03/09/2006

Os Filhos de Rousseau (III)

Num artigo inesperadamente lúcido e interessante, Maria Filomena Mónica escrevia que "Aqueles que argumentam que uma expansão acelerada do Ensino Superior é um instrumento de democratização, ou de crescimento económico, estão a enganar-se a si próprios e, o que é pior, aos outros. Sob a capa da retórica igualitarista, aniquilam a única oportunidade dos filhos dos pobres têm de sair do buraco onde nasceram".

Também se tornou conhecida a figura de Nuno Crato, que acusa os Filhos de Rousseau de serem românticos: «Romantismo. Movimento que varreu a Europa e daí a cultura americana [...] acima de tudo a elevação da natureza e do sentimento acima da civilização e do intelecto de acordo com Rousseau [...] predominância do subjectivo, do imaginativo e de emocional [... defesa da ideia da] espontânea inocência da criança corrompida pela separação intelectual com a natureza»

Um dos melhores artigos publicados acerca do estado do ensino é de Desidério Murcho que diz, entre outras coisas, o seguinte:
Hoje, as elites descobriram uma nova maneira de manter os seus privilégios e lixar todo o país: nivelam por baixo. Isto é fixe porque dá a sensação que estão a ser progressistas. Mas é evidente que quem tem a ganhar com um mau ensino generalizado, em que todos os estudantes passam, é quem tem privilégios. Que o filho de um professor universitário ou de um médico tenha uma educação miserável na escola é muito pouco importante porque a tem em casa; mas para o filho do pedreiro, é muito grave: se não a tem na escola, não a tem em lado nenhum. E isto é mau para o país. Porque acabamos por ficar com piores professores universitários e médicos e advogados e engenheiros, que o são só por serem filhos dos privilegiados, ao passo que os filhos dos que não pertencem às elites, mesmo que sejam mais inteligentes do que os outros, vão ficar sempre para trás. E é claro que do ponto de vista pós-modernaço está tudo bem assim, porque é tudo precisamente uma questão de luta irracional, sofística e simiesca pelo poder, não havendo quaisquer critérios de justiça social nem de racionalidade que nos valham.



2 comentários:

henrique santos disse...

Caro Prof24
parece-me que o caro aprecia o lado digamos anti-eduquês de ver a educação.
Eu não estou explicitamente de nenhum desses lados, pois as minhas referências são também muitas outras. Mas no que concerne a esse debate quantas vezes troglodita em que os Anti assumindo o papel de elites esclarecidas e modernas rotulam, chamam nomes e tentam desqualificar os supostos eduqueses sem intenção nenhuma de verdadeiro debate, no que concerne debate a minha simpatia pende muito maispara o lado dos chamados eduqueses.
Acho no entanto que tem sido muito interessante a sua publicação de de ideias de autores de referência. Excluo dessa classificação MFM, MFB, pelo menos nos textos que têm vindo recentemente ao nosso conhecimento e nos discursos televisivos, por muito que pareçam defender os professores.
A nossa defesa tem de ser feita com ideias e palavras de nós mesmos e não com palavras que tornam algumas das nossas acomodadas práticas dignas de defesa.
É com gosto que seguirei com certeza os seus próximos posts

Prof24 disse...

Caro Henrique,
Não sou defensor de coisa nenhuma, excepto de um ensino público gratuito, universal e com qualidade. Se nesta altura me posiciono mais a favor da balança do anti-eduquês, é porque me parece que ela, a balança, está viciada a favor do eduquês". Mas não deixo de dar razão a ambos os lados: simplesmente, as palavras "eduquês" e "anti-eduquês" designam demasiadas coisas ao mesmo tempo, caindo-se num vazio semântico completo. Se por "eduquês" se entende a defesa da existência de moedlos e práticas pedagógicas que facilitem as aprendizagens, numa definição propositadamente vaga e insuficiente, então eu sou eduquês; se por "anti-eduquês" se entende a defesa da anterioridade dos conhecimentos científicos (o "saber") sobre as competências ("saber-fazer", então eu sou anti-eduquês.

Quanto a MFM e Maria de Fátima Bonifácio, devo dizer-lhe que não gosto particularmente da primeira e não conheço a "história" da segunda; mas penso que tanto uma como outra escrevem algumas coisas em que lhes deve ser reconhecida razão.