o gasto. Mas se do ponto de vista do comprador o negócio até nem é mau , ainda que não seja grande coisa (as características técnicas vão ser objecto de piada entre os técnicos de informática: “olha, lá vem mais um prof com um daqueles computadores rafeiros”), já do ponto de vista do Estado não deixa de ser um fantástico golpe publicitário: afinal, as mensalidades da net acabam todas nas mãos da PT. Ou não?

O passo seguinte é a distribuição de senhas para a sopa dos pobres.

Já agora: e posso comprar sem IVA? Sem factura, assim por baixo da mesa? Humm? Poupava mais uns quinze euritos. Já dava para pagar a gasolina de amanhã.

05/06/2007

Rebuçados

http://www.eescola.pt/

03/06/2007

Concurso para professor titular

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Bolas!
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A mim parece-me tudo ilegal!!!!
E não é por ter sido legislado que passa a ser mais legal!!!
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Estamos a ser (re)avaliados de acordo com uma ilegal retroactividade, ainda para mais selectiva :

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· em função de factos pelos quais já fomos avaliados e que superámos, de acordo com outros padrões de avaliação;
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· por cargos que aceitámos ou não em detrimento de outros que agora não são contabilizados;
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· em tarefas/cargos que dividimos, fazendo rotação anual da sua distribuição, para que houvesse uma contribuição efectiva de todos os professores, o que fez com que em departamentos com muitos elementos nem todos tivessem tido oportunidade de exercer esses cargos;
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· porque desenvolvemos actividades, clubes e projectos ou outros, que dinamizam a escola, envolvem os alunos, (mas parece que no entender destes srs não servem para nada) e que só caberiam no horário se preteríssemos outras funções;
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· por faltas que foram descontadas nas férias e pelas quais cumprimos serviço efectivo;
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· por termos estado doentes, ou termos tido familiares, a cargo, doentes.
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Estamos a ser avaliados numa profissão cujo conteúdo profissional é ser professor, isto é, dar aulas e desenvolver trabalho com alunos, mas onde apenas é contabilizado um item referente a esse conteúdo profissional. Todos os outros pontos vão para a capacidade de manutenção de uma estrutura burocrática, cada vez mais complexa, em resultado das determinações do ME, mas da qual apenas são contabilizados alguns patamares, criando desigualdades mesmo entre quem desempenhou cargos reconhecidos na tal "hierarquia".
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Estamos a ser avaliados num período de congelamento de progressão na carreira, que impediu muitos colegas de acederem ao escalão necessário para concorrerem, embora neste momento, se tivessem ascendido, já se encontrassem quase a meio do período temporal destinado ao escalão em que deveriam estar e assim poder concorrer em igualdade de circunstâncias com os outros.
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Estamos a ser avaliados para aceder a uma categoria em que se manterá o conteúdo funcional existente, dentro do mesmo padrão de distribuição de serviço vs horas de trabalho, e ao qual será acrescentado uma enorme amálgama de novos itens extravasando a possibilidade de encaixe naquele padrão.
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Estamos a ser avaliados para aceder a um posto (?) cargo (?) dentro de uma categoria que não irá alterar em absolutamente nada, no que diz respeito a estatuto ou remuneração, a situação na carreira de nenhum professor que a ela aceda … antes pelo contrário.
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Estamos a ser avaliados, de acordo com o que fizeram crer à opinião pública, para progredirmos na carreira, para desempenharmos funções de coordenação e avaliação de outros, portanto, na gíria, para sermos chefes!
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O que não explicaram publicamente é que:
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· não é para sermos chefes de nada, porque não é essa a função de um coordenador;
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· não é para desempenharmos outras funções, mas sim para desempenharmos as mesmas funções acumulando outras, dentro do mesmo horário de trabalho;
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· não é para promoverem ninguém, porque ninguém será promovido a nada… continuaremos todos a sermos o que éramos, não fosse aquele “titular” a seguir a professor;
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· desta “promoção” não advirão “proventos económicos”, como todos parecem pensar, já que continuaremos a receber exactamente o mesmo, e que, pelo contrário, o nosso vencimento diminuirá já que, acrescentando conteúdos funcionais aos existentes, o trabalho aumenta e o vencimento não;
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· muitos professores, que optaram por trabalhar em clubes, projectos, apoios aos alunos, em detrimento de outros cargos (sendo actividades lectivas não poderiam exceder as horas previstas, por não podermos ter horas extrordinárias)especialmente se isso aconteceu nestes últimos 7 anos (período que aleatoriamente escolheram para ser avaliado), não têm direito a “progredir”, embora até possam ser dos melhores;
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· que não estão dar igualdade de oportunidades a todos, já que excluíram da possível “lista de candidatos”: os que estão "congelados no limbo”; os que estão doentes, neste momento, ou que estão doentes mas podem exercer determinadas funções dentro da escola; os que estão a trabalhar, desde sempre, no ensino especial em escolas de JI e escolas do 1º ciclo de agrupamentos horizontais; os que não têm licenciatura (?! - não há discriminação no ECD, mas passou a ahaver no documento da DGRHE - afinal quem manda?)
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O que não explicaram é que este subterfúgio legal, introduzido no ECD, não passa de uma introdução dos objectivos do PRACE nas escolas, para que desta forma se consigam aplicar os critérios do SIADAP, utilizando colegas que desempenham exactamente as mesmas funções para o fazer.
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O que não explicaram é que esta “titularidade” imposta aos professores não passa de uma manigância economicista que não tem nada a ver com a melhoria do conteúdo e/ou resultados do sistema de ensino.
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Para mim, quase tudo o que se prende com a forma e com o conteúdo deste concurso parece-me poder ser alvo de contestação constitucional, por isso considero premente a colocação da questão no Tribunal Constitucional, para além da sujeição que foi feita à apreciação do Provedor de Justiça.
Creio que é imperativo que isso aconteça.
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Não esqueço, na forma, o modo como o aviso de abertura foi feito e as vagas foram “divulgadas”, deslocando para os júris locais a sua publicitação através de aviso internos. Para mim, isto não passa de mais uma ilegalidade!!!
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Bolas! Trata-se de um concurso nacional! Deveria estar tudo bem explícito em DR!

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PS: Acrescento uma nota recebida de uma colega: "Os "Cacifos" são ilegais, uma vez que a legislação diz que o Aviso é publicitado nas DREs e que do Aviso constarão as vagas".

02/06/2007

Que Escola queremos?

Não sou um adepto das ciências da educação, embora não as renegue; insurjo-me contra o eduquês por convicção intelectual, embora isso me custe alguns amargos de boca e algumas acusações de "fascista" e "conservador".

O "eduquês" não existe, como se sabe. Não sei se Marçal Grilo tinha ou não alvos políticos quando acusou os professores de falarem em "eduquês". A expressão popularizou-se e serve, hoje, para designar um certo abastardamento das ciências da educação, do ensino, da actividade docente.

O meu único objectivo ao atacar o eduquês é discutir a Escola que queremos para a nossa sociedade. Pessoalmente, quero uma Escola Inclusiva, uma Escola efectivamente gratuita e uma Escola com qualidade. Ora, isso parece-me impossível quando, cada vez mais, as escolas não dispõem de meios financeiros (e ainda bem que não dispõem de autonomia financeira...), quando as escolas leccionam disciplinas de utilidade mais que duvidosa (Área de Projecto, Estudo Acompanhado, etc) e quando as escolas são, por tendência natural, lugares onde os mais pobres, os que têm mais dificuldades em aceder à cultura e os deficientes são profundamente marginalizados, estabelecendo-se um "currículo oculto", como diria Bernstein, que os exclui.

Grande parte das teorias pedagógicas são uma trampa - e por isso me insurjo contra elas. São aquelas que designo por "eduquês". Enfio nesse saco coisas como a pedagogia do projecto que, sendo interessante, me parece um delírio face às condições materiais (das nossas escolas) e profissionais (dos nossos docentes).

Quando surgiu o célebre 115-A/98, afirmei na Assembleia Constituinte da minha escola, da qual fazia parte, que estava aberta a porta para a autonomia das escolas. Mas ninguém na altura parecia muito preocupado com o assunto. Hoje percebemos melhor o que é a autonomia das escolas: autonomia pedagógica e financeira, com liberdade total para as escolas escolherem os seus projectos educativos (ao sabor de interesses locais, leia-se camarários, políticos, empresariais) e em função deles escolherem também os seus professores, com os correlativos constrangimentos financeiros que daí advêm, graças à "autonomia", e que levarão necessariamente à dispensa de professores efectivos. Li os normativos legais associados ao PRACE e ao SIADAP e articulei isso com o ECD, tendo chegado à conclusão que a maior parte dos nossos colegas ainda não terá interiorizado a gravidade da situação profissional dos docentes e as implicações para o futuro (qual futuro?) da escola pública.

Na internet, os blogues estão dominados por uma ortodoxia do pensamento, em que as colagens -- e porque não, os interesses -- políticos são excessivamente evidentes. Existem óbvias referências de muita qualidade, mas não seria de bom tom nomeá-las, pois a indicação de uns implicaria a omissão de outros, o que poderia ser injusto. Mas isso não me impedirá de olhar para o livrinho em que Nuno Crato faz um diagnóstico e dizer: "tem razão", mesmo sabendo que o livro é simplista e redutor. Da mesma forma que olho para as entrevistas que Nuno Crato dá e nas quais aponta as "soluções" e às quais só posso responder "não tem razão".

As soluções propostas pelo Nuno Crato não me agradam, como é óbvio . Mas quando ataco o eduquês, imediatamente me conotam com as ideias dele, sendo vulgar os bloguistas me tratarem com alguma antipatia. É que Nuno Crato fez um diagnóstico da situação que não é desprezível: excesso de voluntarismo e experimentalismo em educação, uso de máquinas de calcular desde tenra idade, perda de hábitos e trabalho, visão do estudo como "prazer" e não como "trabalho". Eu, que estudei música até um nível superior, lembro-me bem da exigência, do trabalho, do espírito de sacrifício que eram necessários para, diariamente, estudar 2 ou 3 horas de instrumento, história da música, composição, formação musical ("solfejo"). Mais a "escola" propriamente dita.

O que falha na blogosfera é que as críticas ao Nuno Crato -- e, consequentemente, as críticas a uma política educativa orientada para a elitização, para a privatização, para o desmantelamento de uma escola aberta a todos -- são inconsequentes, pueris, falaciosas. Facilmente desmontáveis. Se Nuno Crato está correcto quanto ao diagnóstico mas errado quanto às soluções, porque não aceitá-lo? Arrumá-lo para um canto como argumento de ser "de direita", "conservador" ou, simplesmente, "uma besta" não esgota o assunto e enquadra-se na tal ortodoxia do pensamento em que, tal como George Bush, "quem não está por mim é contra mim". E isso é errado, pois denota falta de espírito democrático, falta de honestidade intelectual, falta de disponibilidade cívica para nos entregarmos a um debate em que as posições iniciais dos interlocutores sofrem efectivamente alterações se a tal forem conduzidos pelos outros interlocutores. Mas o "debate" na internet não o chega a ser: cada um apresenta umas ideias e dali não sai, dali ninguém o tira. Todas as opiniões formuladas são postulados inamovíveis, dogmáticos, pelo que a discussão se torna evidentemente inútil e inconsequente.

Seguramente não me deixarei vergar por nenhuma das ortodoxias dominantes, ainda que de quando em vez me chamem fascista ou comunista. De um certo ponto de vista, ambos são insultos; ou elogios.

01/06/2007

Greve - números e expressão

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'Greve' - Lasar Segall, 1956

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Os números podem não ter sido os esperados pela CGTP.
As percentagens emitidas pelo governo podem ter sido as esperadas pelos governantes. Tendo em conta as directivas emanadas para a contabilização de aderentes e respectivas percentagens, no caso dos professores, o que poderá indiciar directivas semelhantes em muitos dos locais com flexibilidade de horários (e não são tão poucos como isso), não seria de esperar outros números.
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(Lembremo-nos que, ainda não há muito tempo, "eles" não deram pela presença de mais de 100.000 pessoas nas ruas!!!)
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Não sei dizer se os números constituíram um "número" que contentasse a CGTP, ou se constituíram um "número" que tenha feito sorrir o governo.
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O que sei é que durante toda a semana, anterior à greve, o governo e respectivos ministérios, se desdobraram em tentativas de intimidação e de coacção dos trabalhadores, através dos mais diferentes meios.
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O que eu sei é que o governo mobilizou 6 governantes para passarem o dia a intervir, nos OCS mais mediáticos, garantindo que a greve não estava a ter adesão, que os serviços se encontravam todos em funcionamento, que o país vivia um clima de tranquilidade, chegando ao ponto, de ao fim do dia, fazer coincidir a hora da conferência de imprensa com a da CGTP (facto que não é inédito nos anais deste governo).
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O que eu sei é que Vieira da Silva se sentiu na obrigação de, a partir de Bruxelas, vir garantir que Lisboa vivia uma situação de "tranquilidade".
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O que eu sei é que até a "nossa" Ministra que há muito se mantinha calada veio à ribalta com o regaço cheio de novas medidas!
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Se a greve não teria ou não teve importância, se foram poucos os aderentes, se não influiu de modo nenhum na dinâmica do país, porquê e para quê toda esta azáfama?
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Se a greve não iria ter expressão porque é que demoraram quase tanto tempo a preparar o “contra-ataque”, como a CGTP a preparar a greve?
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Se a greve não teve expressão porque é que passaram o dia a tentar diluir e limpar os possíveis danos?

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30/05/2007

Antes ou depois do almoço?

O MST (Movimento dos Sem-Terra) procura que a comunidade se encarregue da escola e defina o rumo da educação. O movimento converteu-se num “sujeito educativo” e, portanto, todos os seus espaços, acções e reflexões têm uma intencionalidade pedagógica. Isto implica desbordar o papel tradicional da escola e do docente: deixa de haver um espaço especializado na educação e uma pessoa encarregada da mesma; todos os espaços, todas as acções e todas as pessoas são espaço­‑tempo e sujeitos pedagógicos. «Transformar-se transformando» é o princípio pedagógico, e o movimento é o sujeito educativo. Já não se regista divisão e separação entre escola e sociedade. A pedagogia deixa de ser uma técnica dominada por especialistas para se converter num “ambiente”, um processo de auto­‑educação permanente.

Uma pedagogia que teria entusiasmado Paulo Freire. Mais ainda, não atribuem qualificações: «Aos que não sabem não se lhes põe zero, em vez disso o grupo não avança até que todos vão a par, a ninguém se reprova». No final do curso, os promotores indígenas – eleitos pelas suas comunidades – organizam actividades que são presenciadas pelos pais de família, que «valorizam a aprendizagem dos seus filhos, sem lhes outorgar qualquer qualificação».

Creio que as práticas educativas destes e doutros movimentos recolhem a intencionalidade libertadora de Paulo Freire: a educação tende a ser auto­‑educação; o espaço educativo não é só a aula, mas toda a comunidade; os que ensinam não são só os professores, mas todos os membros da comunidade; as próprias crianças mostram a sua capacidade de aprender­‑ensinar; todo o movimento é um espaço auto­‑educativo.


Eis o eduquês em todo o seu esplendor, num artigo delirante que foi, seguramente, escrito após um almoço muito bem regado com tintol.

A única coisa que lamento é que alguma Esquerda tenha embarcado nestes cantos de sereia e que a cegueira mental a impeça de ver o quão ridícula é a sua posição.

30 de Maio de 2007

29/05/2007

O que é o eduquês?

O eduquês não é uma corrente. Não é uma teoria. Não é uma escola. Não é um princípio. Mas existe.

Existe sob a forma de facilitismo que se instalou nas escolas, não por culpa directa dos professores, mas por sucessivas imposições ministeriais.

Um bom exemplo encontra-se nos exames nacionais deste ano: os erros ortográficos não contam para avaliação no primeiro grupo. Diz o director do GAVE que as competências de leitura e escrita podem, assim, ser avaliadas separadamente, pelo que se trata de um critério técnico muito para lá da mera opinião do senso comum.

Outro exemplo é o uso de máquinas de calcular para evitar essa maçada que é a tabuada. Desde os primeiros anos de escolaridade que as crianças são induzidas à lei do menor esforço, sem que para tal existam autênticos hábitos de trabalho.

Mais um exemplo é o da constante substituição de disciplinas sérias por disciplinas sobre banalidades e fantochadas, como é o caso do Estudo Acompanhado, da Área de Projecto e da Formação Cívica.

Mas se Nuno Crato, Desidério Murcho ou qualquer outro indivíduo diz que isto está mal, lá aparecem os eduqueses da praça, a chamar fascistas e conservadores a tudo o que manifeste actividade neuronal superior a duas sinapses por segundo, provavelmente tentanto não mais do que assegurar o tacho: o tacho das escolas de formação de professores, das ESE’s, da literatura de cordel que se publica sob a égide das pseudo “ciências” da educação (obviamente, com a devida ressalva de quem trabalha seriamente; e, felizmente, também existem bons exemplos na internet, nomeadamente em blogues) e de todo o tipo de experimentalismo acéfalo em que o nosso sistema de ensino está afogado.

O pior é que essa gente não se dá à discussão: mantêm-se na sua posição ortodoxa e evitam o debate e a troca de argumentos. Quando lhes é apontado o erro, não respondem ou refugiam-se em citações vagas semelhantes às que se encontram nos horóscopos. Deixam os interlocutores sem resposta, por incapacidade intelectual.

Não farei a apologia das soluções propostas por Nuno Crato: mas não vi, até hoje, um único comentário publicado na internet em que ficasse demonstrado que aquele célebre livrinho “O eduquês em discurso directo” não esteja doente de razão. Pelo contrário, o que se vê é um conjunto de comentários bovinos, repetindo banalidades como “ele não tem autoridade para falar de pedagogia porque não percebe nada de ciências da educação”, ou “ele é um saudosista de Salazar” ou “o eduquês não existe; trata-se de um livrinho delirante”.

Enquanto debate de ideias, não há dúvida que os partidários do eduquês têm uma noção muito incipiente da democracia. Isolados na sua ortodoxia, tudo o que saia da [sua] norma é lixo. Eis uma boa forma de se auto-anularem. Continuem: é esse o caminho.

27/05/2007

Greve


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1313 escolas fecham em Setembro

São 1313 as escolas básicas do 1.º Ciclo que não deverão reabrir no início do próximo ano lectivo. O JN teve acesso ao relatório produzido pelo Gabinete de Informação e Avaliação do Sistema Educativo (GIASE), que sinalizou 614 estabelecimentos para fecharem só na Região Centro. Pelo país multiplicam-se os concelhos que ficarão apenas com uma, duas e três escolas - sempre no Interior. No Alentejo, aumentam os municípios que só ficam com as integradas a funcionar - caso de Barrancos e Gavião. As direcções regionais de educação alegam "não ter ordens" para se pronunciarem. O ministério mantém-se em silêncio. Os sindicatos revoltam-se contra o que consideram ser a "desertificação" do país.

A Região Centro vai ser a mais penalizada - poderá perder quase 39% das suas escolas. Entre os concelhos com mais estabelecimentos sinalizados destacam-se o de Viseu (com 28), o da Guarda e Tondela (22), Coimbra, Seia, Leiria e Pombal (20) e Cantanhede (18). Perdas que para alguns concelhos poderão significar quase metade do seu parque escolar - caso da Guarda, 48, 8% - ou mais se em Seia encerrarem 20 escolas, a reorganização traduzir-se-á numa perda de 64,5% do parque escolar do concelho. Celorico da Beira tem 13 estabelecimentos sinalizados para fechar. A confirmar-se ficará com três, perdendo 81,2% da sua rede de ensino.

O GIASE entregou o dossiê com a lista das escolas sinalizadas há cerca de dois meses às direcções regionais de educação, que desde então se têm reunido com as autarquias. Tudo indica, apurou o JN junto de alguns municípios, que as negociações poderão levar a alguns ajustes. Em Viseu não deverão fechar "nem metade" das sinalizadas. Na Pampilhosa da Serra também não deverão encerrar os seis estabelecimentos que actualmente existem no concelho, além da Escola Integrada. Os sindicatos sublinham, no entanto, que no ano passado (em que fecharam 1472 escolas) as conversações saldaram-se em "raras excepções" ao fecho decretado. Recorde-se que a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, já manifestou que pretende chegar ao final da legislatura com 2500 escolas do 1.º Ciclo. Se em Setembro 1313 não reabrirem, ficam a faltar 807 encerramentos para o objectivo. Ter menos de 20 alunos e uma taxa de aproveitamento inferior à média nacional, ou menos de 10 alunos, são os critérios do Ministério da Educação para reorganizar a rede escolar. Maria de Lurdes Rodrigues considera que o isolamento potencia o insucesso e que as tranferências dos alunos para centros educativos "facilita a socialização e garante o acesso a mais e melhores recursos, eliminando a desigualdade de oportunidades".

Os dirigentes sindicais ouvidos pelo JN concordam com os argumentos. O problema, insistem, é que não se pode redesenhar "cegamente" o mapa do país a partir do referencial de um número.

Admitindo alguns ganhos, os sindicatos sublinham as consequências, que são muitas e negativas, garantem. Há alunos que têm de se deslocar quilómetros, havendo os que saem de casa por volta das 7.30 horas e regressam 11 horas depois. Dirigentes do Norte, Centro e Alentejo apontam ainda escolas requalificadas que fecham, sendo os alunos transferidos para estabelecimentos mais degradados.

17/05/2007

Para evitar problemas de diplomas...

Acesso às carreiras mais altas vai dispensar licenciatura
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O acesso às carreiras mais altas da função pública vai deixar de exigir licenciatura aos candidatos. Esta é uma das novidade do novo regime de vínculos, carreiras e remunerações que se encontra em fase final de negociação e que deverá dar entrada na Assembleia da República até final de Junho de modo a entrar em vigor em Janeiro do próximo ano.
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a notícia toda em:

12/05/2007

Trabalho vs diplomas

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A política, em curso, relativa ao trabalho, não tem nada a ver com habilitações. O menosprezo pelas profissões que eles consideram de segunda, latente em todos os anúncios das novas oportunidades, não tem nada a ver com formação. O sucesso dos trabalhadores de que eles tanto falam não tem nada a ver com o sucesso dos indivíduos. Se tal fosse verdade, não haveria a percentagem de desempregados que existe. Se fosse verdade não haveria licenciados e portadores de diplomas profissionais, nas mais diferentes áreas, no desemprego. Se fosse verdade não estaria em vigor uma lei que aumenta, cada vez mais, a precariedade e a insegurança no trabalho. Ao aumento do desemprego veio juntar-se o aumento do trabalho a prazo, em todos os sectores da vida nacional. A diminuição dos postos de trabalho não tem nada a ver com falta de habilitações. A produtividade não tem a ver com a falta de habilitações.

Todos os problemas de trabalho, existentes no país, têm a ver com problemas de gestão laboral e empresarial e com políticas de corte para resolução dos problemas, em vez de políticas de fomento para aumento de produção e consequente resolução dos problemas.
O país não é pobre. O país está empobrecido! Empobrecido por negociações em que cedemos tudo à Europa. Empobrecido por relações subsídio-dependentes para com a Europa. Empobrecido pelos grandes negócios de alguns vs os cortes de todos os outros (o fosso está cada vez maior… e desta vez, sem vergonha nenhuma; “os outros” ainda nos iam fazendo crer que a riqueza lhes advinha de títulos sucessórios). Empobrecido pela exploração do trabalho e pela diminuição do poder de compra do cidadão. Enfim, empobrecido por uma gestão e uma política de estrangulamento, de cujos resultados catastróficos culpam o trabalhador que não faz mais do que produzir o que o patrão deixa, seja ele um privado, ou o estado.

Claro que somos louvadíssimos pela Europa. Enquanto formos cortando, em troca de pequenos subsídios, enquanto não formos produzindo e formos importando tudo o que precisamos, quem produz só pode estar feliz e apoiar esta política. Claro que somos louvadíssimos porque, nestas contas do deve e haver, vamos conseguindo manter-nos naquela margem estabelecida… sem ficarmos muito abaixo para não sermos o parente pobre acusado de negligência, sem ficarmos muito acima para não começarmos a pôr em risco os gráficos de exportação/importação dos países com posses. Claro que, de vez em quando, lá vem a tal reprimenda, para que o governo possa “apertar” mais um pouco em nome dessa margem estabelecida. E lá vamos vivendo, muito satisfeitos, nesse equilíbrio efémero, querendo acreditar que um dia sairemos do limiar de pobreza (dizem eles… pensam eles “de que”…) !

E aqui entram os subsídios! Como um deles visa o programa de formação dos cidadãos europeus, vá de promover habilitações. Não interessa como, interessa que desse subsídio resulte um aumento das estatísticas no que às qualificações diz respeito. Interessa que isso seja feito de forma a que as verbas permitam não só esse aumento, mas que possam dar para mais qualquer coisita (isto é um “suponhamos J !), já que eu não acredito que aqueles CRVCC tenham o objectivo primário de dar e/ou reciclar competências profissionais (nem que absorvam toda a verba disponibilizada para a formação e que deveria ir para centros que o fizessem verdadeiramente). Creio que não irão além da atribuição rápida de diplomas contabilizáveis para as estatísticas. E assim crescerão os diplomados! E a formação crescerá também? Não me parece.

E aqui está a falácia desta política. O emprego não aumentará por terem aumentado os diplomas. Os diplomados não estarão profissionalmente mais preparados porque não é isso que visam os diplomas atribuídos. Sim, porque se as empresas e/ou o estado estivessem interessados em profissionais profissionalizados e especializados já há muito que teriam ido reciclando os seus funcionários e/ou dando-lhes a formação de que necessitassem quando os admitiam, tal como se passa na maior parte dos países que estão interessados no aumento da produção e na riqueza do país. Não creio que seja este o objectivo do nosso. Também não creio que seja esse o objectivo desta campanha!.

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10/05/2007

Especialistas!!!

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Realizou-se, esta semana, a Conferência internacional sobre o ensino do Português. Esta conferência não foi uma qualquer conferência! Foi uma conferência organizada pelos serviços centrais do ME com objectivos precisos http://www.dgidc.min-edu.pt/conferenciaportugues/Apresentacao.htm. Não sendo a minha área, não quero, no entanto, deixar passar em claro, a organização e as conclusões que foram noticiadas:
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Porquê? Porque o que se passou aqui, é o que se passa relativamente a todas as outras disciplinas ... todos são especialistas!
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A conferência pressupunha que se falasse do ensino. E onde se faz esse ensino? Onde se geram as dúvidas? Quem está todos os dias com os alunos e conhece as dificuldades quer da transmissão, quer da aquisição de conhecimentos? Que eu saiba são os professores nas escolas!
Não seria importante que: quem está, perguntasse?... quem tem experiências válidas, contasse?... que se tivessem organizado, nas escolas, grupos de trabalho que, ao longo do ano, preparassem esta conferência, colocando os seus problemas, confrontando tentativas de solução?
No entanto, parece que nada disto é importante, que nada disto tem a ver com o ensino do português e com o seu insucesso. Importante é vir alguém explicar aos pobres e incompetentes professores como se faz! Quero afirmar que não tenho nada contra este tipo de conferências, se estas se constituirem como um local onde uns vão fazer currículo e outros vão buscar informações! Tenho tudo contra, numa conferência que se "propõe reflectir, de forma alargada, pluridisciplinar e transversal, sobre os grandes problemas que hoje se colocam ao ensino do português e à sua aprendizagem em contexto escolar, sem esquecer naturalmente o lastro de enquadramentos pedagógicos e de orientações políticas que desde há algumas décadas o determinam. Dentre aqueles problemas merece destaque o deficiente domínio da língua que é evidenciado pelos nossos estudantes, tanto em exames nacionais como em estudos internacionais".
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Sim, porque ao consultarmos a lista dos conferencistas encontramos professores universitários/politécnico com função de formação de professores, encontramos professores universitários sem função de formação, encontramos escritores, encontramos a presidente do Instituto Camões, encontramos outros conferencistas com cargos semelhantes, gente que fala e escreve muito bem português, mas que com toda a certeza nunca esteve numa sala de aula com vinte e tal putos... e finalmente encontramos o Presidente da APP que não sei se exerce, e um outro professor do Ensino Secundário que também não sei se exerce...
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Todos eles, segundo o programa, falaram do ensino do português! Todos eles expuseram as suas teorias! Teorias construídas ou apreendidas... mas onde? Teorias sobre as nossas áreas todos sabemos! Pesquisa e construção de materiais todos fazemos! O que os professores querem e precisam é a resposta às suas dúvidas!
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E foi aqui que a "porca torceu o rabo"! Foi quando confrontados com as dúvidas reais de quem está no terreno e conhece "a gente" que tem à sua frente que os sábios, os técnicos bem informados, os conselheiros do ME... todos eles tendo, anteriormente, "discursado" sobre o ensino do português sem terem a mínima noção do que é uma escola, do que é uma sala de aula, se irritaram, como se estivessem a falar com mentecaptos, e responderam com o absurdo "os professores têm que ser mais criativos" "há muito material didáctico na internet"!!!
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Como se não fosse isso que os professores fizessem todos os dias! Esmifrar-se na procura e construção de materiais (tudo do seu bolso, claro!!!) que sejam apelativos e consigam tirar quem têm à sua frente da apatia e desinteresse que manifestam por qualquer coisa que lhes seja transmitida na escola, e concluiram com uma tirada importantissima, quando confrontados com o problema dos alunos estrangeiros (a quem o ME achou por bem retirar as horas de apoio): "um apelo ao Ministério da Educação para pressionar as instituições do Ensino Superior a introduzirem línguas não maternas na formação dos professores". Apelo esse que o jornal, mencionado, aproveitou logo para o título da notícia: "Docentes pedem formação para ensinar estrangeiros"
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Voltámos à mesma estórea... aprendam romeno, ucraniano, chinês, tal como em tempos aprenderam crioulo!!!
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O ME cumpriu o seu papel, o da preocupação e tentativa de resolução do assunto. Os especialistas fizeram a sua boa acção em prol da língua portuguesa e contribuiram para dissipar as preocupações do ME. Os professores voltaram para casa, com o conselho "criem e procurem na net" (e se tiverem alunos estrangeiros, aprendam a sua língua)!
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O grande problema que se nos coloca é que os currículos, os programas, os exames, as provas, as normas de funcionamento, etc, são todos elaborados por estes ou outros especialistas!
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28/04/2007

Afinal!!!!

Abandono escolar sem números
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Afinal, depois de tantas críticas, não há números... supõe-se!!!

E pior ainda! Abandono escolar entre os 18 e os 24 anos?! "Para onde vão estas crianças"?! Crianças!!! E as escolas não se queixam?! ... ou ninguém actua?!

Será que esta gente conhece a legislação do país?! Ninguém saberá que a escolaridade obrigatória é até aos 15 anos... e que é até essa idade, e só até essa idade, que as escolas têm que reportar o abandono, se sistemático e continuado? Se os alunos vão aparecendo, de vez em quando (para nos ver e ver os amigos... ou para ir só "à minha aula", por ex) nem isso pode ser feito!!!

Estará tudo doido?!... ou serei eu que não sei ler?

O certo é que é a partir de análises deste tipo que têm nascido todos os insultos de que temos sido alvo

27/04/2007

Do relatório sobre a violência...

Este relatório não frisa o principal... não refere o papel que o Governo, pela boca do Ministério da Educação (e não só) apoiado pelos OCS, teve no clima de insegurança e desrespeito gerado contra os agentes educativos, nestes dois últimos anos. Não diz que a menorização a que fomos submetidos, os insultos a que fomos sujeitos por parte dos inquilinos da 5 de Outubro, a depreciação constante pelo trabalho do professor e da escola, o sermos considerados pau para toda a obra, foram os grandes despoletadores da violência que surgiu repentinamente.

Atacaram as escolas e os seus agentes. Disseram: não prestam! E quem respeita o que não presta? Encarregados de Educação e alunos sentiram-se avalizados para executar fisicamente todo o ódio, que aqueles senhores destilavam publicamente, contra os professores. Se há aqueles que por feitio ou educação mantiveram o controle, ficando-se apenas pelas palavras, outros houve que, habituados a resolver tudo pelo confronto físico, se sentiram no direito de o fazer também na escola.

Nunca o estado utilizou a legislação que havia para repressão da violência sobre os agentes educativos, nem no que toca a alunos, nem no que aos adultos diz respeito. Pelo contrário, desvalorizou, sistematicamente, todas as notícias, vindas a público, sobre os actos de violência sobre os agentes educativos, tal como, ainda muito recentemente, o fizeram VL e MLR. Apenas quando se deram três casos na mesma semana e a comunicação social, achando que já era de mais, agarrou as notícias e fez delas parangonas de jornais é que acordaram… mesmo assim, muito a medo, a sacudir a “mosca” que os incomodava. E não só o ME é culpado…. Também o são os “nossos representantes” na AR que há dois anos que se calam perante todas as afrontas feitas à escola e aos seus agentes. Mas, agora, para cumprir a “sua missão de observatório” já vêm propor soluções.

Só que as soluções passam pelas soluções encontradas pelas escolas – parcerias e articulação com todas as organizações locais que lhes possam prestar ajuda (Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, Comissões Municipais de Educação, Conselhos Locais de Acção Social e Conselhos Municipais de Segurança, Projectos Locais de Apoios a Jovens, como o Escolhas, Associações de Bairro, etc).. Mas para isso lá vem a técnica portuguesa para não se produzir trabalho - a criação de comissões!!!!

Será que nas escolas com problemas as Associações de Pais e EE funcionam? Na nossa não! Os restantes elementos já estão, desde há muito, integrados nos problemas e combatendo nos seus locais as possíveis causas. Temos parcerias de trabalho com todos os elementos que o relatório menciona. Dão-nos toda a ajuda … e nós a eles, na detecção de casos de risco e na tentativa da sua resolução. Unimo-nos na resolução dos problemas. Estiveram na reunião e disseram de sua justiça. Não fazem milagres porque não estão a trabalhar com apenas uma escola e porque o pessoal que têm é limitadíssimo. Foi o que lhes foi dito…. Mas quanto a aumento de Assistentes Sociais, Psicólogos, etc, não fala o relatório. Quando se querem fazer gemadas sem ovos não se consegue de certeza. Para que precisamos então de uma comissão?!

O grande problema é que enquanto, quem não está na escola, não conseguir perceber a diferença entre violência e indisciplina, não conseguirá conceber os meios para a colmatar. Enquanto, quem não está na escola, não conseguir perceber que o que se passa na escola é o reflexo da sociedade que constroem fora dela, não conseguirá encontrar formas de refrear quer a indisciplina, quer a violência. Enquanto a sociedade não perceber que os alunos espelham na escola as atitudes de menosprezo por esta instituição que apreendem em casa, na rua, nos OCS, será muito difícil à escola conseguir mudar-lhes as atitudes. Enquanto os alunos e a sociedade não perceberem que a escola é um direito, mas que para o merecerem têm o dever de a respeitar, de cumprir regras, de a usufruir para que a sua vida ganhe perspectivas de futuro, a escola não poderá ir além do que é hoje. Enquanto os alunos e a sociedade não perceberem que a escola não é um mero sítio onde se passe o dia, apenas se lembrando de exigir que haja sucesso no fim do ano, quando durante o ano, se esqueceram de trabalhar para isso, por muitos milagres que a escola faça, esse não faz.
Enquanto ninguém perceber que o único local, onde o sucesso vem antes do trabalho, é no dicionário, esta sociedade não avançará.

Na nossa escola não há violência. Há indisciplina. E essa indisciplina é resultante de uma não aceitação da regra. Na nossa escola, com alunos de predominância caboverdeana, está a primeira geração de crianças nascidas “cá” a fazer a escolarização (alguns já lá tiveram irmãos mais velhos … o que não impede de poder ser considerada a primeira geração). Que se passará com a capacidade de interacção social de jovens, sujeitos a duas culturas diferentes, e que constituem a primeira geração a fazer a miscenização dessas culturas? É este o grande problema desta escola. São estes putos que têm o grande estigma de fazer a ligação entre duas sociedades – a dos pais, caboverdeanos nascidos e criados em Cabo Verde e a nossa sociedade. São estes putos que têm que gerir as regras de duas culturas. São putos resultantes de comunidades de realojamento – um deles, ainda antes deste último realojamento, dizia-me: não dormi nada, não podia dormir… toda a noite se ouviram tiros (de polícias e de gente do bairro) e eu não sabia quando é que algum tiro me podia entrar pela janela! Ainda temos putos que viveram casos como estes e outros a nível de violência familiar (aqui sim, é violência).

Mas esta gente acha que é criando comissões e vigiando electronicamente toda a gente que os problemas se resolvem.

Sim, porque a grande solução encontrada, para além da tal comissão, é o “big brother “ – o grande olho electrónico que tudo controle!!!! É o cartão electrónico, o livro de ponte electrónico, o registe electrónico de ocorrências. É o olho do “ME” dentro da escola. Qualquer espirro estará imediatamente no ME. Também queremos o mesmo sistema na AR para sabermos o que se passa por lá … para percebermos a razão da violência exercida sobre o povo. Também queremos o mesmo sistema no ME para podermos examinar e precaver o bullying exercido sobre os professores.

Por outro lado, sugere-se o condicionamento do acesso à net…. Como se na escola, como se nas aulas, os putos viajassem pelos sites pornográficos ou estivessem em chats de depravação. Mas que escolas pensam eles que temos?! Saberão eles que praticamente não há acesso à net em quase nenhuma escola, fora dos tempos lectivos? Saberão eles que destes putos, os tais das escolas desfavorecidas, quase nenhum tem acesso à net? Saberão eles que estes putos, na sua grande maioria, não têm computadores em casa? Saberão eles que são os outros, os das escolas sem problemas que têm essa possibilidade, quer em casa, quer nas escolas? Os das nossas escolas aprendem o abc da net, nas aulas de TIC! Mais uma vez, a teoria deste governo expressa-se nas recomendações para a aplicação na prática: repressão! Não se educa…. Reprime-se!!!! Não se ensina…. Corta-se!!!!

A única proposta de medida aproveitável é a da recuperação/construção de espaços. E palavra que para que isso acontecesse, tivemos que os “arrastar” para verem o baldio que cerca o pavilhão e mostrar-lhes, pelo caminho, a falta de espaços de recreio e de convívio. Só que esta medida é das tais que nem deveria ser preciso propor. A criação de espaços adequados e a sua manutenção devia ser uma constante. Os remendos e o deixar andar até à degradação saem sempre muito mais caros do que a manutenção feita frequentemente.

Em simultâneo, para colmatar os problemas de indisciplina e violência escolares, saiu uma proposta de alteração do estatuto do aluno (
http://www.min-edu.pt/np3content/?newsId=605&fileName=alteracao_estatuto_aluno.pdf) que se encontra aberta à discussão pública até 9 de Maio (http://www.min-edu.pt/np3/578.html).

De novo, no que respeita a disciplina, para além de algumas explicitações mais aprofundadas de conceitos já existentes, só encontro a possibilidade de o CE não necessitar de ouvir o Conselho de Turma para aplicação de suspensões até a 10 dias, o que, anteriormente, se aplicava a sanções até 5 dias, já que se o CE considerasse que a sanção estava equilibrada com a falta, não necessitando de mais dias de suspensão, não precisava de ouvir o CT, nem de se instruir processo disciplinar. Quanto ao resto, tudo está de acordo com o que já estava escrito na lei 30 e que já praticamos desde que esta lei foi publicada.

Ora, ou a nossa escola fez uma leitura “futurista” da Lei 30/2002 de 20 de Dezembro, ou escolas houve que não a souberam ler. Nesta lei vem praticamente tudo o que está nesta proposta. Com base na Lei 30 já, há muito, havíamos construído uma tipificação de faltas e respectivas sanções, que estabelecessem não apenas um reconhecimento das faltas frequentes na escola, mas também um critério de equidade para as sanções inerentes. Paralelamente, temos em funcionamento uma Equipa de Acompanhamento Disciplinar, que apoia alunos e professores nos problemas que vão surgindo relacionados com a disciplina. Nestes últimos anos temos conseguido, que os casos graves de indisciplina, se vão reduzindo. Numa 1ª fase tivemos uma diminuição significativa de problemas nos 2º e 3º ciclos e um aumento no 1º ciclo (resultante de problemas de interacção entre alunos oriundos das comunidades caboverdeana e cigana) que, no entanto, também têm vindo, gradualmente, a ser reduzidos.

Lamentamos que os membros desta comissão “de observatório contra a violência no meio escolar” apenas tenham conseguido dedicar, a uma missão tão séria como esta, 2 horas e meia em cada escola, na véspera do debate sobre o assunto na AR, e que com o que lhes foi dito (pelo menos na nossa escola) apenas tenham conseguido conceber aquele relatório e apresentar aquelas propostas

O grande problema da nossa escola, embora também esteja a diminuir, mas menos acentuadamente, é mesmo o do insucesso escolar… mas esta é outra história.

Finalizamos, dizendo que é penoso, ver parangonas de jornais, estigmatizando a nossa escola, atribuindo-lhe uma violência que nunca houve, criando um impacto sensacionalista que apenas mina a periclitante confiança que vamos criando entre nós e os alunos e prejudica o trabalho de interacção que se vai desenvolvendo com crianças cujo maior defeito é a baixa auto-estima com que enfrentam a vida.

25/04/2007

O Cravo de Sócrates

16/04/2007

Sindicalismo

1 - Nos moldes em que a sociedade está estruturada os trabalhadores necessitam de uma organização intermédia que os represente não só junto da entidade empregadora e dos diferentes ministérios, a que a sua actividade se liga, para dirimir possíveis conflitos laborais, mas também que negoceie os direitos e deveres de cada classe. Enfim, que seja a voz dos trabalhadores no garante das suas condições sócio-profissionais. Sem este tipo de organizações, sem esta voz, voltaríamos ao tempo em que não existiam classes profissionais, em que os trabalhadores viviam, cada um per si, explorados e humilhados pelos patrões, sujeitos a uma enorme precariedade a nível de direitos (factos que não vale a pena relembrar). Se repararem estamos a regressar a passos largos a esse estádio. Basta olhar para as novas leis sobre contratação para nos apercebermos da tentativa (já bastante conseguida – vejam-se as novas ofertas de escola!) de isolar o trabalhador através de um contrato individual de trabalho e, posteriormente, através de uma avaliação que se quer secreta entre o avaliado e o avaliador. E não me falem numa nova recessão porque ao analisarmos, criticamente, os factos, o desemprego, a individualização do emprego e o aniquilamento dos direitos que estão a ser feitos em nome de uma instabilidade económica internacional, os argumentos não colhem. Há cada vez mais “os mesmos a engordar” na proporção inversa “aos mesmos que cada vez mais apertam o cinto” (também já vi isto algures pela história do mundo…). E cada vez mais se culpa o trabalhador, por reflectir na prática, o descalabro das más políticas, das gestões de jeitos, da ganância, dos sonhos individuais de promoção pessoal a todo o custo (que se tornam pesadelos para quem trabalha), do querer de um dia para o outro o lucro que demora anos a construir, de tudo o que tem conduzido os países, em geral, e Portugal, em particular, ao estado em que se encontram neste momento.
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Os sindicatos são necessários, mas os sindicatos são os sócios e não (apenas) as direcções. E aqui começa o 1º problema: as pessoas sindicalizam-se e pensam que, ao fazê-lo, “adquiriram” voz directa nos órgãos de decisão. Por isso descansam. Por isso ficam em casa achando que “o advogado” está tratando do seu caso. Quando são chamadas a dar opinião, em reuniões, na rua, seja em que acção for, dizem “estará lá quem me represente”. Quando descobrem que afinal todos pensaram da mesma maneira, viram-se contra os sindicatos… não mobilizaram, não estão à altura, não têm capacidade… Afinal não têm força, afinal não representam ninguém! Esquecem-se que a força dos sindicatos é a força que todos e cada um dos sindicalizados lhes derem.
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Historicamente, em quase todos os países, e em especial em Portugal, o sindicalismo está conotado com a contestação sistemática, a acção de rua, o esquerdismo (mais especificamente com os “comunas”). Aqui reside o 2º problema: as pessoas, apesar de um 25 de Abril, não consciencializaram a sua capacidade de exigir o que lhes é devido, nem a necessidade de “luta” por direitos, quer pelos que lhes são inerentes enquanto cidadãos produtores, quer pela sua manutenção. “Lutar” é feio… não fica bem, é conotado com os esquerdistas. Mais… as pessoas têm medo! As pessoas cultivam o medo do que lhes pode acontecer se fizerem isto ou aquilo (nas salas de professores isso é cada vez mais perceptível). E o “patrão” é como o cão… cheira o medo, cheira-o e avança a passos cada vez maiores, com os dentes cada vez mais arreganhados. O “patrão” conhece o seu poder sobre o resultado dos 50 anos que nos (de)formaram (e que continua a ser transmitido no íntimo da maioria das casas portuguesas) e usa-o.
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2 – No sindicalismo docente passa-se o mesmo que em todas as profissões, mas com sérias agravantes. É uma classe de intelectuais, o que muitas vezes se torna um impedimento a uma acção (embora esta condição devesse ser uma mola, torna-se em geral handicap). O conhecimento da história, das filosofias, das teorias é, muitas vezes, um entrave à manifestação dinâmica do que se quer, daquilo a que se tem direito. Perdemo-nos em “tertúlias”, em debates, em ler nas linhas e nas entrelinhas, e acabamos por agir tarde, ou por não agir. Não fica bem a um intelectual meter-se em lutas “materiais”. Por outro lado, a classe é constituída, maioritariamente, por mulheres com um “certo” status, a quem também não fica bem a tomada de determinadas posições/acções. Temos, ainda, as opções partidárias, que tolhem muitos dos nossos movimentos. Infelizmente, a maioria, quando tem um “cartão”, torna-se cega à realidade e acrítica relativamente às posições que se vão tomando, não fazendo mais do que baixar a cabeça e dizer amem. Por isso, vamos todos deixando andar, na convicção de que alguém nos defenderá. E não vou referir que o enorme desemprego existente dentro da classe e que todos os documentos emanados deste ME estão a ferir gravemente o já “pequeníssimo” espírito de classe existente, fazendo com que se olhe exclusivamente para o próprio umbigo (exactamente o que eles pretendem).
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3 – Todos sabemos que a proliferação de sindicatos tem diversas origens. Desde as políticas, nomeadamente das que se dizem de não-alinhamento, às que são da cor da ocasião (que apenas serviram para, na altura, serem apoiantes e signatários das propostas de momento), às de protagonismo individual, há de tudo um pouco. Um exemplo interessante é o de um colega (por acaso do meu grupo) que aquando da saída dos primeiros formados pelas ESE (que na altura não saíam licenciados) ter ficado indignado com os sindicatos existentes por os aceitarem como sócios e ter resolvido constituir um sindicato destinado apenas a professores licenciados. Soube, não muito tempo depois, que paralelamente a esse seu acto, tinha aceite ser professor numa dessas escolas que formavam professores que ele não considerava ao nível de se sindicalizarem nos sindicatos de professores. Enfim… protagonismos e hipocrisias!!!
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Todos sabemos, também, que a maioria dos professores (com uma formação cada vez menos politizada, por ausência quase total de associativismo estudantil), que se sindicaliza, o faz no princípio da carreira e que quase nenhum tem conhecimento dos sindicatos que existem. Por isso pergunta ao amigo, ao colega mais próximo, e acaba por sindicalizar-se no que aquela pessoa que considera de confiança indicou. Não há uma análise, não há uma escolha do que é oferecido.
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Todos sabemos, ainda, que muitos dos sindicatos existentes poucos sócios têm para além dos que constituem os seus órgãos sendo, no entanto, legais… já o mesmo não posso dizer da sua representatividade (talvez não seja ilegal… representativa é que não o é de certeza... pelo menos para mim.).
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4 – O movimento sindical deve ser da responsabilidade de todos os que dele são sócios. Essa responsabilidade passa pela participação crítica dentro do próprio sindicato, passa pela discussão dos problemas reais e pelo fazer ver a quem não está na escola (e aqui refiro-me a sindicalistas que se acomodaram) que lá não se vivem teorias mas práticas. Se o não faz dentro do sindicato não lhe reconheço o direito de o fazer fora. Se o fizer lá dentro e, sentindo-se dentro da razão, achar que o deve fazer fora do sindicato, aí sim, considero que tem o direito de o fazer, embora a “ética me possa fazer cócegas”. O grande problema é que a maioria das pessoas (sindicalizadas) que criticam a actuação dos sindicatos nunca apareceram numa reunião para dar a sua opinião, para apresentar as suas críticas. A maioria, não conhece, inclusivamente, as linhas com que se cose (falo de legislação que os beneficia e/ou prejudica – pelo que vejo/oiço a maioria não leu uma linha dos últimos documentos, apenas conhece “alguns títulos de jornais” o que é muito pouco abonatório da nossa classe; muitas vezes ouviram uma noticiazita e quando me vêm perguntar do que se trata e eu os elucido dizem-me “não pode ser, lá estás tu a exagerar” – o problema é quando não há nada a fazer e reconhecem que até lhes dei uma explicação soft… mesmo assim não aprendem; na vez seguinte acontece a mesma “cena”).
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Creio que os não sindicalizados também têm a obrigação de contribuir com a sua opinião, já que apesar de não serem sindicalizados acabam por vir a ser beneficiados/ prejudicados pelas decisões/negociações decorrentes da actividade sindical. E assim como acho que se devem pronunciar, acho que também deveriam ser ouvidos pelos sindicatos. Talvez esta atitude, se assumida por ambos os lados, se constituísse num foco de maior dinamização e unidade da classe.
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Sei que há muita gente desiludida com a actividade sindical. Este facto resulta da pouca participação dos sócios por um lado e da pouca actividade (perceptível) dos sindicalistas por outro. Tal como em altura de tempestades, só nos lembramos de Santa Bárbara quando há trovões. Também aqui se passa o mesmo. Só nos lembramos dos sindicatos em momentos de crise. Durante o resto do tempo abandonamo-los à sua sorte, não lhes damos apoio, deixamo-los decidir sozinhos. Isso aconteceu nos últimos anos. Houve um ligeiro tempo de bonança em que não fomos grandemente atacados, grandemente prejudicados… acomodámo-nos e deixámos os sindicatos sozinhos… também um pouco acomodados pela falta de grandes lutas, diga-se em abono da verdade…. Quando, de repente, chegou a crise, iniciada com o concurso de 2004, aqui d`el rei, “os sindicatos não fizeram, os sindicatos não aconteceram”…
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Os sindicatos somos nós … mas nunca dizemos “nós não fizemos, nós não acontecemos”. Depois queixamo-nos deles porque se sentiram sozinhos e agiram quase sozinhos, porque tentaram mobilizar-nos mas nós estávamos amuados e fizemos beicinho e dissemos “agora não brincamos”. Pois é … talvez nos falte a todos uma consciência política, uma consciência de classe, uma consciência de direitos, uma consciência dos deveres que temos para connosco e para com a classe, enquanto profissionais. Sim, porque ser profissional não é, apenas, exercer a profissão no nosso localzinho de trabalho. Ser profissional é ser crítico, é ser membro de uma classe, é lutar pela dignificação dessa classe nos seus diferentes status: social, científico, pedagógico, laboral. E essa luta não pode ser individual, já que numa luta desse tipo não se marcam muitos pontos. Os itens, que referi, constituem os pilares de uma profissão. Faltando a autenticidade de um deles que seja o estatuto do profissional fica ferido e a profissão de todos e de cada um é afectada.